Mudanças no mercado

Ações de Petrobras e São Martinho cortadas, elétricas no foco: as recomendações alteradas em meio à queda do mercado

Forte queda de 12,17% da bolsa na véspera por conta da maior baixa do petróleo desde 1991 levou a revisões de recomendações por diversos bancos

(Divulgação)

SÃO PAULO – O pregão da última segunda-feira foi de caos no mercado financeiro global. O Ibovespa desabou 12,17%, puxado por quedas antes inimagináveis, como os de quase 30% das ações da Petrobras (PETR3;PETR4), diante da guerra de preços de petróleo entre Arábia Saudita e Rússia.

Esse foi o novo ápice do receio do mercado em um ano dominado por notícias internacionais bastante negativas, fazendo com que diversos analistas de mercado revisassem as suas recomendações, principalmente para ações de empresas ligadas diretamente ao setor de combustíveis (petroleiras, distribuidoras e sucroalcooleiras).

Em destaque, no último fim de semana, a Petrobras teve a sua recomendação reduzida pelo Bradesco BBI, enquanto São Martinho, do setor de açúcar e álcool, teve a recomendação reduzida tanto pelo Bradesco BBI quanto pelo Morgan Stanley, uma vez que a competitividade do etanol deve cair com a queda do petróleo.

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Por outro lado, ações de empresas mais defensivas, caso de elétricas e de saneamento, ganham espaço entre as recomendações, uma vez que elas são menos impactadas em um ambiente de desaceleração global.

Confira as recomendações revisadas desde a forte queda do mercado – e os motivos para isso:

Petrobras: desafios maiores com a queda do petróleo

A Petrobras (PETR3; PETR4) teve a sua recomendação reduzida de equivalente à compra para neutra pelo Bradesco BBI em meio à revisão dos preços do petróleo pelo banco.

Os analistas avaliam que haverá uma guerra de preços pela frente e que o movimento surpreendente dos sauditas poderia ser uma tentativa de trazer a Rússia de volta à mesa de negociações. Contudo, eles não acreditam que essa queda de braço será vencida rapidamente. Assim, é difícil saber quanto esse imbróglio terminará, mas deve trazer consequências negativas.

Como resultado, os analistas reduziram a previsão do brent de US$ 65 para US$ 35 o barril este ano, avançando gradualmente para US$ 55 o barril no longo prazo. Com as cotações mais baixas do petróleo, a desalavancagem da empresa pode levar mais tempo, com a relação entre dívida líquida e o Ebitda abaixo de 1,5 vez após 2025 e, portanto, a distribuição de dividendos pode ser comprometida.

Com isso, o preço-alvo para a Petrobras foi cortado de US$ 18 para US$ 11 o ADR (ou de R$ 38 para R$ 23,50 a ação preferencial).

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Em meio à derrocada da commodity, a empresa disse que está monitorando o assunto e que é prematuro projetar os impactos da queda do petróleo em suas operações e não indicou nada sobre mudança de preços dos combustíveis.

O UBS, por sua vez, apontou que o investimento em bens de capital (Capex, na sigla em inglês) das empresas de exploração e produção como a Petrobras é o mais afetado pela queda do petróleo. “A reação inicial dos investidores deve ser reduzir exposição ao setor.”

Distribuidoras – cenário um pouco mais positivo

Do lado das distribuidoras de combustíveis, o cenário é um pouco mais positivo, segundo avaliação também do Bradesco BBI. Os preços mais baixos na gasolina e no diesel poderiam impulsionar os volumes de vendas no cenário-base dos analistas. “Com os preços dos combustíveis potencialmente caindo R$ 0,60 por litro (de 12% a 16% na bomba), deve haver muito espaço para acomodar melhores margens de distribuição”, escrevem os analistas.

Além disso, eles apontam uma melhora no mix de vendas, pois com a queda na gasolina é esperado que o setor sucroalcooleiro volte a produzir mais açúcar e menos etanol, o que poderia adicionar R$ 2,00 por ação à Ultrapar (UGPA3) e R$ 1,00 por papel da BR Distribuidora (BRDT3).

