Publicidade
SÃO PAULO – O ano de 2010 terminou com uma tônica no cenário doméstico: a pressão inflacionária. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) encerrou o ano acumulando inflação de 5,91% ante a taxa de 4,31% registrada em 2009, configurando a maior alta desde 2004, quando o indicador havia subido 7,6%. O fantasma da inflação voltou a preocupar o mercado, que já tomou como certa a elevação em 0,5 ponto percentual da taxa básica de juros na economia – a Selic – na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que ocorre na quarta-feira (19).
Porém, essa decisão, caso confirmada, está longe de resolver todas as incertezas que rondam a economia brasileira. Economicamente falando, em um regime de câmbio flutuante, a elevação dos juros leva a uma apreciação cambial, que é nociva à competitividade dos produtos brasileiros, ainda mais porque o câmbio já está pressionado e o real sobrevalorizado frente ao dólar. Medidas foram tomadas ao final de 2010 e início de 2011 com o intuito de reverter essa tendência e possibilitar uma desvalorização da moeda nacional. Mas isso basta?
Alta da Selic: impacto nulo ou limitado sobre o dólar
Para Reginaldo Galhardo, da Treviso Corretora de Câmbio, caso se confirme, a elevação da taxa Selic não deve exercer um grande impacto no câmbio. Embora um aumento do juro signifique maior atratividade das aplicações em renda fixa, ainda há a questão da elevação da alíquota do IOF para investimento estrangeiro em renda fixa e aplicações como fundos multimercado e fundos de ações, que passou para 6% em outubro de 2010.
A projeção de Galhardo é que o dólar siga no patamar de R$ 1,69 no curto prazo.
O analista de câmbio da B&T Corretora, Marcos Mendes Trabbold, avalia que outras medidas precisam ser tomadas para conter uma valorização acelerada da divisa brasileira, pois a alta dos juros abre o caminho para investimentos externos. Segundo Trabbold, o governo está mostrando a sua preocupação com o câmbio pela quantidade de medidas que foram tomadas para jogar o dólar para cima, sobretudo em relação ao swap cambial reverso, que de fato promoveu uma elevação da divisa norte-americana na última sexta-feira.
Já Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, diz que é possível que a decisão do Copom reflita em algum impacto no câmbio, uma vez que uma taxa de juros maior amplia a diferença entre juros interno e externo, de modo que para o capital externo há uma atratividade ainda maior em investimentos.
Continua depois da publicidade
Swap cambial reverso: problema ou solução?
Contudo, quando a discussão passa para a eficácia da reabertura dos leilões de contratos de swap cambial reverso, Nehme defende que a medida além de não resolver o problema de apreciação do real ainda tem um poder adverso: potencial de apreciar ainda mais a moeda nacional.
Isso porque a função desse tipo de swap é aliviar o mercado de cupom cambial, ajustando as posições dos bancos no mercado futuro. A forma de remuneração do swap reverso é manter os bancos credores dos juros e o BC credor da variação cambial, porém o que deve acontecer para os bancos é um ganho tanto em variação cambial como em juros, de modo que o real deve manter-se elevado. “O Banco Central sabe que isso não funciona. Ele tomou a medida para aliviar as posições dos bancos, que precisam reduzir as posições vendidas no mercado à vista” , afirmou o diretor da NGO.
Na mesma linha, o analista da B&T observa que os bancos não reverteram totalmente suas posições e, por isso, depois de 90 dias – o prazo estipulado pelo BaCen para a realocação dos bancos – pode haver um novo repique de alta do real.
Continua depois da publicidade
Galhardo, da Treviso, espera que o mercado siga temeroso em relação ao swap, porque era o último recurso esperado por parte do governo em relação ao problema cambial. Segundo o analista, o mercado não vê com bons olhos essa medida, pois é um mercado “perverso” e, por isso, não deve haver uma desvalorização maior do que observou-se na última sexta-feira.
Resposta ainda está no exterior
Por mais que a autoridade monetária, juntamente com o ministério da Fazenda, anuncie medidas para conter a alta do real e permitir que o dólar suba, o alívio deve vir mesmo com uma melhora no cenário externo. Para os analistas entrevistados, uma das soluções está na recuperação da economia norte-americana. “Enquanto os juros dos EUA permanecerem extremamente baixos, a valorização do real não será revertida”, afirmou Galhardo.
O problema é que os sinais de recuperação ainda são ínfimos. Os níveis de consumo e emprego permanecem em patamares muito abaixo do período pré-crise e o desemprego é o grande carrasco da economia americana. Se a situação continuar, o alívio para o Brasil não deve vir tão cedo.
Continua depois da publicidade
Medidas
O BC realizou na última sexta-feira (14) um leilão de swap cambial reverso para tentar barrar a queda do dólar, vendendo todos os 20 mil contratos ofertados.
Outras medidas já haviam sido tomadas. Anteriormente, o governo permitiu que o FSB (Fundo Soberano do Brasil) passe a atuar na compra de derivativos de câmbio. Além disso, ainda em janeiro deste ano, o Banco Central anunciou o recolhimento nos bancos brasileiros, sob forma de depósito compulsório, de 60% do valor das posições de câmbio vendidas em dólar que excederem US$ 3 bilhões ou o patrimônio de referência do dealer.
Em 2010 o Banco Central já havia elevado o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) cobrado de investimentos estrangeiros em produtos de renda fixa e sobre as garantias cobradas nas posições no mercado futuro da BM&F, com vistas a tentar conter a entrada de dólares no país.