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Ibovespa ignora exterior e cai em dia de "ressaca" com tensão no governo

O tom otimista com a reforma permeia os negócios, mas o clima de tensão crescente no governo impõe certa cautela

posse de Jair Bolsonaro
(Fabio Rodrigues Pozzebom)

SÃO PAULO - O Ibovespa ignora o movimento positivo em Wall Street e opera em queda nesta sexta-feira (15) em movimento de devolução da euforia da véspera com o otimismo com alguns pontos da proposta de reforma da Previdência escolhidos por Jair Bolsonaro, que agradaram o mercado financeiro e foi vista como robusta. O Ibovespa encerrou em alta de 2,27% ontem.

Às 13h12 (horário de Brasília), o Ibovespa caía 0,78%, a 97.250 pontos, após ter descido na mínima de 97.083 pontos. O contrato de dólar futuro com vencimento em março de 2019 tinha queda de 0,08%, cotado a R$ 3,724, e o dólar comercial recuava 0,59%, para R$ 3,720.

No mercado de juros, os contratos futuros com vencimento em janeiro de 2021 caíam de 6,97% para 6,94%, e os contratos para janeiro de 2023 recuam de 8,06% para 8%.

O tom otimista com a reforma, que deve ser encaminhada ao Congresso dentro de uma semana, perde espaço para o clima de tensão crescente no governo que traz cautela antes do fim de semana.

Vale lembrar que as denúncias envolvendo Gustavo Bebianno, ministro da Secretaria-Geral da Presidência continuam a gerar atrito na cúpula do governo e a oposição já prepara um enfrentamento para não deixar a temperatura esfriar (veja detalhes abaixo).

Bolsas mundiais

Enquanto o dia aponta para continuidade do ânimo no Brasil, os índices dos Estados Unidos operam em alta com expectativas de que o país chegue a um acordo com a China sobre as tarifas de importação. No foco de Wall Street está a fala de Donald Trump, às 13h (de Brasília), para falar sobre o que a Casa Branca chamou de "crise de segurança nacional e humanitária".  Trump deve declarar emergência nacional para financiar o muro na fronteira com o México.

Os investidores ainda aguardam o aval do presidente dos Estados Unidos para o acordo fechado entre parlamentares democratas e republicanos sobre o orçamento. A medida evitaria, por enquanto, uma nova paralisação do governo que pode acontecer no fim desta semana. O acordo provisório inclui R$ 1,375 bilhão para a construção de barreiras verticais de aço e não um muro sólido - defendido por Trump. A declaração de emergência nacional teria a função de liberar parte do orçamento para o muro.

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As bolsas europeias operam majoritariamente em alta de olho nas reuniões entre representantes do governo norte-americano e chinês para tentar colocar fim à guerra comercial entre os países. 

As bolsas asiáticas recuaram após a 7ª desaceleração seguida da inflação fomentar receios sobre uma possível deflação em decorrência do enfraquecimento da economia, enquanto investidores seguem à espera de resolução para a guerra comercial entre China e Estados Unidos. 

O acordo já está sendo finalizado, segundo a Agência Estado, e pode servir de base para um pacto que os presidentes Trump e Xi Jinping finalizariam em um encontro de cúpula que seria organizado para discutir a disputa comercial entre os países. Vale lembrar que o prazo para o fim da trégua acaba em 1 de março. Se não houver acordo, os Estados Unidos elevará as tarifas para a importação de produtos chineses. 

No mercado de commodities, os preços do petróleo sobem pelo quarto dia seguido e registra a maior alta semana semanal em um mês com a queda nos embarques da Arábia Saudita, que prometeu cortar sua produção, e da Venezuela, que sofre com sanções dos Estados Unidos. 

Conexão Brasília

O Conexão Brasília desta semana recebe Alberto Rollo, especialista em direito eleitoral e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Na pauta, a recente crise envolvendo suspeitas de candidaturas laranjas no partido do presidente Jair Bolsonaro e o atrito com ministro Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral).

Também deverá ser analisada a nova escalada de tensão entre Legislativo e Judiciário, com a apelidada CPI Lava Toga e a proposta de revogação da PEC da Bengala. O programa é transmitido ao vivo, a partir das 14h45 (de Brasília), pela IMTV e pela página do InfoMoney no Facebook.

Agenda econômica 

O Banco Central informou que o IBC-Br, considerado uma prévia do PIB (Produto Interno Bruto), avançou 0,21% em dezembro ante novembro, na série com ajuste sazonal, e subiu 0,18% na comparação anual, para 136,27 pontos. Este é o maior patamar para o IBC-Br com ajuste desde outubro de 2015 

A estimativa mediana do mercado era de estabilidade em dezembro nas comparações mensal e anual, segundo a Bloomberg.

