Análise: Inflação nos EUA dá armas para Fed manter ritmo dos juros, mas crise bancária ainda pode interferir

Previsão de alta de 25 pontos-base na semana que vem é quase unânime, mas riscos de contágio das falências podem mudar a rota

Roberto de Lira

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O dados da inflação do consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos de fevereiro e os detalhamentos que mostraram uma resiliência de preços em serviços seriam razões técnicas suficientes para que o Federal Reserve mantivesse o ritmo de alta de 25 pontos-base na taxa de juros na semana que vem. Mas analistas alertam que novas notícias sobre a crise de liquidez de bancos regionais podem mudar essa percepção.

Nesta terça-feira (14) o escritório de estatísticas do Departamento do Trabalho divulgou que índice de fevereiro  foi de 0,40% na comparação mensal e de 6,0% em 12 meses, ambos exatamente em linha com as projeções.

O núcleo da inflação, que desconsidera as variações de alimentos e energia, subiu 0,5% no mês e 5,5% nos últimos 12 meses, este último ligeiramente acima das estimativas.

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Se a análise hoje ficasse restrita apenas ao indicador e seus vários componentes, o diagnóstico dos especialistas seria de um lento processo de desinflação com algumas pressões relacionadas à demanda ainda forte por serviços.

Mas o colapso do Silicon Valley Bank (SVB) e do Signature Bank na semana passada e o eventual risco de contágio não só no setor como em outras áreas da economia entraram no radar do Fed e não podem ser desconsiderados, segundo as análise de bancos, corretores e gestoras de investimentos.

O economista Mohamed A. El-Erian escreveu hoje em sua conta no Twitter que a política do Fed hoje se resume a um trilema: reduzir a inflação, minimizar os danos ao crescimento e evitar instabilidades financeiras perturbadoras. “Nada fácil para um Fed que foi muito frouxo por muito tempo, descaracterizou a inflação, começou timidamente e pisou no freio”.

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Para Angelo Polydoro, economista da ASA Investments, o número de hoje perdeu muita importância porque a major preocupação da política economia dos EUA se tornou o contágio financeiro dessas quebras, como aconteceu em 2008.

“O índice hoje veio ruinzinho ainda, mas o Fed vai dar mais atenção a outras coisas que não só o combate à inflação”, comentou.

No entanto, Polydoro elogiou as rápidas respostas dadas no final de semana a respeito da proteção dos depósitos pelo Departamento do Tesouro, pelo fundo garantidor FDCI e pelo próprio Banco Central americano como importantes para manter a confiança no sistema. Isso pode dar à autoridade monetária um pouco mais de tranquilidade para tomar a decisão.

O economista da ASA ainda acredita que o Fed vai subir os juros em 25 pontos na próxima reunião. Mas mesmo que ocorram fatos novos sobre a crise dos bancos e os diretores tenham de decidir por uma pausa, com retomada do ciclo de aperto à frente, Polydoro disse não ver risco de perda de credibilidade do Fed.

Tudo isso, claro, depende informações difíceis de se obter, como o valor dos títulos que estão sob a posse dos bancos menores, o que poderia indicar riscos de insolvência.

O economista lembra ainda que a defasagem dos impactos da política monetária na economia é de seis meses e que nestes primeiro e segundo trimestres devem ser sentidos os efeitos da fase mais aguda, quando o Fed estava subindo as taxas em 75 pontos-base.

Francisco Nobre, economista da XP Investimenros, diz em relatório que os números de hoje trouxeram poucas surpresas, embora continuem a mostrar pressões inflacionárias persistentes, especialmente na categoria de serviços essenciais.

“Não fosse a turbulência no sistema bancário dos EUA, uma discussão entre um aumento de 25 bps ou 50 bps provavelmente continuaria até a decisão do Fed na próxima semana. No entanto, as preocupações com a estabilidade do sistema financeiro provavelmente terão prioridade e forçarão o Fed a adotar uma abordagem mais cautelosa em sua decisão de março”, comenta.

Ele afirma que as perspectivas para a política monetária nos EUA estão mais nebulosas do que nunca e que as decisões continuarão reféns das informações que chegam sobre a inflação, o mercado de trabalho e, principalmente, o sistema bancário.

O cenário base da XP continua sendo o de uma alta de 25 pontos-base, embora Nobre admita que os desenvolvimentos recentes, juntamente com o CPI relativamente bem-comportado de hoje, podem permitir que o Fed faça uma pausa, pelo menos temporariamente.

