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Antes visto como superpotência, Brasil vê ”campeões nacionais” caírem, diz FT

Dois anos depois da euforia, grandes corporações como Vale, Petrobras e OGX se encontram em situação complicada e a atuação do BNDES para eleger campeões chega ao fim

SÃO PAULO – Em matéria publicada no último domingo (21), o jornal britânico Financial Times traçou um cenário da economia brasileira bem diferente em relação ao ambiente destacado em 2010, quando o país foi anunciado como ”a próxima superpotência econômica do mundo”. 

O ambiente que se desenha atualmente não é nada favorável quando comparado àquele período, em que o Brasil se apoiava na alta dos preços das commodities e do crescimento do crédito.

A queda da economia brasileira – que apresentou um dos menores crescimentos do PIB dentre os países que compõem os BRICs (Brasil, Índia, Rússia e China) – também foi acompanhada pela baixa ainda mais dramática das empresas de Eike Batista, cuja fortuna registrou uma forte baixa após problemas com a produção e de endividamento. 

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Naquele ano, o programa norte-americano “60 minutes”, do canal CBS, destacou o megaempresário Eike Batista como o embaixador do País. A publicação britânica destaca que, até aquele período, Batista acumulava cerca de US$ 30 bilhões por meio de suas participações no grupo EBX, bem acima dos R$ 10 bilhões vistos no último fechamento.

”Apesar da sua queda ter sido a mais dramática, o grupo X de Batista é apenas um de uma série de brasileiros ‘campeões nacionais’ – grandes empresas privadas e de economia mista que foram grandes beneficiários do crédito estatal subsidiado – que estão em derrocada com o fim do rápido crescimento econômico do país e com a alta dos preços das commodities”, aponta o Financial Times.

Outras empresas que estão sofrendo neste ambiente são a Petrobras (PETR3;PETR4) e a Vale (VALE3;VALE5). O Financial Times cita até mesmo o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que financia muitos desses grupos. ”A situação complicada das maiores empresas do Brasil são um sinal de alarme das limitações de um modelo de crescimento do estilo chinês, em que o Estado escolhe os vencedores corporativos”, aponta. 

BNDES alça campeões nacionais 
O Financial Times destaca que os grandes volumes de financiamentos feitos pelo BNDES começaram em 2003, com a chegada de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República, que beneficiou o JBS (JBSS3), expandindo sua atuação no exterior, e a Petrobras, que foi alçada como única operadora das descobertas de petróleo no pré-sal brasileiro. 

Em seguida, veio a OGX (OGXP3) que, após causar euforia no mercado, atualmente tem se tornado uma grande decepção para os investidores. De acordo com Aldo Musacchio, professor associado da Harvard Business School, a história de Eike Batista se encaixa no modelo de história financeira nacional.

“Durante o boom de commodities, o Brasil prospera, levando os investidores a acreditarem que a velha história de País do futuro estava prestes a se materializar. A OGX foi uma destas ações que os investidores passaram a apostar como meio de apostar no País”, avalia, em entrevista ao jornal britânico. 

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Neste cenário, o Financial Times chama atenção para as políticas da Petrobras, como as exigências de conteúdo nacional, que muitas vezes vão contra os interesses da própria companhia e de seus acionistas minoritários. Já a Vale enfrenta uma internacionalização bastante conturbada e busca por reestruturação.

Mudanças à vista?
O presidente-executivo da Bunge – a maior comerciante agrícola da América do Sul -, Alberto Weisser, revelou em reunião de cúpula do Financial Times que o Brasil se tornou muito caro e que perdeu a sua vantagem competitiva. Entretanto, aponta, há alguns sinais de incentivos, como privatizações em portos, ferrovias e logística. ”Com prováveis 10 anos de atraso, mas está acontecendo”. 

A reportagem aponta assim que, se por um lado há dúvidas sobre a efetividade do BNDES, algumas outras companhias têm um bom desempenho após os financiamentos do banco de fomento – caso do JBS e da Embraer (EMBR3).

Entretanto, aponta, as agruras dos maiores campeões estão levando muitos a se perguntarem se a era da eleição dos ”campeões nacionais” está no fim. As atuações do BNDES estão caminhando para este sentido, com o banco de fomento mudando o seu foco para investimentos em infraestrutura, em meio à proximidade dos grandes eventos esportivos no País. 

Neste sentido, está a declaração do presidente da instituição, Luciano Coutinho, para o jornal ”O Estado de S. Paulo”, na última segunda-feira (22), que ressaltou que a promoção de competitividade de grandes empresas de expressão internacional é uma agenda que já foi concluída.