Ainda referência global, dólar é questionado e analistas projetam queda

Dúvidas sobre recuperação e política fiscal dos EUA fragilizam moeda padrão internacional; euro e cesta cambial são alternativas

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SÃO PAULO – Há décadas na posição de referência financeira e comercial em todo o mundo, o dólar já não é inquestionável. Com as atenções voltadas para as críticas de países emergentes e os graves déficits dos Estados Unidos, o futuro da moeda levanta muitas dúvidas.

Além de condições técnicas fundamentais – como ampla liquidez, baixos custos de transação e estabilidade -, o dólar ainda goza de enorme confiança para se posicionar como a divisa internacional por excelência, decorrente da posição dos EUA como principal economia global, cujos ativos são “risco zero”.

Contudo, o que era blasfêmia há algum tempo torna-se a cada dia mais comum. As críticas de países emergentes aos riscos apresentados pelos Estados Unidos e sua moeda chegam ao ponto de sugerir a adoção de um novo padrão monetário internacional. Neste meio tempo, analistas sustentam que o dólar tende a depreciar-se em escala global.

Uma situação delicada

A atual crise tem exigido um esforço fiscal de proporções inéditas pelos EUA, que expandem seus gastos na tentativa de estimular a economia e sanar as deficiências de seu setor financeiro. Com a economia em recessão, aumentar os gastos significa quase uma sentença de elevação do endividamento.

Em meio ao massivo esforço global para combater a recessão, alguns países já tiveram sua avaliação de risco reduzida por agências como a Standard&Poor’s, que diminuiu o rating soberano do Reino Unido. “A sustentação da dívida não é mais um problema apenas de economias emergentes”, decreta Pablo Bréard, do Scotiabank.

A conexão com um aumento do risco associado aos EUA foi instantânea, fazendo tremer um dos pilares do dólar como moeda corrente em âmbito internacional. “Como decorrência, antecipamos uma apreciação em ampla base das principais moedas em relação ao dólar – tendência que deverá transbordar para taxas de câmbio em mercados emergentes”, prevê o analista do Scotiabank.

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Opinião semelhante possui a estrategista-chefe para câmbio do TD Bank – Shaun Osborne. “Continuamos com a opinião de que o dólar é vulnerável a perdas adicionais no médio prazo”, destaca.

Alternativas

As suspeitas levantadas por outros países não são tolas. Ao longo do último ciclo de crescimento global, estes países acumularam enormes reservas internacionais, utilizando-se principalmente de ativos denominados em dólar para isto.

Numa relação simbiôntica, o consumo excessivo dos Estados Unidos tem sido amplamente financiado pelas poupanças de países como a China, que acumula cerca de US$ 2 trilhões em reservas.

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Neste cenário, surgem discursos inflamados contra a dependência em relação ao dólar e alguns esboços de acordos para a promoção de comércio bilateral em moedas locais, como ocorre entre Brasil e Argentina. Ao mesmo tempo, a China chegou a sugerir a adoção de uma cesta virtual de moedas globais supervisionada pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), em detrimento do dólar.

Sinal de alerta

“A iniciativa chinesa deve ser vista mais como uma demonstração de aspirações políticas que uma sugestão prática”, afirma Norbert Walter, analista do Deutsche Bank. Em sua avaliação, nem mesmo o ascendente yuan chinês teria potencial para suplantar o dólar. “A única alternativa adequada é o euro”, conclui.

Se o dólar será deixado de lado pelo euro, as consequências para as políticas comercial e monetária dos países europeus podem ser graves. No entanto, para os EUA poderá ser salutar: “a sustentação de longo prazo da recuperação econômica nos EUA requer a redução da dependência em reservas externas – e isso significa um longo período de fragilidade do dólar”, conclui Pablo Bréard.