Isso acontecerá caso o choque no sistema financeiro se mostre um problema sistemático. Aí, o Fed não teria escolha a não ser flexibilizar as condições financeiras e aumentar a liquidez do mercado para amenizar o impacto sobre a economia agregada.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, também avalia que a situação para os diretores do Fed está complicada, mas diz que ainda é cedo para compreender a real dimensão dos problemas envolvendo o SVB sobre o sistema financeiro norte-americano.

“Ao mesmo tempo, a batalha contra a inflação continua e não acreditamos que seja o momento para afrouxar o discurso. A autoridade monetária deve seguir com parcimônia, entender a evolução da economia daqui para frente e tomar suas decisões a cada reunião”, comentou.

Sobre o CPI anunciado hoje, Sung destaca que é possível observar uma desaceleração nos últimos 12 meses nos preços de alguns grupos como energia e alimentos, mas alerta que os preços de moradia e aluguéis, além de serviços, voltaram a subir. “Este último tem gerado preocupação na autoridade monetária”, ressalta.

Ele afirma ainda que o cenário inflacionário é preocupante, pois ainda não dá sinais claros de convergência para a meta de longo prazo. E, apesar dos episódios recentes terem gerado um questionamento sobre o ciclo de alta de juros, a expectativa da Suno para a reunião da semana que vem é de um alta de 25 pontos-base.

Inflação enraizada

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, afirma que, apesar de a magnitude da inflação acumulada em 12 meses estar desacelerando (o índice de 6,0% em fevereiro representou o  oitavo recuos seguido), os dados mensais mostram que os núcleos voltaram a acelerar nos últimos meses.

Isso denota, segundo ela, a característica preocupante do indicador, claramente pressionado pelo nível de demanda agregada da economia local.

“A taxa de juros atual não tem se mostrado capaz de contornar o processo de pulverização dessa inflação na economia local. Além disso, a retomada da aceleração dos núcleos da inflação sugere justamente que existe um processo contínuo de enraizamento dessa inflação em patamar elevado e definitivamente não é uma boa notícia para o Fed”, diz.

Para Diogo Saraiva, economista e sócio da Blueline, o núcleo de 0,5% do CPI de fevereiro mostrou uma abertura forte. “Mesmo com o componente de veículos usados continuando a contribuir negativamente para o core, esse veio acima do consenso, compara.

Segundo ele, outro destaque foi a nova aceleração da inflação de serviços, que continua sendo impactada pelas fortes altas de aluguéis mas também com pressões disseminadas pelo setor refletindo o aperto do mercado de trabalho.

“Nos últimos três meses o core está rodando em 5,2% na medida anualizada, indicando um processo de desinflação bem mais lento do que o imaginado pelo Fed em sua última reunião”, avalia.

Para ele, antes dos episódios bancários da semana passada esse seria um número que sacramentaria uma alta de 50 pontos na semana que vem. Entretanto, agora a decisão de subir os juros ficará condicionada a diminuição dos riscos de estabilidade financeira.

“A incerteza ainda é grande e a situação permanece muito fluida. A confiança do mercado ainda não foi reestabelecida. Caso o Fed seja bem-sucedido em estabilizar o mercado nos próximos dias, acreditamos que a decisão será mais cautelosa, de subir 25 pontos-base”, prevê.

Mas ele não descarta outra cenário, dado o pouco tempo até a reunião da semana que vem. Caso a volatilidade permaneça elevada, o Fed poderia optar por deixar os juros parados e aguardar a evolução da situação até a reunião de maio.

Já André Fernandes, head de renda variável e sócio da A7 Capital, tanto os dados de hoje como a situação financeira incerta dos bancos devem tirar da pauta do Fed um aumento de 0,50%, como Jerome Powell tinha sinalizado em seus depoimentos no Congresso americano. Ele prevê uma alta de 25 pontos.

Lucas Zaniboni, analista sênior de pesquisa internacional da Garde, afirma que o número de inflação de fevereiro foi muito ruim para o Fed, especialmente porque o núcleo de serviços acelerou na margem. Ele viu mais problemas em cuidados médicos e aluguéis.

Para ele, a inflação de aluguéis está rodando em níveis mensais muito altos (em torno de 0,7% ou 0,8%), enquanto os principais modelos indicariam uma número mais ameno a essa altura do campeonato (mais perto dos 0,5%), mesmo levando em conta as defasagens.

Já na parte de bens, Zaniboni afirma que a “boa notícia” é também uma má notícia. Para ele, o fato de os preços dos carros usados estarem rodando no negativo, contrata uma pressão para as próximas leituras.

“Em suma, é um número que aumenta bastante as chances de 25 pontos-base na próxima reunião. Se daqui até quarta que vem o panorama financeiro continuar mais ou menos como está – aparentemente contido a alguns bancos regionais, sem novas quebras ou atuações do FDIC – Powell deve prosseguir com essa alta”, afirma.

