Papéis baratos na crise?

Anúncios de recompras de ações triplicam enquanto Bolsa despenca; entenda como funcionam os programas

Em meio à queda de quase 40% do Ibovespa no 1º trimestre, anúncios de recompras chegam a 26 empresas; em igual período de 2019, eram apenas nove programas

SÃO PAULO – Um total de 26 empresas listadas na B3 fez anúncios de recompras de ações durante o primeiro trimestre do ano. O número supera e muito o registrado em igual período do ano passado, com apenas nove programas. O mecanismo é utilizado pelas companhias quando consideram que a cotação de suas ações está baixa. Com a queda de 37% do Ibovespa entre janeiro e março, não faltou motivo para essa escolha.

As empresas podem ter programas de recompras esporádicos ou de forma regular. Em nenhum dos dois casos, contudo, precisam efetivar as aquisições. Mas o derretimento da Bolsa acaba sendo um incentivo para que essas intenções saiam do papel.

Ter dinheiro em caixa ou reserva de capital é um dos fatores que indica se a empresa terá condições de recomprar suas ações. Raphael Figueredo, analista da Eleven Financial, lembra que, de forma geral, as companhias brasileiras estão bem capitalizadas e podem aproveitar o momento de desvalorização da Bolsa para anunciar os programas de recompra.

“Isso já aconteceu durante a crise de 2008. Mas, naquela época, a empresa podia recomprar suas ações ou aplicar no CDI. Hoje, essa segunda opção não faz muito sentido, então a empresa acaba investindo nela mesmo”, diz.

Em setembro de 2008, período da quebra do Lehman Brothers, a Selic estava em 13,75% ao ano. Atualmente, a taxa básica de juros corresponde a 3,75% ao ano, o menor patamar da história.

Confira a seguir a lista com os programas de recompras anunciados no primeiro trimestre deste ano.

Empresa Quantidade de ações na recompra % ações em circulação
Anima 6,4 milhões ONs 10
Arezzo 4,5 milhões ONs 10
B3 21,7 milhões ONs 1,05
Banco BMG 10,7 milhões ONs 10
Banco Inter 13,4 milhões ONs e 29,5 milhões PNs 10
BRF 7,5 milhões ONs 0,93
CEEE 68,9 mil ONs e 75,3 mil PNs ND*
Cielo 4 milhões ONs 0,41
Cosan 10 milhões ONs 2,54
CSU Cardsystem 3 milhões ONs 16,47
Cyrela 4,9 milhões ONs 6,89
Eztec 9,6 milhões ONs 10
Hapvida 21,7 milhões ONs 10
Hering 835,5 mil ONs 0,66
IRB 41,9 milhões ONs 5
JBS 156,8 milhões ONs 10
Linx 8,1 milhões ONs 4,51
Log 4 milhões ONs 4,10
M.Dias Branco 8,5 milhões ONs 10
MRV 15 milhões ONs 5,10
Notre Dame Intermédica 3,4 milhões ONs 0,60
PGB (Portobello) 3,9 milhões ONs 5
Porto Seguro  5 milhões ONs 5,32
Renner 8 milhões ONs 1
Trisul 5 milhões ONs 6,30
Tupy 235 mil ONs 0,35

*Não divulgado.
Fontes: CVM e empresas.

A Hering é uma das empresas que fazem parte dessa lista recente. Depois de não ter comprado nenhuma ação no programa de recompra encerrado em 5 de fevereiro, renovou o prazo por mais 12 meses.

Nesse período, viu as ações despencarem e, no último dia 16, anunciou que comprou todos os papéis que faziam parte do programa (1,49 milhão de ações ordinárias) e que estava abrindo um novo programa, dessa vez de 835,5 milhões de ações (equivalentes a 0,66% do capital da empresa).

Entre os dias 5 de fevereiro, quando renovou o programa de recompras, e 16 de março, data em que anunciou tê-lo executado integralmente e sua intenção de comprar ainda mais papéis, a cotação de HGTX3 caiu de R$ 25,52 para R$ 13,99. No acumulado do primeiro trimestre, o recuo da cotação foi ainda mais significativo (56,3%), de R$ 34,04 para R$ 14,88.

A companhia comunicou que o objetivo do novo programa é “subsidiar os planos de opção de compra de ações ou outras formas de remuneração baseada em ações da companhia, cancelamento, permanência em tesouraria ou alienação”. Para isso, irá usar parte dos R$ 13,87 milhões que possui de reserva de capital.

Impactos sobre as cotações

Na avaliação de Figueredo, da Eleven, o efeito de um programa de recompra na cotação das ações depende do volume a ser comprado, que obrigatoriamente precisa ser anunciado pela empresa. No entanto, o fato mais importante é a indicação que a administração da empresa dá ao mercado.

“É um sinal que o controlador, ao olhar que o preço da ação está depreciado, vê uma oportunidade. Se achasse o papel caro, não anunciaria esse programa “, observa.

A maior parte dos anúncios, 21, foi feita em março. Empresas de diferentes portes e setores lançaram mão desse mecanismo. Entre as grandes, o anúncio mais recente foi a da BRF.

Empresas que abriram capital recentemente também fizeram o mesmo. Esse é o caso do BMG, que fez sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em outubro e, no mês passado, anunciou um programa de recompra de até 10% das ações em circulação.

No exterior, o programa de recompra de ações que mais chamou a atenção foi o do japonês Softbank, que pretende recomprar até US$ 18 bilhões em ações. Para atingir esse volume de recursos, deve se desfazer de ativos avaliados em mais de US$ 40 bilhões.

A empresa da área de tecnologia tem um segmento que investe em startups. Entre seus aportes mais famosos estão Uber e WeWork. No Brasil, tem participação no banco Inter – esse também com programa de recompra em aberto.

EUA no rumo oposto

Esse comportamento, no entanto, difere do que tem sido registrado no mercado americano. Levantamento do banco de investimentos Goldman Sachs mostra que as empresas cujas ações integram o S&P 500 estão cancelando ou suspendendo seus programas de “buyback” (recompra) como forma de enfrentar o período de incertezas causado pelo novo coronavírus. Os cancelamentos já equivalem a 25% do total de 2019.

A sinalização de que a administração de uma empresa está confiante na companhia, e por isso vai comprar parte dos papéis que julga barato, pode levar a cotação a subir logo após o anúncio do programa de recompra. No entanto, para William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o investidor sem a necessidade imediata de recursos não deveria vender o papel nesse momento.

“As empresas estão fazendo isso porque os papéis derreteram. Vender agora não é uma estratégia adequada para o investidor pessoa física”, avalia.

Fernando Araújo, gestor da FCL Capital, reforça que permanecer com os papéis pode render um ganho indireto ao investidor. Isso porque, caso opte por cancelar os papéis que recomprou, a empresa, beneficiará os demais acionistas na distribuição de lucros (o montante a ser distribuído será dividido por um número menor de ações).

“Pode ser um impulso na distribuição dos dividendos no futuro.”

Da mesma forma, as empresas podem utilizar a recompra de ações para, no futuro, obterem um ganho com essa transação.

“É uma forma de a empresa ter recursos quando o mercado voltar a ser mais racional. Lá na frente, com as ações se recuperando, ela pode vendê-las”, diz Pedro Galdi, analista da Mirae Asset.

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