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Com a denúncia contra Eduardo Cunha, o acordo com o PMDB de Renan Calheiros no Senado, e a “intervenção”, ainda que discreta e muitas vezes indireta dos empresários (ainda ontem o presidente do Itaú, Roberto Setúbal, em entrevista à “Folha de S. Paulo” defendia a permanência da presidente), Dilma Rousseff conseguiu reverter o clima político adverso para ela e para o governo que parecia caminhar inexoravelmente para seu afastamento do Palácio do Planalto.
É certo que a ameaça política não está totalmente afastada. A expressão correta para definir o ambiente é “trégua com tensão permanente”.
É imponderável ainda o poder de fogo do presidente da Câmara, até que venha a ser abatido definitivamente pela Operação Lava-Jato. Ele está apenas ferido gravemente.
Há também no horizonte o julgamento pelo TCU das “pedaladas fiscais” de 2014 e o processo aberto pelo PSDB para a impugnação do resultado eleitoral do ano passado. Na sexta-feira, em mais um capítulo nesse terreno, o ministro Gilmar Mendes, um dos representantes do STF no TSE, pediu ao Ministério Público investigar as contas da reeleição de Dilma.
Por fim, ainda no campo da política, surgiu no fim da semana, a ameaça de deserção da coordenação política do vice-presidente Michel Temer, um dos responsáveis pela trégua alcançada nas últimas semanas pela presidente.
Pressionado pelo PMDB e agastado com o boicote de ministros e com o ambiente criado para ele nos últimos dias, Temer já decidiu que vai voltar apenas às suas funções institucionais. Com ele, vai boa parcela do PMDB. O vice não vai criar problemas, mas sem ele a coisa no Congresso pode voltar a degringolar.
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Informa o jornal “O Globo” que Temer comunicará sua decisão hoje à presidente e então será apenas oficializar da saída com a escolha de um novo coordenador político, possivelmente com a volta da Secretaria [Ministério] das Relações Institucionais, temporariamente incorporada à vice-presidência. O PT está mais do que louco para retomar o lugar.
Parte do agastamento de Temer, segundo peemedebistas próximos ao vice, se deu exatamente por causa dos boicotes à sua ação e a intrigas de ministros petistas. Temer também se desgastou com Dilma, ‘antipatia” recíproca: Dilma não gostou da declaração do vice de que o Brasil precisava de “alguém” para liderar um acordo nacional anticrise e Temer não gostou de Dilma ter passada a fazer a coordenação sem consultá-lo e ainda ter colocado outros auxiliares, como o onipresente assessor Giles Azevedo, para cumprir algumas missões que caberiam a ele, Temer.
Como se diz em Brasília, a relação trincou e o vaso agora quebrou. Com a reação do vice, estimulada por parte do peemedebismo, o Palácio do Planalto e parte do PT correrem para tentar conter Temer.
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Emissários petistas procuraram o vice no fim de semana em São Paulo. A notícia é que Dilma pedirá a Temer, mais uma vez, que ele fique no cargo. Lembrar que duas semanas atrás ele pôs a função à disposição da presidente quando começou a ser intrigado por causa do “alguém”.
É possível que o vice, extremamente discreto – e por indução dos empresários com quem tem excelente diálogo – aceite permanecer mais um tempo no cargo. Mas a saída dele é uma questão de tempo. E de não muito tempo. O PMDB com que Dilma poderá contar sem problemas a partir de agora é de Renan Calheiros, cujo tamanho real ninguém conhece. Segundo a coluna “Painel”, da “Folha”, os diretórios estaduais do PMDB preparam uma carta aberta ao vice pedindo a devolução imediata da coordenação política à presidente.
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O nó de fato está na economia
Mesmo que a presidente consiga – por artes de uma ação conciliatória para a qual não demonstra habilidade, embora esteja se esforçando mais – contornar mais esta inquietação em seu meio político, a situação do governo continuará precária, como mostravam diversos analistas no fim de semana.
Por uma única e especial razão: a insatisfação popular e empresarial (apesar dos apoios que ela vem recebendo de pesos pesados do setor) ainda é grande. E o fator desestabilzador é a situação econômica, a paralisação das atividades, agora com reflexos pesados no nível de emprego, no pagamento das contas, no consumo.
Como escreveu em artigo no jornal “O Estado de S. Paulo” de domingo o economista José Roberto Mendonça de Barros, um dos mais lúcidos e ponderados analistas da cena econômica nacional no momento, o quadro ainda tende a piorar. O que aumentará a inquietação dos agentes econômicos, com reflexos no mundo político. Não custa lembrar que político não gosta de companhia de governo impopular.