Olho na tendência

André Kitahara, gestor de área macro da AZ Quest, também acredita que observar essa tendência é fundamental para prever as ações do Fed na semana que vem. Para ele, se a crise se mostrar de fácil solução, o Fed voltar ao seu “trabalho normal” de perseguir a meta de inflação.

“Caso contrário, se essa crise bancária se alastrar ou se agravar, o foco do Fed e da política monetária muda, para tentar controlar a crise financeira. A incerteza está extremamente alta, tudo vai depender de como evolui a saúde dos bancos menores. E isso é meio difícil de antecipar”, afirma.

O BTG Pactual tem uma percepção similar, uma vez que viu o CPI de fevereiro ainda mostrando uma composição bastante desafiadora, embora não piorando.

“Nas principais métricas subjacentes que monitoramos, temos médias móveis de 3 e 6 meses anualizadas com uma inflação elevada, sugerindo que a tendência de inflação está desafiadora para nosso cenário de CPI abaixo de 4% neste ano”, comenta o banco.

A visão do BTG é que a inflação de fevereiro reforça a necessidade de um ajuste de 25 pontos-base por parte do Fomc na reunião de 22 de março.

“Além disso, salvo uma piora na incerteza envolvendo o sistema financeiro americano, vemos pouco espaço para os 75 bps de cortes precificados na curva futura para esse ano. A inflação não terá maior contribuição da deflação de energia e de bens nos próximos meses, portanto, seguirá com números mensais elevados”.

Para Jon Maier, Chief Investment Officer da Global X, após os últimos alguns dias tumultuados, com preocupações com o risco sistêmico no sistema bancário, a impressão de hoje do CPI mostra que a inflação ainda é alta e pegajosa.

“Todos os sinais apontam para o Fed aumentando a taxa de fundos federais em 25 pontos-base na próxima semana. O mercado está respirando hoje um suspiro de alívio na frente bancária, com bancos regionais registrando enormes ganhos.”

Já o JP Morgan, em relatório assinado por Daniel Silver, aposta que a tendência da inflação subjacente será moderada ao longo do tempo, em parte por causa do resfriamento nos preços dos serviços principais do aluguel. Mas pondera que essa desaceleração provavelmente exigirá amortecimento adicional no mercado de trabalho.

“No geral, a recente força da inflação deve manter a pressão sobre o Fed para apertar a política à medida que o Fomc chega para a reunião de política da próxima semana, e continuamos a estimar um aumento de 25 pbs na próxima reunião”, prevê.

O Morgan Stanley também fez uma leitura de que a força nos serviços aponta para pressões resilientes nos preços. “Vemos os dados apoiando firmemente outro aumento da taxa de 25 pbp em março e riscos de um ciclo de aperto mais alongado”, diz o banco de investimentos, que também acredita numa alta no mesmo patamar em maio.

Eduardo Moutinho, analista de mercado da Ebury, admite que “à primeira vista”, o núcleo de CPI mais forte divulgado hoje apoia um aumento nas taxas do Federal Reserve a próxima semana, mas isso ainda depende de o mercado se acalmar após os sustos com o bancos na semana passada.

“Os riscos para a estabilidade financeira sempre superam as preocupações com a inflação no curto prazo. Mas a inflação deve cair, à medida que as condições econômicas se deterioram. Apesar da força atual do núcleo, esperamos que a inflação desacelere até o segundo semestre de 2023, com a queda nos preços das casas”, comenta.

Para Moutinho, o Fed ainda está inclinado a elevar as taxas na próxima semana, mas os eventos recentes só reforçam a visão de que os cortes estão chegando. Ele alerta que um aperto maior nas condições de crédito inevitavelmente resultará nas consequências vistas nos últimos dois dias, com o risco de uma forte aterrisagem econômica.

William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, lembra que foi um dado mais forte de CPI em janeiro que ajudou a espalhar a percepção de maiores aumentos de juros e de que ainda havia “muito trabalho a ser feito” nas palavras do Fed.

“Agora em meio a uma mini crise no setor bancário, o cenário mudou drasticamente. Os juros de dois anos tiveram queda de 100 bps nos últimos três dias, a maior queda desde 1987. Segundo o monitor de juros da CME as apostas agora são 75% de chances de 25bps e 25% de que os juros possam ficar inalterados.”

No balanço desses fatores, Alves vê uma leitura benigna no dado de hoje, apesar do núcleo forte, o que corrobora ou deixa espaço para esse “novo cenário” do ciclo de alta nos juros terminando antes do previsto.