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Por que o estrangeiro está saindo do Brasil mesmo após a vitória de Bolsonaro?

Incertezas sobre o rumo do novo governo e fatores externos, como a política monetária do Fed, ajudam explicar a fuga de capital do mercado brasileiro

Homem perdendo dinheiro
(Shutterstock)

SÃO PAULO - Assim que foi declarada a vitória de Jair Bolsonaro, foi criada uma grande euforia sobre o rumo da Bolsa com a eleição do candidato do PSL, com previsões do Ibovespa indo buscar a casa dos três dígitos em poucos dias no que foi apelidado como "efeito Bullsonaro". 

Porém, desde que cravou topo histórico (89.598 pontos) em 6 de novembro, o Ibovespa acumula queda de 5% e para explicar como tanta euforia foi transformada em frustração é preciso entender o verdadeiro motor do mercado: a movimentação dos investidores estrangeiros. 

Com 50% de participação na Bolsa, acompanhar os gringos sempre foi um bom indicativo sobre a tendência do Ibovespa e ajuda explicar como o Ibovespa ainda não está na faixa de 100 mil pontos.

No primeiro pregão após a vitória de Bolsonaro, quando todos esperavam por uma forte alta do mercado e o índice encerrou em baixa de 2,24%, os estrangeiros registraram fluxo negativo de R$ 1,01 bilhão e desde então as vendas passaram ser recorrência pelo segmento.

Segundo os dados fornecidos pela B3, o fluxo estrangeiro encerrou outubro negativo em R$ 6,2 bilhões, ao passo que em novembro (até o último dia 22) as vendas superam as compras em R$ 3,59 bilhões. 

Para se ter uma ideia da influência dos gringos no mercado, no dia de 6, quando o Ibovespa marcou topo histórico em 89.598 pontos e interrompeu sua sequência de 4 altas consecutivas, os estrangeiros encerraram com saldo negativo de R$ 646,5 milhões. Em 2018, as vendas superam as compras em R$ 9,5 bilhões.

Do outro lado, dando liquidez para a saída dos estrangeiros, está o segmento pessoa física, que representa os investidores locais. Diante de toda euforia com a vitória de Bolsonaro, no dia 29 de outubro o fluxo encerrou o dia positivo em R$ 260 milhões e neste mês segue na contramão dos estrangeiros.

Até a última quinta-feira (22), o fluxo do segmento pessoa física está positivo em R$ 1,7 bilhão, tendência também verificada entre os investidores institucionais, que no acumulado do mês estão com saldo positivo de R$ 1,8 bilhão.

Com a queda de 5% do Ibovespa desde que marcou topo histórico e quatro semanas após a eleição de Bolsonaro, o mercado não mostra sinais de uma entrada expressiva de capital estrangeiro como no começo do mês passado, o que impulsionou o índice dos 75 mil pontos até o patamar atual de 86 mil pontos.

Se era o desejo do mercado um governo reformista, o que está levando a debandada dos gringos neste momento?

Quadro de incertezas

No seu discurso após a vitória sobre o petista Fernando Haddad e em suas entrevistas à imprensa, Bolsonaro destacou a importância das reformas e do enxugamento da máquina pública, cravando compromisso com uma agenda reformistas e liberal.

Embora tenha sido bem recebido pelos investidores, uma solução logo para este ano ou nos primeiros meses de governo vem sendo vista com muito ceticismo pelo mercado.

Com as incertezas fiscais voltando ao centro das preocupações, não só porque a Previdência ficou para o ano que vem, mas também pelo temor por uma reforma mais branda e que pouco resolveria em vista da atual situação fiscal, o investidor estrangeiro tende a não colocar todas suas fichas neste momento, à espera de sinais mais concretos sobre a evolução do quadro de reformas ao longo de 2019.

Além disso, o fim do regime de presidencialismo de coalizão, o famoso "toma-lá-dá-cá" da política, ainda gera muitas incertezas no mercado em relação à governabilidade.

