Análise & Opinião: dez economistas avaliam o estado da economia do País

Maioria aposta em recuperação, mas há quem defenda recessão; confira a opinião dos analistas entrevistados pela InfoMoney

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SÃO PAULO – Dez economistas, dez pontos de vistas, uma indagação: qual é a situação da economia brasileira na atualidade? Estamos em um período de crescimento, desaceleração, estagnação ou recessão?

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O PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil sofreu uma forte contração de 3,6% no último trimestre de 2008, atingindo a maior desaceleração da série histórica, iniciada em 1996. Diante deste dado, o que podemos esperar para o período janeiro-março? E para o restante de 2009?

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Para avaliar e prever os rumos da economia brasileira, é necessário observar o desempenho das últimas cifras divulgadas. Assim como outros países emergentes, o Brasil foi fortemente abalado no fim de 2008 pelo agravamento da crise financeira internacional.

De acordo com dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a economia doméstica contraiu 5,3% no quarto trimestre do ano passado, em relação aos três meses anteriores.

A contração no PIB dos últimos três meses de 2008 foi resultado, sobretudo, do mau desempenho da produção industrial, que recuou 9,4% no período em análise.

Para piorar, o desaquecimento da indústria foi ainda mais inferior durante o primeiro trimestre de 2009, em comparação ao trimestre anterior, alcançando o menor patamar em dez anos, segundo dados divulgados pela CNI (Confederação Nacional das Indústrias).

Confira a evolução do PIB e da produção industrial:

Desempenho do PIB em 2008
Categorias de uso4T071T082T083T084T08
Passagem trimestral1,8%1,6%1,6%1,7%-3,6%
Produção Industrial (Comparação Anual)
Out/08Nov/08Dez/08Jan/09Fev/09Mar/09
-1,1%-6,4-14,8%-17,4%-16,8%-10%

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Diante deste cenário, são fortes as especulações de que o próximo resultado do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil colocará a economia brasileira em recessão técnica (dois trimestres consecutivos de contração).

A InfoMoney convidou especialistas de diversas instituições, incluindo corretoras do mercado financeiro, consultorias e agências de classificação de risco, a expressarem suas opiniões. Confira as respostas para a pergunta: qual é a real situação da economia brasileira neste momento?


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“Estaremos crescendo a todo vapor”
Ricardo Amorim

Economista e comentarista do programa de debates “Manhattan Connection” do canal GNT (Globosat). É também presidente da Ricam Consultoria

Para Amorim, a economia brasileira está em uma fase de “recuperação”. Ele reconhece que o período de recessão já ficou para trás (último trimestre de 2008 e primeiro trimestre de 2009) e ressalta que “estaremos crescendo a todo vapor antes do final do ano”.

Apesar desta aceleração, Amorim prevê que o PIB irá cair em 2009, “mas surpreenderá positivamente em 2010 com um crescimento próximo a 5%”.


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“A economia está pior do que imaginávamos”
Pedro Paulo Silveira

Economista-Chefe da Gradual Investimentos

Para Pedro Paulo Silveira, ao considerarmos os resultados do último trimestre de 2008, somados a “uma evidente contração do PIB entre janeiro e março deste ano”, estamos em recessão. De acordo com o economista, “os dados atuais apontam para uma taxa de crescimento muito moderada no segundo trimestre de 2009”.

O especialista adverte que não tem certeza absoluta de que a recessão se restringiu aos dois últimos trimestres. “Estávamos confiantes nos níveis de atividade econômica, mas os números não vieram conforme o esperado pelo mercado”, afirma.

Além disso, o economista-chefe da Gradual Investimentos ressalta que os dados de indústria e comércio estão muito fracos. “Nós tínhamos uma expectativa de melhora, mas as cifras apresentadas não agradaram”.

Quando questionado sobre o desempenho do mercado de trabalho, Pedro Paulo afirmou que o comportamento foi “moderado”, mesmo apesar do “tombo no PIB” do quarto trimestre de 2008 e da forte queda da produção industrial nos últimos meses, levando em consideração a base anual.

O economista acredita que, por conta disso, o comportamento do mercado de trabalho no futuro poderá não ser positivo. “Ainda haverá decisões sobre demissões que não foram tomadas no passado. Eu tenho este receio! A economia está pior do que imaginávamos”.


