A Síria pode mudar o “script” da economia mundial? Mercado aponta que sim

Preços do petróleo seriam, a princípio, os mais afetados, mas há quem aponte que o Fed possa até mudar de planos quanto a QE3
Bashar al-Assad, presidente sírio
Bashar al-Assad, presidente sírio

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SÃO PAULO – Os fortes confrontos na Síria entre os rebeldes e o governo local já duram dois anos, mas os novos rumos que tomaram este conflito começaram a abalar os mercados nesta semana. Isso porque os Estados Unidos sinalizaram que podem invadir o país, em meio às acusações de que o exército de Bashar Al-Assad, presidente do país, teria supostamente atacado civis com armas químicas. 

Uma intervenção pode ser autorizada nos próximos dias, e o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, já chamou a utilização desse tipo de arma de “uma obscenidade moral”. Bashar Al-Assad prometeu se defender contra “quaisquer invasores”. Com isso os mercados mundiais entraram em crise, com as bolsas caindo e o petróleo disparando. 

Mas há motivos para acreditar que apenas a possibilidade de um conflito no país pode desencadear uma mudança muito brusca para a economia mundial. Conforme destaca a reportagem do Market Watch, o conflito na Síria pode até mesmo desencadear mudanças na política do Federal Reserve, alterando os seus planos para o início da redução do programa de flexibilização monetária.

“O roteiro estava pronto para o resto de 2013, com o Fed começando a reduzir o seu programa de estabilização. Mesmo com a economia andando a passos lentos, ela se recuperaria e a política monetária voltaria ao normal”, destaca o portal.

Contudo, a história não está funcionando conforme o esperado. A ameaça do fim do QE3 (Quantitative Easing) já levou a um forte “sell-off” dos países emergentes. E agora, uma ameaça de intervenção militar na Síria vai intensificar a espiral descendente, o que vai se espalhar para a Europa e está passando para os países periféricos do continente.

Com a crise se agravando, o crescimento global tende a diminuir e, com isso, destaca a publicação, o Federal Reserve deve continuar imprimindo mais dinheiro do que o planejado. “Ele não terá outra escolha.”

Na semana passada, os mercados emergentes já começaram a se abalar. A Índia parece ter entrado em uma crise, com a rúpia registrando forte desvalorização, enquanto o crescimento diminui e a inflação aumenta. O Brasil também não está em uma situação muito diferente, com o Banco Central tendo que agir energicamente para conter a forte a alta do dólar. 

E agora mais um ingrediente de risco é adicionado com o risco de intervenção militar na Síria, que chega em um momento bastante ruim para os mercados. Um confronto mais grave no país ameaça convulsionar o Oriente Médio, inflando os preços do petróleo e aumentando ainda mais o nervosismo dos mercados. E se a Rússia insistir em apoiar o regime de Assad até o fim, as proporções da guerra serão ainda mais graves.

Assim, tanto a crise na Síria quanto nos mercados emergentes podem trazer consequências maiores para a economia global. E por dois motivos: com o forte crescimento da última década, os emergentes passaram a ser muito mais importantes do que costumavam ser.

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O segundo motivo é que uma boa parte da zona do euro é problemática. Países como Grécia, Chipre, Itália, Espanha, Portugal e Irlanda têm muitas das mesmas características de nações como a Tailândia e a Malásia em 1990, com enormes dívidas que podem ser ainda mais custosas caso haja algum problema mais sério. E isso pode levar a zona do euro para a recessão. 

E é aí que o Federal Reserve entra. Os Estados Unidos não podem ignorar os efeitos a crise dos mercados emergentes ou um conflito no Oriente Médio e o seu próprio crescimento depende do comércio com outras nações. 

Crise política pode virar econômica
O mesmo ponto de vista é destacado pelo senador republicano dos Estados Unidos John McCain em entrevista à CNBC, que disputou com o atual presidente Barack Obama a presidência em 2008. De acordo com McCain, a crise na Síria está transformando um conflito regional com potencial para ter graves consequências macroeconômicas.

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Também citando o aumento dos preços do petróleo, McCain destaca que o conflito na Síria se espalha pelo mundo. O país tem uma produção relativamente baixa mas, se envolver outros países produtores, pode haver uma ruptura importante no provisionamento. Contudo, maiores riscos, como fechar o Canal de Suez, o que seria bastante problemático para o fornecimento de petróleo para o mundo por ser o principal escoadouro de petróleo dos países árabes, não deve ocorrer. 

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.