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SÃO PAULO – “Produção industrial brasileira cai 12,4% em dezembro”; “CNI diz que quarto trimestre foi pior da indústria nos últimos 10 anos”; “Lula admite retração do PIB após fraco desempenho da indústria”. Basta um olhar de relance para as manchetes do início de 2009 para ver os primeiros sinais da crise na economia brasileira. A queda da bolsa liderou o caminho, que agora passa para a economia real.
Depois dos dados da indústria em dezembro, a reação foi forte. As estimativas de crescimento do PIB (Produto Interno Brasileiro), que já vinham em queda, foram reduzidas consideravelmente por diversos analistas. A ideia de que a economia brasileira estaria imune ao enfraquecimento global já foi posta de lado há muito.
De fato, a expectativa é de que a crise comece afetando o crédito e a indústria e depois se transfira aos poucos para outros setores da economia. Dessa forma, é necessário atenção aos indicadores que podem mostrar a piora – ou melhora – da situação econômica brasileira.
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O que olhar?
“Para ficar de olho aqui, com certeza, serão as taxas de inadimplência – um segundo momento, com a piora do cenário econômico. Tivemos dados muito ruins de produção industrial, que possivelmente vão se refletir, um pouco mais para março, no varejo”, informa Saulo Sabbá, diretor da Máxima Asset.
Segundo ele, esses resultados acabarão por pressionar o mercado de trabalho, o que arma um cenário ideal para começar a haver problemas de inadimplência, até mesmo de ativos que historicamente não enfrentam essas dificuldades, como o caso do crédito relativo a veículos. Caso isso venha a acontecer, é mais um sinal de cuidado com as instituições financeiras.
John Welch, economista do Banco Itaú, é ainda mais direto. Questionado sobre os indicadores que os investidores devem ficar de olho neste início de ano, a resposta é “com certeza o PIB”. A ser divulgado em março, o número irá mostrar o quanto a economia brasileira sofreu no último trimestre de 2008 – e quanto desse declínio será transferido para este ano.
Ademais, merecem atenção também os dados sobre estoques e agricultura, que podem sinalizar tendências do curto prazo. “A próxima sondagem industrial da FGV será importante”, avisa.
| As reações dos analistas aos indicadores | ||
| “Com isso, a indústria cresceu 3,1% no ano passado, ficando abaixo da nossa expectativa (3,7%). Dessa forma, devemos esperar um resultado ainda mais fraco para o PIB do quarto trimestre. Nossa projeção foi ajustada para queda de 2,3% na margem, o que significa um crescimento de 5,2% do PIB em 2008 – Tendências Consultoria, em relatório – 4/2/2009. | “A produção industrial de dezembro indica uma contração mais significativa do PIB no quarto trimestre de 2008 e aumenta a possibilidade de um ritmo mais forte de corte do juro básico em março. Nós revisamos nossas projeções de contração do PIB no trimestre de 1,9% para 2,5%. Como resultado, revisamos nossa projeção para o crescimento do PIB de 2008 de 5,3% para 5,1%” –Credit Suisse, em relatório – 4/2/2009. | |
| ” O resultado da produção industrial de dezembro adiciona um risco significativo de declínio às nossas estimativas para crescimento do PIB no quarto trimestre de 2008, indicando uma queda de até 2,8%. Se isso se provar certo, haverá impactos nas perspectivas para o crescimento do PIB em 2009, enquanto a transferência do crescimento de 2008 será negativa, com o poder de reduzir o PIB de 2009 para menos de 0,5% no ano” – Unibanco, em relatório – 4/2/2009. | ” Uma das principais consequências desse resultado surpreendentemente negativo é a revisão de nossa estimativa para crescimento do PIB no quarto trimestre de 2008 para recuo de 2,6%, abaixo da contração previamente esperada, de 1,7%. O esfriamento da atividade no final do ano fornece uma transferência negativa de cerca de 1% que irá afetar o crescimento econômico em 2009. Por causa disso, nós abaixamos nossa previsão de crescimento para 2009 de 2% para 1%.” – Santander, em relatório – 4/2/2009. | |
O pior já passou
Porém, por trás do pessimismo trazido pelos dados industriais, a ideia é que o pior já passou. A forte queda de dezembro é vista como um ajuste – necessário – dos estoques brasileiros, sendo que os dados de venda devem ser vistos como indicadores de quando esse ajuste pode terminar.
De acordo com a LCA Consultoria, esse ano já começa melhor. “Diversos indicadores sinalizam alguma recuperação marginal da atividade no começo deste ano: a produção de autoveículos; a confiança do consumidor; a demanda percebida pela indústria; e as
concessões de crédito com recursos livres (segundo dados parciais apresentados pelo presidente do BC)”. Dessa forma, a instituição já espera a volta de um crescimento modesto no primeiro trimestre.
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Para o Itaú, as estimativas são mais pessimistas. Seguindo a expectativa de retração de 1,8% do PIB do Brasil no quarto trimestre de 2008, o primeiro trimestre deste ano deve ter queda de 0,5%. Já o segundo quarto teria crescimento nulo, enquanto os últimos dois trimestres do ano seriam de avanços de 1,8% e 1,2%, respectivamente.
Queda dos juros
Porém, não são apenas os indicadores que devem ficar no centro das atenções. Um dos pontos mais ressaltados pelos analistas após os últimos dados da economia brasileira é a política monetária. As apostas agora são de cortes entre 75 e 100 pontos-base no juro básico já na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em março, mesmo frente à aceleração do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de janeiro acima da esperada.
Segundo a LCA Consultoria, que aumentou as previsões para redução de 100 pontos-base na taxa Selic, há três motivos principais para um corte maior do que o inicialmente estimado: a piora da inflação se deu apenas no retrovisor, não contaminando as expectativas, que seguem ancoradas; a atividade dá sinais de recuperação na margem, mas partindo de um nível mais deprimido do que o esperado; e o câmbio registra pressão menor do que acontecia no final de janeiro.