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“Os dados serão melhores no segundo semestre”
Marianna Costa

Economista-Chefe da Link Investimentos

Para a especialista, o Brasil enfrenta atualmente uma fase de “estabilidade”. Ela acredita que o PIB irá ficar negativo no primeiro trimestre de 2009, em termos anuais. Em seguida, durante o período abril-junho, a economia seguirá estável, para então se recuperar no segundo semestre e fechar o ano próxima a zero.

Na opinião de Marianna Costa, há grande preocupação no mercado em saber qual será o nível de produção industrial nos próximos dois anos. A economista acredita que as cifras registradas entre 2006 e 2008 não irão se repetir.

“Ocorrerá um crescimento com alta capacidade ociosa e taxa de desemprego mais elevada. A redução na taxa de investimentos também influenciará negativamente a expansão da economia”, prevê a economista-chefe da Link Investimentos. Contudo, ela estima que “os dados serão melhores no segundo semestre deste ano”.

Quando questionada sobre o desempenho do mercado de trabalho, Marianna Costa alertou que “devemos ter cautela ao observar estas cifras”. A especialista afirma que os indicadores de emprego são “defasados” e não refletem de imediato os acontecimentos da economia real.

“Eu acredito que muitos ajustes ainda deverão ocorrer no mercado de trabalho devido ao mau desempenho visto no último trimestre de 2008”. No entanto, as mudanças não serão tão significativas.

Para a economista, “é muito caro demitir ou contratar alguém no Brasil”. Em razão disso, os empresários primeiramente “recorrem a outros artifícios, como a redução de gastos ou diminuição da produção, antes mesmo de demitir”, complementa.


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“Primeiro trimestre apresentará dados ruins”
Juan Jensen

Economista Responsável pela Área de Macroeconomia da Tendências Consultoria

De acordo com Jensen, a economia brasileira “já está em recuperação desde janeiro”. No entanto, o economista alerta que “é uma recuperação lenta”.

O especialista projeta que o “primeiro trimestre apresentará dados ruins, seguindo a mesma tendência do observado em dezembro”, período classificado por ele como “o fundo do poço”.

O economista responsável pela área de macroeconomia da Tendências Consultoria justifica sua previsão de recuperação citando dados de consumo e produção industrial que, segundo ele, “foram melhores nos últimos meses”.

Jensen ainda acredita que o mercado de trabalho continuará a fazer ajustes. “O efeito é defasado e a melhora irá demorar”, explica. Por conta disso, o especialista ainda prevê novas demissões e acredita que a taxa de desemprego continuará a subir até meados de 2009.


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“É exagerado dizer que estamos em recessão técnica”
Francisco Pessoa

Economista e Especialista em Cenários Macroeconômicos da LCA Consultores

Para Francisco Pessoa, a economia brasileira está em um processo de “recuperação”. Segundo o especialista, a “melhora se dá de forma ponderada e com divergências setoriais”, ou seja, alguns segmentos da economia apresentam sinais positivos, ao mesmo tempo em que outros não.

Quando questionado se o PIB do primeiro trimestre registrará contração e colocará o Brasil em recessão técnica, o economista e especialista em cenários macroeconômicos da LCA Consultores revelou que “isso não é relevante”.

Francisco Pessoa disse não acreditar que um país entre em recessão por apenas dois trimestres consecutivos de retração na economia. Para ele, “é exagerado dizer que estamos em recessão técnica”. “Considero um país em recessão após quatro trimestres consecutivos de crescimentos negativos no PIB”, enfatiza.

Ainda sobre a performance da economia entre janeiro e março de 2009, Francisco Pessoa estima que o PIB permanecerá em terreno negativo. Ele ressalta que “a cifra será bastante baixa”, apesar de não citar números.

Já no segundo trimestre deste ano, o especialista prevê um resultado positivo, embora ainda moderado. Até o quarto trimestre de 2009, ele também estima por um crescimento do PIB, “mas em menores patamares do que os observados entre julho e setembro de 2008, quando a economia teve expansão entre 6% e 7%”.

Em relação à produção industrial, o economista prevê “que os estoques ainda irão crescer, embora em menor ritmo”. Para ele, o processo de estocagem foi muito forte em 2008. Em seguida, entre janeiro e março deste ano, os estoques caíram por conta da melhora na economia mundial.

