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SÃO PAULO – Norte da Europa, 1992; Sudeste Asiático e Coreia do Sul, 1997; Rússia, com decorrências em todo o mundo, 1998. Para alguns, a atual crise fiscal – que começou na Grécia e já se espalha pelo Velho Continente – possui potencial para exercer impactos ainda mais graves que já os vistos em outras situações adversas do passado.
Sem dúvida, os números mostram que este momento ficará na história do continente como um dos eventos econômicos mais relevantes que a região já enfrentou. Com o estopim na Grécia, a União Europeia e o FMI (Fundo Monetário Internacional) se viram obrigados a aprovar um pacote de € 750 bilhões – montante recorde – para estancar a sangria nas contas gregas, proteger o Euro, ajudar os países do grupo a combater ataques especulativos e evitar um desastre ainda maior.
Contudo, a economia europeia segue levantando incertezas ao redor do globo, que permanece atento à eficácia – ou não – das medidas de austeridade que estão sendo tomadas entre as economias mais atingidas pela crise. Analistas ouvidos pela InfoMoney acreditam que tais medidas devem servir para acalmar a situação no curto prazo, mas o caos na economia do continente está longe de ser resolvido.
No mercado financeiro, por sua vez, a crise deve seguir trazendo volatilidade, período no qual os investidores devem ficar atentos às oportunidades. Mas, de qual maneira um território aparentemente livre de grandes turbulências econômicas de repente se viu estampado nos noticiários pelo mundo?
Crise atrás de crise
Para compreender a atual situação da economia europeia é preciso voltar um pouco no tempo. Mais precisamente até o início da crise anterior à esta. Em meados de setembro de 2008, o mundo mal podia imaginar o que estava por vir quando o quarto maior banco dos Estados Unidos decretou falência. A quebra do Lehman Brothers marcou o período que a princípio foi chamado de crise do setor imobiliário norte-americano, que evoluiu para uma crise global de crédito.
Sem dinheiro para pagar por suas hipotecas, que, por sua vez, eram descontroladamente negociadas entre grandes instituições financeiras dos Estados Unidos, milhares de norte-americanos deram o pontapé inicial naquilo que iria influenciar o cenário econômico atual na Europa. Na ausência de retorno de seus devedores, os bancos nos EUA ficaram com bilhões de dólares em “títulos podres” nas mãos, e, sem dinheiro nos bancos, rapidamente o clima de deterioração contaminou o mercado.
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Sem crédito circulando na economia, a produção caiu, o desemprego aumentou, o consumo estagnou. Os governos passaram a intervir diretamente na economia, através da adoção de medidas de estímulo monetário e fiscal, além da injeção de dinheiro na atividade dos países. Com os governos gastando mais e arrecadando menos, o movimento natural que pôde ser visto foi o aumento da relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto), principalmente no continente europeu.
Mas, o economista Homero Guizzo, da LCA Consultores, explica que muito antes de 2008 “a Grécia produzia déficits primários, desrespeitando o tratado de Maastricht”, que estabelecia um déficit total em torno dos 3% do PIB. “A crise chegou em 2008 e a atividade econômica no mundo inteiro e na Europa caiu muito, portanto, a receita tributária da Grécia acompanhou e aumentou ainda mais o déficit público do país”, disse o economista.
A soma destes fatores criou um perigo iminente de crise, no qual bastou esperar alguns meses de calmaria nos mercados para ele estourar. “Os programas de bem estar social, estabilizadores automáticos da economia, aumentaram bastante, sendo mais um fator para expandir o déficit total. E, acabou que a relação dívida/PIB da Grécia alcançou os 115%, um patamar nitidamente insustentável. Os mercados concluíram o óbvio: que a economia da Grécia era insolvente”, completou o economista da LCA.
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E agora? Para onde vamos?
Neste cenário, as perguntas que intrigam a todos os que acompanham os mercados financeiros são: para onde vamos? Qual vai ser o desenrolar desta crise na Europa? A Europa é o próximo Lehman Brothers? De certo, o que analistas e economistas dizem é também o sentimento de todos: o futuro é uma incógnita. Mas, ante os fatos do passado, há quem se arrisque nas análises para o futuro. Segundo Guizzo, embora todos os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) estejam com elevadas dívidas, a possibilidade de melhora é diferente para cada um deles.
