Reforma do IR acelera corrida por dividendos: empresas podem antecipar até R$ 85 bi

A nova regra estabelece uma alíquota de 10% de imposto de renda retido na fonte (IRRF) sobre dividendos mensais acima de R$ 50 mil pagos a pessoas físicas

Lara Rizério

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(Freepik)
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A aprovação da reforma do Imposto de Renda pela Câmara dos Deputados em 1º de outubro e sua sanção presidencial em 26 de novembro desencadeou uma movimentação estratégica entre empresas brasileiras, ressalta a XP Investimentos.

A nova regra estabelece uma alíquota de 10% de imposto de renda retido na fonte (IRRF) sobre dividendos mensais acima de R$ 50 mil pagos a pessoas físicas, mas preserva a isenção para lucros apurados até 31 de dezembro de 2025, mesmo que distribuídos até 2028.

Esse detalhe criou um incentivo poderoso: companhias estão antecipando anúncios de dividendos para aproveitar a janela de isenção. Até agora, nomes como Itaú (ITUB4), Vale (VALE3), Allos (ALOS3), Marcopolo (POMO4), Vulcabras (VULC3) e Azzas 2154 (AZZA3) já anunciaram distribuições que somam R$ 42,2 bilhões, sendo que as duas primeiras anunciaram na última quinta-feira.

Viva do lucro de grandes empresas

TickerNomeSetorData de AnúncioValor ($ mi)YieldValor como % das reservas e lucros retidos
VULC3VulcabrasVarejo30-outR$ 59010%64%
ALOS3AllosPropriedades Comerciais12-novR$ 1.90013%84%
POMO4MarcopoloBens de Capital17-novR$ 87911%36%
AZZA3Azzas 2154Varejo17-novR$ 1803%21%
ITUB4ItaúBancos27-novR$ 23.4004,9%94%
VALE3ValeMineração & Siderurgia27-novR$ 15.3001,9%4%

Analistas estimam que, considerando três cenários possíveis, o montante adicional pode variar entre R$ 42 bilhões e R$ 85 bilhões nas próximas semanas e meses.

A proposta em discussão na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado para estender o prazo de aprovação das distribuições até abril de 2026 ainda não foi votada, mantendo a urgência para as empresas.

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Segundo especialistas, mesmo uma distribuição parcial do potencial identificado — que chega a R$ 170 bilhões em lucros retidos e reservas — pode gerar impactos relevantes no mercado. Uma antecipação de 25% desse valor representaria R$ 42 bilhões, enquanto 50% chegaria a R$ 85 bilhões, com yields estimados entre 6,8% e 13,5%.

Com o novo regime tributário prestes a entrar em vigor, investidores e companhias monitoram de perto os próximos movimentos.

“A corrida pelos dividendos extraordinários promete ser um dos principais catalisadores do mercado brasileiro até o fim de 2025”, avalia.

Potencial de dividendos

A XP também estima o potencial total de distribuição de dividendos das empresas brasileiras olhando para o setor, agregando os valores de reservas de lucros e lucros retidos das companhias sob a sua cobertura. Esse exercício resulta em um potencial de distribuição — caso as empresas distribuíssem integralmente suas reservas de lucros e lucros retidos — de R$ 614,8 bilhões, equivalente a um dividend yield de 22,1%. Na análise setorial, Commodities e Defensivos se destacam, com potenciais dividend yields de 27,3% e 29,0%, respectivamente.

Leia mais: Dividendos em 2026: o que muda para empresas e investidores

Ao fazer uma análise, eles apontam quem poderia antecipar pagamentos de dividendos em níveis atrativos, resultando em uma lista de 25 empresas.

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O filtro aplicou os seguintes critérios:

1. Dívida Líquida/Ebitda esperado para 2025 abaixo de 2 vezes;

2. Payout esperado para 2025 acima de 0;

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3. Histórico de pagamento de pelo menos um dividendo por ano, em média, nos últimos cinco anos;

4. Probabilidade média ou alta de antecipação de dividendos, conforme avaliação dos nossos analistas setoriais;

5. Reservas de lucros e lucros retidos suficientes para gerar um dividend yield potencial de pelo menos 10%.

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Empresas com alto potencial para antecipar pagamento de divendos em níveis atrativos antes do final de 2025

TickerSetorProb. de pag. de dividendosDistribuição potencial (R$ mi)Yield potencialDiv. Líq./EBITDAPayout 2025ENº médio de pag. de dividendos
USIM5Mineração & SiderurgiaMédio7.348110,2%0,44,3%1,4
GGBR4Mineração & SiderurgiaAlto24.12868,1%0,927,4%4,4
RECV3Óleo & GásMédio1.64353,5%1,032,7%1,6
EZTC3Construção CivilAlto2.03348,4%-0,128,8%3,2
CYRE3Construção CivilAlto5.78145,5%0,422,0%1,4
SOJA3AgroMédio506.00043,9%1,878,3%1,4
GUAR3VarejoAlto2.30542,4%0,415,9%1,8
RANI3Papel & CeluloseMédio697.00036,0%1,749,4%5,0
UGPA3Óleo & GásMédio8.42635,0%2,033,0%2,0
IGTI11Prop. ComerciaisMédio1.39534,8%1,633,1%1,4
ABEV3Alimentos & BebidasMédio58.64727,4%-0,887,1%1,8
MILS3TransportesMédio777.00026,8%1,470,5%3,6
KEPL3Bens de CapitalMédio421.00026,0%-0,492,5%3,0
VITT3AgroMédio167.00025,1%0,425,0%1,8
AXIA3ElétricasMédio32.78723,2%1,4255,1%1,6
EVEN3Construção CivilMédio350.00022,2%1,850,0%1,6
UNIP6Óleo & GásAlto1.25619,8%0,8204,3%3,2
TIMS3TMTMédio10.77818,0%0,9107,1%4,6
VIVA3VarejoMédio1.30916,5%0,09,1%1,4
MELK3Construção CivilMédio116.00015,2%-1,160,0%2,8
LAVV3Construção CivilAlto447.00014,0%0,540,0%3,4
PNVL3VarejoMédio189.00013,9%0,521,8%2,8
B3SA3Inst. FinanceirasMédio7.81510,8%0,364,4%4,8
DIRR3Construção CivilAlto1.00710,6%0,3149,1%1,8
Total170.32727,1%0,589,9%2,6

O filtro da XP aponta para uma capacidade potencial de distribuição de R$ 170,3 bilhões, o que se traduziria em um dividend yield potencial de 27,1%. Além disso, as empresas incluídas na lista apresentam níveis de alavancagem bastante confortáveis, com uma Dívida Líquida/Ebitda agregada estimada para 2025 de apenas 0,5 vez.

“Naturalmente, é pouco provável que as companhias distribuam todo o seu potencial. Ainda assim, mesmo cenários de distribuição parcial implicam rendimentos relevantes: uma distribuição de 25% do valor potencial resultaria em um yield de 6,8%; uma distribuição de 33%, em um yield de 8,9%; e uma distribuição de 50%, em um yield de 13,5%”, aponta a equipe de estratégia.

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.