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Por isso, inclusive, as pressões para a presidente Dilma alterar um pouco os rumos da política econômica levada até aqui, a duras penas e com diversos percalços, pelo ministro Joaquim Levy.
Não deixa de ser sintomática, por exemplo, uma declaração na semana passada do presidente do Senado e atual grande aliado de Dilma, Renan Calheiros, depois da aprovação do projeto de “reoneração” da folha de pagamento, de que o ajuste fiscal está vencido.
Sabe-se que não. O ministro Joaquim Levy ainda conta com pelo menos três medidas para acertar parte das contas públicas, a principal delas é o projeto de repatriação de capitais de brasileiros no Exterior, com o qual o governo pensa poder arrecadar, no limite, até R$ 30 bilhões de reais.
Além do mais, essencial para fechar o Orçamento do ano que vem, há a proposta de prorrogação da DRU (Desvinculação das Receitas da União), mecanismo que permite ao governo direcionar parte dos recursos de gastos obrigatórios em determinadas áreas (como saúde, educação) para outras, para poder administrar melhor os gastos. A DRU atual – de 20% – acaba no fim do ano. Como as contas são complicadas, o governo quer aumentá-la para 30%, o que inicialmente nem Câmara nem Senado querem dar. Vai ser outra batalha legislativa, em tempo bem exíguo.
E Levy pode ainda arranjar mais dores de cabeça na Câmara e no Senado. Informa o “Valor Econômico, que a proposta orçamentária de 2016, a ser enviada ao Congresso até o fim do mês, prevê um forte aumento de impostos, a redução de algumas despesas obrigatórias, e a manutenção dos gastos discricionários nos mesmo níveis dos realizados em 2015.
Com isso tudo, o clima para Levy no Congresso e entre os aliados está ficando a cada dia mais delicado. Reportagem de hoje na “Folha de São Paulo” diz que o PMDB e o Palácio do Planalto atribuem ao ministro da Fazenda o desgaste do governo junto aos agentes econômicos e ao próprio Congresso e à base aliada.
Como pano de fundo que pode agravar ainda o quadro é a situação econômica da China, extremamente delicada, e que bate diretamente no coração da economia mundial e brasileira. Segundo analistas, é o maior perigo mais imediato de agravamento da economia que o Brasil corre. Sexta-feira já foi um Deus nos acuda no mercado.
E hoje o ambiente não começou melhor. Por causa da China, as bolsas asiáticas abriram em baixa e caíam fortemente no início da manhã até o momento em que este texto estava sendo pesquisado e escrito. E isso apesar de o governo chinês ter autorizado os fundos de pensão locais e aplicarem recursos na bolsa de valores. Noticia o “Valor” que o Banco Central está preparando novas medidas para incentivar o crédito por lá. Ver também o artigo de Francisco Petros “Mercado financeiro: preparem seus corações e mentes”, em Fato Real, para este blog.
Outros destaques
dos jornais
– Sábado
– “Gilmar Mendes pede que STF investigue campanha de Dilma” (Globo)
– “Lula agora quer Dirceu longe do PT” (Globo)
Segunda-feira
– [levantamento do TCU] “Estatais são sócias em 234 empresas” (Globo)
– “Volume de investimentos da União nos estados cai R$ 22 bi no 1º semestre” (Valor)
LEITURAS SUGERIDAS
– Sábado
- Armínio Fraga e Marcelo Trindade – “Rasgando o nosso dinheiro” (criticam a forma como serão vendidos 25% da BR Distribuidora) – Globo
– Domingo
- Editorial – “Recaída” (comenta ultima medida econômica e diz que Dilma repete intervenções que se provaram danosas em seu primeiro mandato) – Folha
– Segunda-feira
- Editorial – “A breve trégua da inflação” (diz que a inflação amainou em agosto, mas deve voltar a crescer a partir de setembro) – Estadão
- Bernard Appy – “Tributação e distribuição de renda” (diz que o sistema tributário brasileiro penaliza em excesso o emprego formal e tributa pouco a renda pessoal de donos de empresas) – Estadão
- Claudia Eloy – “As perspectivas sombrias para o crédito habitacional” (diz que a tendência é de exclusão de famílias que dependem de condições mais acessíveis de crédito para adquirir moradia) – Valor