Ano novo, novas tendências: 6 pontos de atenção do BBI para 2026; Brasil é “top pick”

BBI reitera recomendação de compra em nomes da América Latina, com preferência pelo Brasil, diante da opcionalidade política e do ciclo de juros

Felipe Moreira

Imagem mostra telas com graficos de ações.
Imagem mostra telas com graficos de ações.

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Mesmo com o início fulminante do MSCI América Latina em 2026, com alta de 5,9%, e desempenho levemente superior ao dos mercados emergentes, o Bradesco BBI avalia que o bull market da América Latina ainda tem espaço para avançar neste ano. Segundo o banco, os vetores domésticos ganham força em um tripé formado por eleições (Peru, Colômbia e Brasil), ciclos de queda de juros liderados pelo Brasil e reformas estruturais no Chile, Argentina e até no México.

Nesse contexto, a recuperação dos lucros tende a assumir um papel mais relevante na performance dos ativos, ao lado de ganhos adicionais de valuation e de câmbio.

A casa reitera recomendação overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente à compra) em nomes da região, com preferência pelo Brasil, diante da opcionalidade política e do ciclo de juros, em Chile, pela surpresa positiva de crescimento e câmbio, e em Argentina, pela agenda de reformas. Para o México, a recomendação é neutra, com catalisadores ligados ao USMCA e ao PIB mais concentrados no fim do período.

Viva do lucro de grandes empresas

Segundo o BBI, os fatores domésticos ganharam protagonismo na América Latina em um grau não visto no ano passado. A intervenção dos EUA na Venezuela dominou o noticiário, ao lado do início antecipado do ciclo eleitoral brasileiro, da largada do ciclo de cortes de juros no Brasil no primeiro trimestre e da aproximação da eleição presidencial de março na Colômbia. As seis tendências que mais se destacaram no começo do ano são as seguintes:

1 – A rotação para emergentes acelera com forte “efeito janeiro”

Faz 25 anos que os investidores não veem dois anos consecutivos de desempenho superior dos emergentes em relação aos EUA. A rotação global iniciada no ano passado ganhou tração no começo de 2026. Ações de mercados emergentes e de fronteira superam os EUA em mais de 400 pontos-base no ano, movimento impulsionado por uma realocação típica de janeiro, com entrada de cerca de US$ 4 bilhões em fundo de índices (ETFs) de emergentes baseados nos EUA apenas na última semana, equivalente a quase 1% dos ativos sob gestão.

O Bradesco BBI vê esse movimento como sustentável. Primeiro, porque os emergentes têm um tamanho relativo pequeno, o que faz com que fluxos modestos tenham impacto relevante, com alocações médias de apenas 3% em fundos mútuos e 4% em ETFs, frente a um peso neutro de 10% no MSCI.

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Em segundo lugar, porque os fluxos refletem mais uma necessidade de mitigação de risco, diante do elevado underweight (exposição abaixo da média do mercado, equivalente à venda) consensual nos mercados emergentes, do que uma narrativa fortemente positiva, embora os fundamentos estejam alinhados, com crescimento global mais forte, juros mais baixos e valuations mais baratos.

As ações latino-americanas acompanharam o rali dos emergentes, embora o Brasil, de maior peso, tenha ficado um pouco para trás à medida que fatores domésticos ganham relevância. Mercados menores lideraram, com o Peru se beneficiando da alta do cobre e a Colômbia da melhora nas pesquisas eleitorais antes do pleito de março, além da sensibilidade a uma eventual melhora na Venezuela.

2 – Rotação setorial favorece commodities e penaliza vencedores de 2025

O BBI comenta que materiais lideram o desempenho neste ano, com os metais industriais se juntando ao rali dos metais preciosos. Esse movimento é subestimado nos índices, já que grande parte da exposição latino-americana a metais está listada fora da região. Energia também supera o mercado após ter sido o pior setor em 2025, com tensões geopolíticas elevando preços apesar da oferta abundante.

Ao mesmo tempo, há uma rotação para fora dos vencedores de 2025. Utilities, que subiram cerca de 80% no ano passado, ficam para trás em meio a preocupações hidrológicas e ao elevado posicionamento dos investidores. O setor de saúde, líder de 2025 com alta de 88%, também apresenta desempenho inferior.

3 – Fatores domésticos e ciclo de juros ganham peso

O Bradesco BBI avalia que eventos domésticos, como eleições, reformas e cortes de juros, serão mais relevantes em 2026 do que o cenário global, em uma inversão em relação a 2025. No Brasil, o ciclo eleitoral começou mais cedo, com a candidatura de Flávio Bolsonaro gerando desconforto nos mercados, pressionando inicialmente o real e pesando sobre empresas estatais.

A recente revalorização do real, combinada ao arrefecimento da atividade, mantém a reunião do Copom de janeiro como uma decisão em aberto para o primeiro corte de juros do ciclo, ainda que o consenso tenha migrado para março. Com cortes estimados em cerca de 300 pontos-base em 2026, o banco vê os lucros como a terceira perna do rali brasileiro, ao lado de valuations mais altos e câmbio mais forte.

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4- Colômbia

O MSCI Colômbia acumula alta de 18% no ano, liderando os emergentes após também ter sido destaque em 2025. Segundo BBI, o movimento reflete a melhora nas pesquisas para candidatos de direita antes da eleição presidencial de março e a percepção de benefícios indiretos de uma transição na Venezuela.

Apesar disso, o Bradesco BBI recomenda cautela diante da incerteza eleitoral, de riscos fiscais e de governabilidade e de valuations já acima da média. No setor bancário, altamente concentrado em Bancolombia, seria necessária uma compressão relevante do custo de capital para justificar os níveis atuais de preço.

5 – Peru e Chile

Peru e Chile figuram entre os melhores desempenhos globais recentes, impulsionados pela alta dos metais, em especial do cobre. O banco está particularmente positivo em relação ao Chile, com expectativa de surpresa positiva em crescimento, lucros e câmbio, além de valuations ainda atrativos.

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A América Latina se destaca como a principal beneficiária globlal da ampliação do rali das commodities, por ter o maior peso em ações ligadas a recursos naturais e a menor exposição a tecnologia. Esse potencial é ainda maior quando se considera a grande quantidade de empresas latino-americanas de mineração listadas fora da região.

6 – Moedas latinas lideram em 2026

As moedas da América Latina dominam o ranking global de desempenho no início do ano, com Colômbia, Chile, Brasil e México ocupando as primeiras posições. O movimento é sustentado pela melhora dos termos de troca, pela rotação de portfólios e por carregamentos ainda atrativos.

Historicamente, o câmbio respondeu por cerca de metade do retorno das ações latino-americanas em moeda forte. A maior convicção cambial do Bradesco BBI está no peso chileno, pelo crescimento subestimado, e no real, que ainda não se realinhou plenamente aos pares emergentes. Já o peso mexicano inspira mais cautela, diante de possível complacência em relação às negociações do USMCA e à velocidade da recuperação cíclica do país.

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