“A Grécia ainda é um país insolvente por questão dos seus fundos. O primeiro da fila depois da Grécia é Portugal, que também está insolvente. Mas as demonstrações que o governo português deu me parecem que ele está muito mais disposto a implementar um ajuste fiscal sério”, avaliou o economista. Segundo ele, o governo português possui muito mais ativos para se desfazer em situações de emergência, por exemplo. São situações diferentes na ótica de Guizzo: Portugal se viu envolvido nesta crise por conta da queda cíclica na arrecadação de impostos, não tanto por causa de lastidão fiscal generalizada.
De acordo com o economista, a economia grega, que antes de 2008 já estava comprometida com seus débitos, será obrigada a reestruturar suas contas, assim como fizeram os Emirados Árabes Unidos quando Dubai não conseguiu arcar com suas dívidas bilionárias. “O pacote de € 750 bilhões não resolve os problemas fiscais. Ele só compra tempo. Espera-se que tempo o bastante para que a Grécia efetue um plano de ajuste fiscal que convença o mercado de que ela merece rolar suas dívidas”, disse.
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Na Grécia, segudo Guizzo, parece cada vez mais provável que será adotada uma reestruturação das dívidas, assim como Dubai fez há pouco tempo atrás. “Decreta-se feriado bancário durante um ou dois dias, os credores são chamados para uma renegociação e o governo oferece condições para forçar a redução do valor da dívida. É como se na prática ele oferecesse, por exemplo, o seguinte: se os credores quiserem trocar a dívida que eles têm hoje por uma dívida que vence em um ano, vão receber 25% do débito original. Se for com vencimento em cinco anos, receberão 50%, por exemplo”, explicou.
Volatilidade permanece
No mercado financeiro, as perspectivas são de que a volatilidade vai continuar, ao menos no curto prazo. O analista Felipe Insunza, da Rosenberg & Associados, conta que no curto prazo a volatilidade nas bolsas será constante, uma vez que o mercado vai estar testando a capacidade europeia em resolver seus problemas fiscais.
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Neste sentido, o analista Rafael Andreas Weber, da Geração Futuro, destaca que o atual cenário é propício para o investidor com foco no longo prazo, e que possui reservas para se garantir durante o momento volátil nas bolsas. “Para o investidor que tenha já uma experiência em bolsa e que saiba lidar com esta volatilidade, eu acredito que é uma boa hora para se posicionar em empresas com fundamentos sólidos com visão de longo prazo”, concluiu.
Espanha e Portugal
Se as perspectivas para a economia grega se voltam para algo muito difícil de ser resolvido no curto prazo, as opiniões sobre as economias espanhola e portuguesa deixam os investidores um pouco mais tranquilos. Segundo o analista Felipe Insunza, da Rosenberg, ambos os países devem sentir os efeitos positivos das medidas de austeridade em breve.
“A perspectiva obviamente é que os países europeus em geral tenham um PIB baixíssimo neste ano. Porém, Espanha e Portugal, diferentemente da Grécia, possuem investimentos no exterior e outras fontes de renda que, de certa forma, podem apoiar uma retomada”, destacou o analista. Segundo ele, o caso grego é bem diferente, uma vez que o país era bastante dependente do turismo, atualmente deteriorado.
Estados Unidos e Brasil
Além de se atentar ao que acontece no Velho Continente, o mercado também segue de olho em como a economia norte-americana lida com a situação europeia. Sem dizer se acredita que os EUA serão impactados diretamente com uma possível piora no quadro da Europa, o analista da Rosenberg conta que o país ainda enfrenta alguns problemas que custam a ser solucionados e poderiam ser relevantes caso este cenário se confirme.
“Nos EUA, a gente ainda tem o problema da dependência dos estímulos econômicos, ou seja, a atividade ainda não está preparada para caminhar sem a ajuda do governo”, disse Felipe. Entre os pontos a serem vigiados, o analista destacou a taxa básica de juro do país e a apreciação cambial.
O Brasil, por sua vez, também corre o risco de ser atingido pelo cenário adverso no Velho Continente, porém, nada que vai afetar as boas perspectivas para este ano. “A situação fiscal brasileira não é nenhuma maravilha. O nosso risco existe, mas é pequeno. O que vai acontecer aqui no Brasil, caso a crise fique bem aguda ou que vire uma estagnação europeia, é dificultar nossa exportação, podendo diminuir o investimento estrangeiro no Brasil e trazer volatilidade no câmbio”, avalia o professor Simão Davi Silber, da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo).