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Rumo aos 80 mil: por que o Ibovespa não para de subir sem que haja uma "notícia óbvia"?

Investidores estão aproveitando "falta de notícias" no Brasil e ânimo global, mas fundamentos também guiam ganhos, aponta analista da XP

Dinheiro Lucro Feliz
(Shutterstock)

SÃO PAULO - 2018 não poderia ter começado melhor para os investidores em bolsa. Após terminar 2017 com ganhos de 27%, o Ibovespa já avança 3,5% em 2018 e há nove pregões que não sabe o que é cair, superando a máxima histórica e se aproximando dos 80 mil pontos. 

Todo esse movimento chama ainda mais a atenção quando se lembra que o Brasil tem uma série de desafios, como de aprovação da reforma previdência e de resolução do cenário fiscal crítico, ao mesmo tempo em que passaremos por muita turbulência em decorrência das eleições - que prometem ser as mais pulverizadas desde 1989. 

Mas afinal, o que explica essa forte disparada da bolsa mesmo em meio a um cenário bastante desafiador? De acordo com o analista da XP Investimentos Marco Saravalle, o ambiente mais tranquilo nesse início de ano, sem tantas notícias impactantes vindas de Brasília por conta do recesso parlamentar, está ajudando o Ibovespa a renovar as máximas. "A falta de notícias acaba sendo uma boa notícia", afirma. 

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De qualquer forma, avalia Saravalle, o desempenho da bolsa nos últimos pregões surpreende pela rapidez com que está ocorrendo. Entre os motivos para um forte desempenho, está o cenário externo benigno: no início do ano, foram reforçadas as expectativas de um crescimento animador para a economia global, ao mesmo tempo em que não há previsões de alta de juros além do já esperado no mundo desenvolvido, em meio à persistência da inflação baixa nas maiores economias do planeta. 

A ata da última reunião do Fomc (Federal Open Market Committee), revelada na última quarta-feira, é um bom sinal disso. Apesar da alta dos juros no mês passado, a maioria dos integrantes do Federal Reserve defendeu a continuidade do gradualismo, o que se refletiu na manutenção da perspectiva de três aumentos projetados para esse ano. Os integrantes do comitê sinalizaram que o mercado de trabalho apertado deve se refletir em pressões inflacionárias no médio prazo. Contudo, os integrantes do Fed consideraram a possibilidade de que a inflação fique abaixo do objetivo por mais tempo que o esperado e mostraram preocupação com a queda nas expectativas de inflação no longo prazo - isso levou a os dois votos dissidentes pela manutenção dos juros. 

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Nesse ambiente de otimismo global e renovação de máximas, o Japão foi um dos destaques desta quinta-feira, ao inaugurar 2018 com alta de 3,26%, garantindo seu maior ganho porcentual em 14 meses e fechando acima de 23 mil pontos pela primeira vez desde janeiro de 1992. Além disso, a perspectiva por fusões e aquisições (como os casos Embraer-Boeing e Locamerica-Unidas no Brasil e, no exterior, especulações de analistas de que a Apple pode comprar o Netflix e a Amazon pode comprar a Target) também movimentam as bolsas e afetam setores como um todo. 

Assim, por enquanto, a avaliação é de continuidade do cenário de forte liquidez mundial - o que impacta os emergentes. "Talvez os locais estejam mais cautelosos, mas o estrangeiro segue otimista com o investimento em bolsa mundo todo, inclusive no Brasil, cujos índices são muito impactados pela entrada do investidor de fora", avalia Saravalle. 

Fundamentos também guiam otimismo para o Ibovespa
O analista da XP aponta que, ao olhar os fundamentos, as perspectivas para o Ibovespa são positivas. Além do cenário global, os números positivos da economia brasileira, como do varejo (no final de dezembro, ganharam destaques indicadores apontando para o "melhor Natal" em sete anos, com expectativa de alta de 6% na venda na comparação anual), além do recorde da balança comercial de US$ 67 bilhões em 2017, impulsionam o índice, reforçado pela visão de que os juros mais baixos devem se manter por um bom tempo também no Brasil. 

Ele avalia que, em meio à essa alta em forte velocidade, é possível que haja um "movimento de correção natural" para o Ibovespa e o ritmo de alta também deve diminuir com a volta dos trabalhos no Congresso e todas as especulações sobre a reforma da previdência e eleições. 

Contudo, o que pode ocorrer com mais "contudência", aponta o analista, é um movimento de "rebalanceamento" das carteiras com a proximidade dos eventos que prometem trazer nervosismo aos mercados. Ações com maior beta e que vêm disparando, tendo como maior exemplo as siderúrgicas, que estão "subindo no boato e mais ainda no fato" (como Saravalle classifica a notícia de aumento dos preços de aço), podem registrar saída de investidores. Enquanto isso, papéis de empresas menos relacionadas ao desempenho da economia brasileira e com maior capacidade de execução devem voltar a ganhar atratividade, como é o caso de RD (RADL3), exportadoras e empresas que são boas pagadoras de dividendos. 

De qualquer forma, as perspectivas são positivas para o índice, com Saravalle reforçando visão de alta, em linha com a expectativa de grande bancos para o Ibovespa, como é o caso do Bradesco BBI e do Itaú BBA. Em relatórios recentes enviados a clientes, os estrategistas dos bancos apontaram acreditam que o índice pode encostar nos 90 mil pontos ao final do ano. 

Por outro lado, há quem veja com cautela esse cenário. "A Bolsa continua quebrando recordes e o dólar permanece em discreta linha de depreciação, mas não acreditamos que isto deva ser considerado de forma enfática tendência sustentável", afirma em relatório o economista-chefe e diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme. Ele destaca que, se o clima em fevereiro não for pró-aprovação da reforma, muito provavelmente "ocorrerá nova revoada dos capitais especulativos externos" - e quem sabe nem só os que estão na bolsa. 

"O ano eleitoral turbulento e a crise fiscal podem ser extremamente perturbadores em 2018, um ano com muitas incertezas. É extremamente necessário que haja muita observação e precaução ao longo dos meses, ainda que haja otimismo, é preciso acreditar que o ano se constitui num grande desafio para o Brasil", afirma o economista. 

Os investidores iniciaram o ano com o pé direito - mas 2018 ainda pode reservar muitas surpresas para o mercado. Por enquanto, a maioria avalia que elas podem ser positivas. 

 

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