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Mantega promete cortar dividendos de estatais... mas isso já não aconteceu?

Tanto a Petrobras quanto a Eletrobras - de uma forma ou de outra - já eliminaram alguns dividendos; Banco do Brasil pode ser o próximo

mantega - 04/12/12
(Ueslei Marcelino/Reuters)

SÃO PAULO - Guido Mantega, ministro da Fazenda, alertou os investidores: os lucros das estatais devem ser maiores em 2013 do que em 2012, mas o governo pode pegar menos dividendos dessas companhias para deixá-las capitalizadas. Embora isso não mude muito o cenário para Caixa Econômica Federal e BNDES (Banco Nacional Desenvolvimento Econômico e Social), os acionistas privados de Petrobras (PETR3; PETR4), Eletrobras (ELET3; ELET6) e Banco do Brasil (BBAS3) deverão sofrer um corte no que recebem. Sem lucro nos últimos anos, os acionistas da Telebras (TELB3; TELB4) já não recebiam dividendo. 

Tanto a Petrobras quanto a Eletrobras - de uma forma ou de outra - já eliminaram alguns dividendos. A Petrobras, por exemplo, que usualmente pagava a mesma quantia para as ações ordinárias (PETR3) e preferenciais (PETR4), reduziu pela metade o valor distribuído para as ONs. "Isso já estava previsto no estatuto, foi para compensar o caixa. O corte trouxe uma economia de cerca de R$ 2 bilhões por trimestre", explica Henrique Kleine, analista-chefe da Magliano Corretora.

O mesmo ocorreu com as elétricas, sobretudo a Eletrobras - fruto do novo ambiente do setor após a MP 579 assinada em setembro do ano passado, que tira a "folga do caixa" que era usado para pagar os dividendos. "Para a Eletrobras ainda não entendemos muito bem como funcionará, por conta do processo na MP 579, mas sem sombra de dúvida esses dividendos serão reduzidos para aumentar investimentos. A companhia já está com muita dificuldade", alerta Mitsuko Kaduoka, diretora de análise de investimentos da Indusval & Partners Corretora.

Mesmo assim, Kleine salienta que 25% do lucro será pago em dividendos, já que é o mínimo exigido por lei - o que preocupa com Eletrobras é a possibilidade da companhia não lucrar este ano. Mantega, porém, já havia dito que a perspectiva de lucros para as companhias este ano é maior do que 2012, mas não se sabe se havia considerado que a Eletrobras, que fechou 2012 com prejuízo de R$ 6,8 bilhões, fecharia no positivo ou não. 

Ainda há espaço para mais cortes na Petrobras?
Se a Petrobras já cortou parte dos dividendos das ações ordinárias - das quais o governo detém boa parte -, ainda é possível que a companhia sofra um novo corte, mas dessa vez nas preferenciais, avaliam os analistas.

A política da desigualdade nos proventos não foi bem recebida, especialmente entre os estrangeiros, que negociam muito mais os ADRs (American Depositary Receipts) lastreados nas ações ordinárias do que nas preferenciais - aqui no Brasil, a ação PETR4 é mais negociada que a PETR3. "O efeito dessa prática foi tão ruim que o governo pensou em voltar atrás", alerta Mitsuko, lembrando que as ações ordinária chegaram a cair mais de 20% na época do corte nos dividendos.

Com a Petrobras sob ataque por parte da oposição no congresso e na mídia, por conta dos pesados subsídios para manter o preço da gasolina estável e a deterioração dos resultados, é bastante provável que o governo opte por deixar o caixa da companhia o mais intocado possível para financiar o plano de investimentos dos próximos anos.

Banco do Brasil não escapa
Se a situação para a Eletrobras e Petrobras já se deteriorou, o mesmo não pode-se dizer do Banco do Brasil (BBAS3), que ainda tem pago 40% do seu lucro em dividendos. De acordo com a avaliação de Kleine e Mitsuko sobre a fala de Mantega, provavelmente a companhia deve reduzir o pagamento. "A companhia deverá seguir o estatuto, pagar 25% em dividendos", avalia Kleine. 

A companhia acaba de receber R$ 8 bilhões com o IPO do BB Seguridade (BBSE3), que deve ser usada para reforçar o caixa da companhia. No entanto, o BB já informou que o resultado do 2º trimestre terá um impacto positivo de R$ 4,7 bilhões no lucro líquido por conta do IPO e parte disto terá que ser pago em dividendos, conforme a lei. "Dessa quantidade toda, acho que a companhia deve vir a pagar o mínimo", destaca o analista-chefe da Magliano. 

Mitsuko acredita que BB só deve cortar os dividendos se a decisão for do Palácio do Planalto, passada de cima para baixo, já que a companhia não tem motivo para cortar dividendos agora. "O que eles pagam é alto, mas não vejo necessidade de fazer isso, pode acontecer lá na frente, mas hoje não consigo enxergar isso", avalia a diretora. O verdadeiro temor, segundo a analista, é que o BB possa ser usado cada vez mais para promover medidas anticíclicas do governo. 

 

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