Nos Estados Unidos, serão conhecidos os dados de vendas do comércio e da produção industrial de janeiro.

Clique aqui para conferir a agenda completa de indicadores.

Reforma da Previdência e crise no governo

Bolsonaro e a equipe econômica do governo decidiram na tarde de ontem que a proposta de reforma da Previdência fixará uma idade mínima de 65 anos para aposentadoria de homens e 62 anos para mulheres, com um período de transição de 12 anos. 

"A proposta acabou sendo um equilíbrio do que defendia o presidente e as ambições da equipe econômica chefiada por Paulo Guedes", dizem os analistas da Rico, Matheus Soares e Thiago Salomão, em relatório enviado a clientes. 

Depois de assinar o texto da reforma e encaminhar ao Congresso, na próxima quarta-feira (20), Bolsonaro vai fazer um pronunciamento à nação para explicar a necessidade de mudar as regras para aposentadoria no país. 

A proposta ainda deve demorar uma semana para ir ao Congresso porque precisa ser avaliada por outras instâncias dentro do governo para verificar, por exemplo, se existe alguma inconstitucionalidade no texto. É possível que até sua assinatura a reforma ainda passe por alguma pequena mudança.

O governo calcula que a reforma vai permitir uma economia de R$ 1 trilhão nos próximos dez anos. Por se tratar de uma PEC (proposta de emenda constitucional), a reforma da Previdência precisa ser votada em dois turnos na Câmara e depois no Senado, com apoio de no mínimo dois terços dos deputados e dos senadores em cada votação.

Enquanto isso, a maior crise do governo Bolsonaro segue em escalada por atritos com Gustavo Bebianno, ministro da Secretaria-Geral da Presidência. Ele era presidente do PSL durante a campanha de 2018 e o partido está sendo questionado pelo uso de R$ 400 mil do fundo partidário em benefício de uma candidata pouco expressiva em Pernambuco.

"Esta crise está ligada às denúncias em relação aos gastos de campanha do PSL e a um certo protagonismo do filho do presidente que, no afã de defender o pai, interferiu levando as discussões e debates em rede social que acabam sendo de domínio público, o que não é bom", disse o vice-presidente Hamilton Mourão.

Um dos filhos de Bolsonaro, o vereador Carlos, agravou a crise ao acusar Bebianno de mentir a respeito conversas que teria tido com o presidente sobre a denúncia. Bolsonaro colocou mais lenha na fogueira ao endossar a declaração de seu filho e a pressão para a demissão de Bebianno é crescente.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, os partidos de oposição na Câmara pressionam o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM), para colocar em pauta no plenário um pedido de convocação de Bebianno. Dois pedidos já foram protocolados: um pelo líder da bancada do PSOL, Ivan Valente, e outro pelo deputado Henrique Fontana (PT). O objetivo dos deputados é se reunir na próxima terça-feira (19) com Maia para tratar do assunto. 

Na semana que vem, a oposição vai definir outras linhas de atuação para manter acesa a crise no governo. No Senado, o líder da oposição, Randolfe Rodrigues (Rede), disse que os partidos também vão tentar convocar Bebianno para dar explicações, informa o Estadão. 

Do outro lado, líderes no Congresso saíram em defesa de Bebianno. O apoio veio também do Palácio do Planalto. “O ministro Gustavo Bebianno é uma pessoa super dedicada ao projeto, é um homem sério, responsável, correto. Acho que essas coisas são naturais em um processo que está iniciando", disse o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM).

A maior crise enfrentada pelo governo Bolsonaro em menos de dois meses de mandato pode trazer consequências à principal pauta de interesse dos agentes econômico, a reforma da Previdência. "[O caso] Pode ter custo reputacional elevado, de tal modo que podemos ter efeito que parece ser quase automático de diminuir o poder de arbitragem na Previdência", afirmou Rafael Cortez, da Tendências Consultoria Integrada em entrevista ao InfoMoney.

Além disso, o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir, disse ao Estadão que Bolsonaro não tem hoje uma base no Congresso para aprovar a reforma. Waldir declarou que, para garantir governabilidade a Bolsonaro, os parlamentares querem participação no governo com cargos e emendas.

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"Hoje o que tem é o apoio de alguns grupos temáticos em relação a alguns assuntos", disse o deputado, fazendo referência às bancadas ruralista, evangélica e da segurança pública. O líder do PSL negou, no entanto, que os aliados de Bolsonaro queiram fazer uma "troca" para votar a reforma da Previdência.

 

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