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A Ambev (ABEV3) divulgou um balanço misto para o segundo trimestre de 2026, com crescimento de volumes e expansão de margens, mas receitas e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) abaixo das expectativas do mercado. Com isso, as ações caíam 2,83%, a R$ 15,45, por volta das 10h15 (horário de Brasília) desta quinta-feira (30).
O resultado reforça uma avaliação que ganhou força entre analistas após a divulgação: a de que o otimismo acumulado ao longo do trimestre, impulsionado principalmente pela Copa do Mundo de 2026, acabou não se traduzindo integralmente nos números operacionais da companhia. Após o resultado do primeiro trimestre, vale destacar, as ações saltaram mais de 15%.
A fabricante de bebidas reportou receita líquida de R$ 20,1 bilhões, alta de 0,3% na comparação anual, mas abaixo das projeções de mercado e das estimativas de casas como JPMorgan, Itaú BBA, XP e Bradesco BBI. O Ebitda ajustado somou R$ 6,4 bilhões, avanço de 3,6% ano a ano, enquanto o lucro líquido alcançou R$ 3,4 bilhões, crescimento de cerca de 24%, beneficiado por um resultado financeiro melhor do que o esperado.
O principal foco dos investidores estava na operação de cerveja no Brasil, responsável pela maior parte da geração de resultados da companhia. Nesse segmento, os volumes cresceram 5% em relação ao mesmo período de 2025, sustentados por ganhos de participação de mercado e pela força das marcas premium. Ainda assim, o desempenho ficou abaixo das expectativas mais otimistas do mercado, que chegaram a apontar expansão entre 6% e 8%, apoiada pelo impacto da Copa do Mundo e por uma base de comparação considerada favorável.
Para os analistas da XP, os números da divisão vieram praticamente em linha com suas estimativas, mas decepcionaram parte do mercado justamente porque o efeito positivo do clima e da Copa foi menor que o esperado. Já o JPMorgan destacou que o crescimento de 5% dos volumes ficou abaixo de suas projeções e também do consenso de investidores, gerando uma decepção operacional no segmento mais importante da companhia.
A leitura do Bradesco BBI também foi cautelosa. Para o banco, os resultados operacionais vieram abaixo tanto de suas estimativas quanto das expectativas do mercado, apesar da surpresa positiva no lucro líquido. Os analistas ressaltam que o crescimento consolidado de volumes de 1,4% ficou abaixo do consenso e de suas projeções, enquanto a receita líquida também frustrou as expectativas.
Na avaliação do BBI, a principal decepção ocorreu justamente na divisão de cerveja Brasil. Embora os volumes tenham avançado 5% na comparação anual e a companhia tenha continuado a ganhar participação de mercado, o desempenho ficou distante da expectativa mais otimista que predominava entre investidores. Para os analistas, o resultado reforça que o ambiente para o consumo continua desafiador, mesmo diante dos estímulos temporários gerados pela Copa do Mundo e de uma base de comparação considerada bastante fácil.
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Outro ponto que chamou atenção foi a evolução mais modesta da receita por hectolitro na cerveja brasileira. O indicador avançou 3,8%, mostrando que a estratégia de premiumização continua funcionando, mas sem a força necessária para compensar totalmente as expectativas elevadas criadas ao longo dos últimos meses. O Bradesco BBI destacou ainda que o crescimento da receita por hectolitro ficou abaixo de suas projeções, sugerindo que o poder de precificação permanece limitado no mercado brasileiro.
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Em compensação, a rentabilidade seguiu mostrando sinais positivos. A margem Ebitda consolidada avançou para 31,6%, enquanto na divisão de cerveja Brasil atingiu 33,5%. O desempenho foi beneficiado pela inflação mais controlada dos custos de produção, especialmente das commodities, e por despesas por hectolitro inferiores ao esperado. O JPMorgan destacou que o custo por hectolitro da operação brasileira de cerveja avançou apenas 1,4% no trimestre, favorecendo a expansão das margens.
O BBI chamou atenção, porém, para a qualidade da expansão das margens. Embora a margem bruta tenha crescido quase dois pontos percentuais no trimestre, parte relevante da melhora do Ebitda foi sustentada por outras receitas operacionais, que aumentaram como proporção das vendas. Na operação de cerveja Brasil, os analistas observam que esse item teve papel importante na expansão da margem Ebitda, o que pode levar investidores a questionar a sustentabilidade de parte desses ganhos ao longo dos próximos trimestres.