Contudo, Francisco Pessoa já estima por ajustes “para cima”, embora em níveis menores em comparação ao final de 2008. “O pior da crise já passou. Não espero por um recrudescimento da crise”, afirmou o especialista, após reiterar que as companhias brasileiras “já voltaram a produzir no segundo trimestre”.

Ele acrescenta que “a lenta recuperação irá pegar fôlego ao longo dos próximos meses” e que a produção industrial irá registrar melhorias na margem.


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“Fecharemos 2009 com contração do PIB”
Elson Teles

Economista-Chefe da Concórdia Corretora

Para Teles, “o pior já ficou para trás”. Ele acredita que o PIB do primeiro trimestre ficará negativo e que a economia brasileira entrará em recessão técnica. O economista já prevê uma recuperação no segundo trimestre.

“Atualmente estamos crescendo na margem. Estamos em recuperação. Provavelmente não dará tempo de se recuperar até o fim do ano. Acredito que fecharemos 2009 com contração do PIB de aproximadamente -0,5%”, afirmou o especialista.

Elson Teles prevê também que a produção industrial vai permanecer negativa e que só deve se recuperar no último trimestre de 2009. “A recuperação é leve na margem mensal”, explica.

Ao ser questionado sobre o mercado de trabalho, o economista-chefe da Concórdia Corretora declara que “as companhias deveriam estar contratando mais do que atualmente”, e reconhece que isto é reflexo da atualidade econômica.

“Teremos uma taxa de desemprego acelerada nos próximos meses. É difícil prever recuperação. Em 2009, acredito que terminaremos o ano com uma taxa entre 8,5% e 9%. Melhorias no mercado de trabalho devem surgir apenas em 2010”, diz.

O economista ainda comentou sobre a atividade econômica e afirmou que, “neste caso, o fundo do poço não passou. Isso acontecerá mais pra frente. Será uma surpresa para nós se a economia não crescer entre o primeiro para o segundo trimestre”, afirmou.

De acordo com Teles, “são otimistas aqueles que pensam que os dados negativos melhores que o esperado são sinais de recuperação. A economia já deu sinais de que não vai pro abismo, mas ainda tem muito a percorrer e é cedo para comemorar”.


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“A economia está estagnada, sem sinais de melhoria”
Clodoir Vieira

Economista-Chefe da Souza Barros Corretora

Clodoir Vieira não vê a economia brasileira em recuperação. Para ele, os balanços das empresas, referentes ao primeiro trimestre de 2009, estão vindo com resultados ruins, principalmente com quedas nas vendas.

“A economia está estagnada, sem sinais de melhoria”, declara o economista. “As empresas exportadoras têm sofrido muito. Isso tem sido visto nos balanços. Algumas companhias até conseguiram vender mais, porém tiveram que reduzir as margens (preços) para escoar os estoques”, explica.

Questionado sobre a performance da produção industrial, o especialista revela que “não considera uma mudança de tendência a pequena melhoria vista nos últimos dados divulgados”.

Para Clodoir, a produção industrial “ainda está caindo e não parou”. “Não considero que seja uma retomada da indústria”, complementa.

O economista-chefe da Souza Barros Corretora ainda revela que a euforia em relação ao desempenho da economia brasileira é temporária. “Houve muito dinheiro injetado no mercado, o que resultou em números positivos no trimestre. Daqui em diante, este dinheiro sai do mercado e caímos na realidade”, reiterou.

Em relação ao mercado acionário, ele prevê que as bolsas “irão cair, mas não será um recuo acentuado”. Para o especialista, “o fundo do poço já ficou para trás. O momento é de estagnação, mas logo irá se recuperar”.

Quando o assunto é mercado de trabalho, Clodoir Vieira afirma que a retomada das contratações e surgimentos de novos postos de trabalho “irá demorar”. Segundo ele, os empresários avaliam atualmente a necessidade de admitir um profissional e não contratam no momento.

“Eu acredito que o período de demissões já passou. Novos cortes podem ocorrer em casos específicos. No entanto, no geral, estamos em um período de estagnação”, conclui.


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“O fundo do poço foi entre janeiro e meados de março”
Álvaro Bandeira

Economista-Chefe da Ágora Corretora

Para Álvaro Bandeira, a economia está em um processo de “lenta recuperação”. Ele ressalta sua preocupação com o crescimento de 1,7% no PIB do terceiro trimestre de 2008 e forte contração de 3,6% nos últimos três meses do ano passado.