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Para somar as incertezas sobre o poder de articulação política do novo governo, pesa também a realização de lucros após o Ibovespa subir 14% entre setembro e outubro, no mais clássico movimento de "compra no boato e vende no fato", como também a tendência de aumento de juros entre os principais bancos centrais do mundo.

Nos EUA, o Fed segue com suas sinalizações sobre o aumento da taxa de juros, o que implica em menor fluxo para os mercados emergentes e fortalecimento do dólar, que ganha um impulso a mais neste final do ano com as remessas de muitas empresas para o exterior diante do fim dos balanços e pagamento de dividendos.

Porém, neste mesmo mar de incertezas, caso as reformas avancem no Congresso e a equipe econômica de Bolsonaro faça um bom trabalho, o mercado brasileiro tem um enorme potencial de valorização, tanto pelo lado do avanço da economia, vide que estamos com uma inflação ancorada, Selic em níveis historicamente baixos e um PIB (Produto Interno Bruto) potencial -- capacidade da economia de um país crescer sem gerar pressões inflacionárias -- de até 3% no ano que vem, segundo o último estudo do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), como pelo retorno dos investidores estrangeiros. 

Para se ter uma ideia do potencial da Bolsa, segundo a XP Investimentos, com Bolsonaro presidente o Ibovespa pode chegar a 125 mil pontos no melhor cenário. 

Esperando pela prova real

Após diversas decepções com o Brasil nos últimos anos, sendo a mais recente em maio deste ano com a greve dos caminhoneiros, com o fantasma da intervenção política rondando a Petrobras, os investidores estrangeiros querem muito mais do que promessas para voltar a colocar "dinheiro novo" no mercado brasileiro.

Por isso, todos os olhos estarão voltados para as medidas iniciais de Bolsonaro e equipe, especialmente no que diz respeito à economia, para que seja retirada a prova real deste novo governo.

Havendo comprometimento com a agenda liberal e habilidade política para tocar as reformas, temos um verdadeiro "tsumoney" à espera do mercado brasileiro.

Segundo relatório assinado pelos estrategistas Carlos Sequeira e Bernardo Teixeira, do BTG Pactual, considerando que as alocações de fundos mútuos internacionais atualmente estão abaixo do que foi visto em outubro de 2014, durante a campanha de reeleição de Dilma Rousseff, poderá haver um fluxo de R$ 251 bilhões (ou US$ 68 bilhões) apenas para o mercado retornar ao mesmo nível daquele ano.

De acordo com os estrategistas do banco, a alocação em ações no Brasil deve aumentar à medida que as políticas econômicas do novo presidente se tornem mais claras: "o aumento da confiança dos investidores na capacidade do governo de lidar com seus problemas fiscais deve levar as taxas longas de juro real para baixo, tornando as ações mais atrativas", avaliam.

Neste espectro, temos todo potencial para repetir os áureos tempos de 2003 até a crise de 2008, quando o Ibovespa saltou 640% considerando a mínima e a máxima dos respectivos anos.  

"Não faz o menor sentido o estrangeiro ter a mesma alocação de 2014, com Dilma, Tombini e aquela matriz macroeconômica [que levou o Brasil para uma das priores recessão da história do País] desenvolvimentista, sendo que se compara com a equipe que está se formando [por Bolsonaro], não há o que comparar (...) Portanto, temos assimetrias para tudo o que é lado neste momento: o Brasil está na mão de pessoas melhores, visão melhor e alocação super baixa [pelos estrangeiros]", afirmou Henrique Bredda, gestor do Alaska Asset, em entrevista ao programa Papo com Gestor na última terça-feira (14).

De acordo com Bredda, todas essas assimetrias justificam "comprar Brasil" neste momento, pois de fato a relação risco x retorno está totalmente favorável para a Bolsa brasileira.

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