Além da melhora operacional, o lucro foi favorecido por fatores financeiros extraordinários. A XP atribuiu parte da surpresa positiva na última linha a ganhos cambiais e receitas financeiras relacionadas a créditos tributários. O Itaú BBA também chamou atenção para a qualidade do resultado, observando que a receita financeira superou as expectativas e ajudou a compensar a decepção operacional. O BBI acrescenta que as despesas financeiras líquidas caíram para R$ 486 milhões, muito abaixo do patamar próximo de R$ 1 bilhão observado nos últimos trimestres, o que contribuiu para a forte surpresa positiva do lucro e levanta questionamentos sobre a recorrência desse benefício.
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As demais unidades de negócio apresentaram desempenhos mais diversos. Em bebidas não alcoólicas no Brasil, a receita decepcionou, mas as margens mostraram recuperação e a companhia relatou melhora das tendências de participação de mercado. Na América Central e Caribe (CAC), os resultados foram impactados pela desconsolidação da operação em Cuba e por condições climáticas mais difíceis na República Dominicana. Já na América Latina Sul (LAS), um ambiente econômico mais complicado na Bolívia foi parcialmente compensado por uma execução comercial mais forte na Argentina.
O BBI observou que a melhora das margens foi um fator comum entre as divisões internacionais, embora em vários casos tenha sido acompanhada por crescimento mais fraco das receitas. Na América Latina Sul, por exemplo, a operação argentina apresentou desempenho surpreendentemente positivo em cerveja, mas a fraqueza da Bolívia continuou pesando sobre os números consolidados da divisão.
O Canadá continuou sendo um ponto de atenção. Apesar dos ganhos de participação de mercado destacados pela companhia, a fraqueza da indústria local pressionou os volumes e os resultados ficaram abaixo das expectativas de algumas casas. O JPMorgan classificou os volumes da operação canadense como ainda fracos, indicando demanda mais suave no mercado norte-americano. O Bradesco BBI destacou que os volumes recuaram 2% mesmo em um trimestre marcado pela Copa do Mundo, reforçando a visão de um ambiente operacional ainda difícil.
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Um dos destaques positivos do trimestre veio das plataformas digitais. Segundo a XP, tanto o BEES quanto o Zé Delivery continuaram ganhando tração. O marketplace do BEES manteve forte crescimento nas vendas de terceiros, enquanto o Zé Delivery seguiu operando com um mix mais premium que os canais tradicionais, reforçando a estratégia da companhia de aumentar o engajamento digital com consumidores e varejistas.
De olho no segundo semestre
Para os analistas, a principal discussão agora será sobre o segundo semestre. A XP avalia que a reação inicial do mercado tende a ser negativa, já que o nível de expectativa estava elevado e os resultados não entregaram o desempenho operacional esperado. Por outro lado, a casa destaca que a base de comparação continuará favorável no terceiro trimestre e que fatores climáticos devem voltar ao centro das atenções dos investidores nos próximos meses.
O Itaú BBA afirma que parte da valorização acumulada das ações em 2026 foi construída justamente sobre a expectativa de um trimestre excepcional impulsionado pela Copa. Com o evento já encerrado e seu impacto percebido como mais limitado, o mercado deverá voltar a discutir a sustentabilidade do crescimento operacional da companhia para o restante do ano.
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Para o Bradesco BBI, o debate sobre a Ambev continua concentrado no ritmo de crescimento da operação de cerveja no Brasil. A companhia, aponta, segue executando bem sua estratégia, preservando ganhos de participação de mercado e fortalecendo seu portfólio premium, mas entende que o segundo trimestre não trouxe elementos suficientes para justificar uma visão mais otimista sobre a ação. Os analistas também apontam que a recente fraqueza da Heineken parece estar mais relacionada à execução comercial do que a uma deterioração de marca, o que pode significar aumento da pressão competitiva à frente.
Já o JPMorgan considera o balanço essencialmente misto: de um lado, ganhos de participação de mercado, expansão de margens e forte geração de caixa; de outro, receitas e volumes abaixo das expectativas em mercados importantes. Tanto JPMorgan quanto Bradesco BBI mantêm recomendação neutra para os papéis da Ambev, entendendo que a continuidade do crescimento das receitas será fundamental para sustentar os atuais níveis de valuation da companhia.