“Na margem, a desaceleração foi fortíssima. Isso preocupou muito. Mas isso já era previsto. A economia entrará em recessão técnica no primeiro trimestre de 2009, mas logo começará a se recuperar”, estima.

O economista-chefe da Ágora Corretora prevê uma contração de 0,4% no PIB de 2009, para então ficar positivo em 3,5% no ano de 2010, quando o Brasil se recuperará da crise na frente de países desenvolvidos e de outros emergentes.

“O fundo do poço foi entre janeiro e meados de março. Agora começamos a ver dados melhores, embora alguns tendem a piorar, assim como o desemprego”, afirma Álvaro Bandeira.

Na opinião do especialista, o desemprego ainda irá aumentar antes de começar a cair, refletindo os efeitos do primeiro trimestre de 2009.

Já a produção industrial deverá encerrar este ano com taxa de -4%, o que intensifica ainda mais a quantidade de demissões no mercado de trabalho.


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“Abril e maio dirão se economia está em recuperação”
Alex Agostini

Economista-Chefe da Austin Ratings

Na opinião de Agostini, o Brasil está atualmente em um processo de “leve recuperação”, já que registrará contração na economia durante o primeiro trimestre de 2009 e “entrará em recessão técnica”. O especialista justifica sua avaliação citando os números das vendas no varejo e as cifras da produção industrial.

O economista-chefe da Austin Ratings acredita que “nem todos os setores e segmentos da economia estão em alta, mas há variáveis que nos deixam mais tranquilos frente ao futuro”.

Agostini explica que ao aliarmos os pontos positivos na economia com as pesquisas de confiança de empresários e dos consumidores, é possível perceber uma breve recuperação na tomada do sentimento. Contudo, o economista ressalta que esta melhora “ainda é pequena”. Ele prevê que somente após os dados do primeiro trimestre de 2009 será possível observar a intensidade desta recuperação.

“As medidas governamentais também influenciam. Os resultados de abril e maio vão dizer se a economia está em recuperação ou não até o final do ano”, acrescenta.

Alex Agostini estima que o fôlego no crescimento da economia ganhará proporção a partir do segundo trimestre e, após a metade do ano, “conseguiremos ver os efeitos das ações tomadas pelos governos para estimular a economia, tanto no Brasil como no mundo”.

Na questão do mercado de trabalho, o especialista ressaltou que alguns setores estão contratando, enquanto outros estão passando por ajustes.

“Com a crise, você ajusta os estoques, produção, quadro de pessoal, preços, etc. Quando a situação melhora, você faz todos os ajustes e, por último, recontrata se necessário. O emprego está voltando sim, mas no pontual. Com a melhora da economia, a contratação será mais ampla”, justifica.

Agostini ressalta ainda que o mercado seguirá atento aos dados da economia mundial. Qualquer indicador positivo em nações fortemente afetadas pela crise financeira, como os Estados Unidos e o Japão, por exemplo, será “um impulso para os países emergentes” e ajudará, mesmo que de forma ponderada, a restabelecer a confiança na economia.


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“Neste segundo trimestre, teremos um PIB positivo”
Alcides Leite

Economista e Professor da Trevisan Escola de Negócios

Na opinião de Alcides Leite, a economia brasileira está em “recuperação”. Segundo ele, há vários indicadores que comprovam esta tendência, assim como a melhora nos resultados das vendas no varejo e produção industrial, além da queda dos estoques.

“Neste segundo trimestre, teremos um PIB positivo”, acredita o professor, após estimar um crescimento entre 0% e 1%”. Consequentemente, o especialista prevê que a economia irá melhorar no decorrer dos demais meses, para então terminar o ano neste mesmo patamar (expansão de até +1%).

Em relação ao mercado de trabalho, o economista da Trevisan Escola de Negócios acredita que as empresas começarão a contratar nos próximos meses. Ele reitera que “o início do ano é um período de queda nas contratações. Por conta da crise, os dados vieram ainda piores”.

Contudo, Alcides Leite prevê que a criação de novas vagas no mercado de trabalho irá aumentar neste segundo trimestre. “Haverá mais contratações do que demissões. Neste sentido, a taxa de desemprego tende a cair, embora não chegará ao fim de 2009 registrando os mesmos níveis observados em igual período do ano passado”.