“Nós preferimos a BR por conta da logística melhor para importar gasolina e também pela menor alavancagem e dividend yield [dividendo por ação dividido pelo valor de cada ação] mais generoso”, concluem.

Na véspera, as ações da BRDT3 e de UGPA3 caíram forte, respectivamente 11,12% e 9,83%, em meio à forte aversão ao risco do mercado,. Contudo, na sessão desta terça-feira, os papéis registram recuperação, com ganhos de até 9% para BR Distribuidora e de 12,39% para Ultrapar.

São Martinho: ambiente mais difícil para setor sucroalcooleiro

Os analistas do Bradesco BBI reduziram a recomendação da São Martinho (SMTO3), de compra para neutra, também diminuindo o preço-alvo de R$ 29 para R$ 22 por ação. A equipe do banco cortou a previsão para os preços de açúcar e etanol refletindo impacto negativo da deterioração dos preços de petróleo e também em meio à queda das cotações do açúcar no mercado externo.

Para o banco, as usinas brasileiras elevarão a produção de açúcar na próxima safra, elevando o mix açucareiro para 40%, o que deve aumentar a oferta brasileira de açúcar em até 6 milhões de toneladas.

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Com isso, agora, o Ebitda para 2020 e 2021 é 23% abaixo do consenso do mercado. Com as novas projeções, os analistas do banco avaliam aoinda que a direção do grupo não deverá mais aprovar o investimento em etanol de milho anexa à Usina Boa Vista, o que contribuía anteriormente em R$ 2,50 para o preço-alvo do papel.

Os analistas do Morgan Stanley também reduziram a recomendação para a ação da companhia de equal-weight (desempenho em linha com a média do mercado) para underweight (exposição abaixo da média do mercado), de olho principalmente no valuation da companhia.

Apesar de um petróleo mais barato indicar uma mudança no mix da produção de etanol para açúcar, já que a gasolina ficará mais competitiva como combustível, a equipe do banco entende que isso pode não ocorrer no caso da empresa. Isso porque uma desvalorização no brent levaria os preços do etanol a atingir equivalência com os do açúcar dos atuais US$ 14,9 custo por libra para US$ 12,9 custo por libra, praticamente em linha com o preço atual do açúcar de US$ 13,1 custo por libra.

“Isso não deve afetar o ciclo de lucros da São Martinho, pois o real mais fraco ofuscou os valores menores da commodity em dólares, mas o preço é o que importa para o valor da ação e a SMTO3 já performou muito acima do mercado”, dizem os analistas.

Oportunidades em cenário de aversão ao risco

Enquanto isso, algumas casas de análise fizeram revisões em sua carteira de estratégia em meio ao ambiente mais negativo global. A XP Investimentos, que já tinha entrado no mês de março com um portfolio mais defensivo em meio ao cenário de incerteza global, fez algumas mudanças extraordinárias no último fim de semana em meio à forte queda do petróleo e a maior aversão ao risco no exterior.

Com isso, foram retiradas as ações da JBS (JBSS3) e da Vale (VALE3), entrando os papéis de Ambev (ABEV3) e Engie (EGIE3). “Com isso, aumentamos ainda mais a exposição ao setor elétrico e reduzimos a exposição aos setores cíclicos globais, reduzindo também o beta da carteira – ou seja, a sensibilidade aos movimentos do mercado”, destaca a equipe de research.

Anteriormente, para o portfolio deste mês, a XP já havia adicionado a ação da Copel (CPLE6) com o intuito de elevar a proteção com empresas menos expostas à atividade econômica, uma vez que empresas de energia possuem menor influência no mercado externo e possuem um mercado regulado no doméstico, possuindo perspectiva mais estável em cenários voláteis.

A outra alteração foi a troca da ação da Vivara (VIVA3) pela da Lojas Renner (LREN3). Com a forte alta do preço do ouro no ano, trazendo riscos para a margem da companhia no curto e médio prazos para a companhia de joias, os analistas da XP apontaram preferir exposição a nomes domésticos e de maior liquidez via Renner.

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Além de Ambev, Engie, Lojas Renner e Copel, a carteira da XP é composta por ações do Banco do Brasil (BBAS3), Cyrela (CYRE3), Ecorodovias (ECOR3), Iguatemi (IGTA3), Localiza (RENT3) e Via Varejo (VVAR3). Confira a composição completa clicando aqui. 

As empresas de setores regulados, como elétricas e saneamento, também foram alvo de análise do Bradesco BBI. O analista Francisco Navarrete destacou que, apesar do contexto de risco desafiador para o mercado acionário, com prêmios de risco aumentando, há oportunidades nesses setores uma vez que as mudanças de estimativas de lucro para essas companhias em um cenário de desaceleração global são relativamente pequenas ou até mesmo inexistentes.

Além disso, mesmo com crescimento de PIB demorando mais para voltar, as taxas de juros devem continuar baixas por mais tempo, favorecendo ações bond-like (ou que tenham um comportamento mais parecido com títulos), caso do setor, uma vez que ele possui um fluxo de caixa resiliente, nível de alavancagem razoável e quase não tem exposição a dívida em dólar – com exceção de Sabesp e Cemig, que possuem uma exposição pequena.

O analista deu destaque para a Taesa (TAEE11), cuja recomendação foi elevada de neutra para outperform, com o preço-alvo sendo elevado de R$ 30 para R$ 33 para 2020, implicando um potencial de valorização de 15% em relação ao fechamento da véspera. Os analistas destacaram que o papel pode ser um porto seguro em meio ao cenário de volatilidade do mercado de ações em meio às preocupações com a desaceleração econômica por conta do coronavírus.

Três pontos foram destacados: i) a resiliência de seu fluxo de caixa, uma vez que a receita do negócio de transmissão não depende da demanda por eletricidade; ii) o dividend yield (indicador calculado pelo dividendo pago por ação dividido pela cotação do papel) sustentável entre 9% e 9,7% para 2020 e 2021, respectivamente e iii) o valuation está bastante atrativo.

Os analistas também destacam que outras empresas do setor parecem atrativas, também destacando o dividend yield atrativo. Três são destaques: a Eletrobras (ELET3;ELET6), Sanepar (SAPR11) e a Cesp (CESP6).

Sobre a Eletrobras, o analista avalia que a maior parte do fluxo de caixa está associada à receita de geração, blindada de problemas hidrológicos – cotas – e receitas de transmissão estáveis. “Alem disso, a privatização não está precificada”, aponta.  Já sobre Sanepar, o Bradesco BBI avalia que a empresa tem sido referência em controle de custos e que há confiança de que o regulador será técnico no próximo reajuste anual de tarifa de abril. Por fim, sobre a Cesp, depois da privatização em 2018, a companhia ainda está negociando corte significativo nas contingências e tem algumas reduções de despesas com pessoal pendentes.

O Itaú BBA também destacou em relatório de estratégia uma lista de ações defensivas, que podem ser boas alternativas em meio ao cenário de forte baixa dos mercados. São as seguintes ações: CCR ON, Ecorodovias ON, Cyrela Commercial Properties (CCP) ON, Multiplan ON, units da Alupar, Telefônica Vivo PN, Carrefour Brasil ON, Bradesco PN, units do Santander e BB Seguridade ON.

Outro grupo elencado são de papéis que tiveram forte queda no cenário atual, mas que possuem potencial de crescimento e são de alta qualidade. São as seguintes ações: Azul PN, Localiza ON, Locamérica ON, Movida ON, Randon PN, Via Varejo ON, Equatorial ON, units da Engie, Eztec ON, B3 ON, Vale ON e os ADRs da PagSeguro.

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