Analista pega lancha e vai a Ormuz — e traz visão nada animadora para o petróleo

Citrini Research, que ficou famosa após ajudar a derrubar ações de IA, enviou um analista à região em conflito para apurar o que dados de satélite e fontes oficiais não captam - e trouxe perspectiva ainda mais negativa para a commodity

Paulo Barros

Navio-tanque de gás GLP no Estreito de Hormuz, em Shinas, Omã  -11/03/2026 (Foto: REUTERS/Benoit Tessier)
Navio-tanque de gás GLP no Estreito de Hormuz, em Shinas, Omã -11/03/2026 (Foto: REUTERS/Benoit Tessier)

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Enquanto gestores de Wall Street admitiam não ter informação melhor do que a de qualquer telespectador de TV sobre o Estreito de Ormuz, a Citrini Research tomou uma decisão incomum: mandou um analista para lá.

O profissional, identificado pela firma apenas como Analista #3 para preservar sua segurança, é quadrilíngue, fala árabe e não é americano. Partiu de Nova York com US$ 15 mil (R$ 77 mil) em espécie, charutos cubanos, um estojo Pelican com câmera de 150x de zoom e um gimbal. O destino era a Península de Musandam, no norte de Omã, a poucos quilômetros do litoral iraniano.

“O Morgan Stanley não está mandando analistas de investimento para Fujairah”, disse James van Geelen, fundador da Citrini, em entrevista ao à revista New York Magazine. “O hotel está praticamente vazio, exceto por seis caras de terno.”

O analista navegou pelo estreito em uma lancha sem GPS, a 18 milhas da costa do Irã, enquanto drones Shahed sobrevoavam a área e embarcações da Guarda Revolucionária Iraniana faziam patrulha. Foi interceptado pela Guarda Costeira de Omã, detido e teve o celular confiscado.

O que ele encontrou contradiz a narrativa dominante nos mercados de que o estreito está efetivamente fechado.

Segundo o relatório da Citrini, o tráfego de navios está se recuperando, com aproximadamente 15 embarcações por dia nos momentos de maior fluxo. O número está bem abaixo do normal, mas indica uma disrupção parcial, não absoluta. Parte significativa dos navios transita pelo Canal de Qeshm, um corredor menos visível próximo a uma ilha iraniana, e com os transponders AIS desligados, o que faz com que não apareçam nos sistemas públicos de rastreamento.

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“Tanques passando quatro ou cinco por dia, completamente invisíveis no AIS. O volume é maior do que os dados sugerem, e tem acelerado nos últimos dias pelo canal de Qeshm”, diz trecho do relatório.

A maioria das embarcações observadas era de bandeira chinesa, em navios que, segundo fontes ouvidas pelo analista, pagaram ao Irã pelo direito de passagem. O quadro descrito é de controle seletivo pelo Irã de quem atravessa o estreito.

Van Geelen disse à New York Magazine que as fontes consultadas pelo analista, entre capitães de petroleiros, corretores marítimos, pescadores locais, contrabandistas e oficiais omanis, relataram um volume de ataques iranianos a embarcações maior do que o noticiado. “De tudo o que pudemos apurar, houve muito mais ataques de mísseis do que qualquer pessoa realmente sabe”, afirmou.

O fundador da Citrini descreveu o ambiente local como de forte antecipação de escalada. “Parece que cada pessoa com quem conversamos está se preparando para um conflito de meses, no mínimo”, disse.

A tese de investimento da firma decorre diretamente dessa leitura de campo. A Citrini afirma que a interrupção deve ser mais prolongada do que o mercado precifica, criando um prêmio de risco permanente no petróleo. A preferência da firma é por contratos de WTI com vencimento em dezembro de 2026, em vez dos contratos do mês mais próximo.

“Não vejo muito risco precificado de que isso seja um conflito prolongado e complexo”, disse van Geelen. “Eu estava realmente esperando ir lá e descobrir que tudo estava bem, mas até agora não foi o caso.”

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Com o petróleo em torno de US$ 110 por barril, o fundador da Citrini avaliou os limites de tolerância da economia americana: preços médios de US$ 90 por barril por seis meses seriam administráveis, mas US$ 120, combinados com trigo e fertilizantes 50% mais caros, “podem levar a algumas coisas desagradáveis”.

A Citrini ganhou visibilidade em fevereiro, quando um relatório seu sobre os efeitos econômicos da inteligência artificial provocou queda de US$ 200 bilhões em valor de mercado de empresas de tecnologia. A casa é pequena, mas administra atualmente o maior blog de finanças do Substack, com mais de 204 mil assinantes.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)