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Bolsonaro anuncia "Lava Jato da Educação" e derruba ações do setor: o que esperar agora?

Em relatório, o Bradesco BBI destaca que ainda é muito cedo para tirar conclusões uma vez que há poucas informações sobre o assunto, mas ativos devem seguir pressionados no curto prazo; Estácio segue top pick

Jair Bolsonaro e Ricardo Vélez
(Redes sociais Eduardo Bolsonaro/Reprodução)

SÃO PAULO - Após últimos anos bastante complicados desde as mudanças realizadas no FIES no segundo mandato do governo de Dilma Rousseff, as ações do setor de educação estavam em uma tendência de recuperação em 2019. Os principais papéis do segmento como Kroton (KROT3), Estácio (ESTC3) e Ser Educacional (SEER3) estavam registrando ganhos bastante superiores ao Ibovespa, de cerca de 30%, com o mercado de olho nas perspectivas de EAD e com as empresas finalmente se adaptando ao cenário menos convidativo para o FIES. 

No ano, os ganhos ainda são expressivos, superiores a 20% mas, desde a última sexta-feira (15), os papéis do setor não param de cair. Somente na sexta-feira, as baixas foram de até 7%, em meio ao anúncio do governo de Jair Bolsonaro de que será feita uma "Lava Jato da Educação". As quedas se estendem nesta sessão. 

Na sexta, Bolsonaro defendeu a Lava Jato do setor pelo Twitter, um dia depois da assinatura de um protocolo de intenções para apurar indícios de irregularidades no âmbito do Ministério da Educação. “Muito além de investir, devemos garantir que investimentos sejam bem aplicados e gerem resultados. Partindo dessa determinação, o ministro professor Ricardo Vélez apurou vários indícios de corrupção no âmbito do MEC em gestões passadas. Daremos início à ‘Lava Jato da Educação’”, disse o presidente na rede social.

Segundo nota do MEC enviada à imprensa, a pasta já identificou favorecimentos indevidos no Programa Universidade para Todos (ProUni), desvios no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), envolvendo o sistema S, concessão ilegal de bolsas de ensino a distância e irregularidades em universidades federais. Não foram dadas mais informações sobre possíveis empresas envolvidas no caso, mas o fato de ser relacionado ao setor já mexeu com as ações como um todo. 

Em meio a esse cenário de incertezas, os investidores começam a se questionar: o que fazer com esses papéis agora? Conforme apontam os analistas do Bradesco BBI liderados por Luiz Mauricio Garcia, dada a falta de visibilidade sobre as empresas afetadas, ainda é muito cedo para tirar conclusões. 

Contudo, é possível traçar paralelos com outros casos recentes, sendo um de grande destaque a CCR (CCRO3), que em fevereiro de 2018 caiu cerca de 10% em apenas uma sessão e cerca de 25% no mês após notícias de que a Lava Jato também envolveria o setor de concessionárias de rodovias. 

"Apesar de serem situações totalmente diferentes, este é um evento recente que encontramos para medir o impacto das alegações de corrupção sobre os preços das ações (caso isso aconteça com o setor de educação)", ressaltam os analistas. Eles lembram que levou 11 meses para o preço das ações CCRO3 retornar ao patamar atingido no dia anterior à divulgação da notícia e teve um desempenho inferior ao Ibovespa em 14 pontos percentuais ao longo desse período.

No caso das ações do setor de educação, elas têm apresentado um bom desempenho no acumulado do ano ao subirem cerca de 20%, enquanto o Ibovespa avança cerca de 10% no ano, mesmo após a baixa da última sexta-feira.

Conforme aponta o Bradesco BBI, esse movimento está de acordo com a visão de que as melhores condições macroeconômicas levarão a uma maior base de alunos dos cursos, o que inclusive já está acontecendo. "Por outro lado, se as investigações encontrarem evidências de más práticas, isso afetará negativamente as organizações envolvidas e o setor como um todo", avalia a equipe de análise. 

Essa investigação, inclusive, poderia levar a um escrutínio maior por parte do MEC sobre os programas do governo e também levar a uma regulamentação mais rigorosa. "Esses fatores, juntamente com a investigação em si, podem ser riscos diretos para alguns nomes listados, o que leva a uma abordagem mais conservadora por enquanto", afirmam. 

Eles ressaltam que os benefícios fiscais do programa ProUni representaram 30% do lucro líquido da Kroton, 41% da Estácio, 39% da Ser e 50% da Anima.  O programa também representou cerca de 10% da receita para a Kroton e cerca de 5% para as outras três companhias. 

Questionada pela Bloomberg, a Ser disse que "é a favor de investigações em todo e qualquer segmento onde há suspeitas de corrupção". Já a Kroton e a Anima não responderam a um pedido de comentário, enquanto a Estácio preferiu não se manifestar.

Mesmo em meio a esse ambiente de baixa visibilidade para o setor e com a provável investigação como um obstáculo para o segmento, os analistas do Bradesco BBI seguem com recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para as ações da Estácio, mantendo preço-alvo de R$ 40,00 e mantendo-a como a top pick do setor. De acordo com os analistas, os números de ingresso dos alunos pode compensar parcialmente essa ameaça.

De qualquer forma, o ambiente seguirá de tensão para o setor de educação e os investidores dessas ações ficarão ainda mais atentos ao noticiário político para saber se vale a pena ou não continuar investindo no setor. 

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