Ação na Venezuela pressiona preço do petróleo apenas no curto prazo, diz especialista

Analista aponta que, apesar das tensões geopolíticas, a oferta abundante de petróleo mantém os preços sob controle

Anna França

Um navio petroleiro ancorado no cais de uma refinaria de petróleo em 18 de dezembro de 2025, em Puerto Cabello, Venezuela (Bloomberg)
Um navio petroleiro ancorado no cais de uma refinaria de petróleo em 18 de dezembro de 2025, em Puerto Cabello, Venezuela (Bloomberg)

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O ataque dos Estados Unidos à Venezuela ampliou as incertezas nos mercados globais de energia e acendeu um sinal de alerta. No entanto, embora a ofensiva contra um dos países com as maiores reservas de petróleo do mundo possa sugerir um choque de oferta, especialistas enxergam efeitos mais complexos sobre os preços do petróleo.

Segundo Beny Fard, analista de investimentos e finanças e cofundador e COO do Grupo B8 Partners, o impacto imediato será sentido no prêmio de risco do mercado, e não em um aumento direto no preço do barril. “O mundo vive um paradoxo no mercado de petróleo, com muita tensão geopolítica, mas também uma oferta abundante”, diz.

Limite de aumento

Apesar dos conflitos envolvendo Rússia, China e Estados Unidos, o preço internacional do barril de petróleo tipo Brent permaneceu em níveis moderados, girando em torno de US$ 60 por barril em 2025. Isso se deve à oferta global ainda elevada, impulsionada principalmente pela produção recorde de petróleo de xisto (shale oil) nos Estados Unidos, que alcançou um nível de autonomia energética sem precedentes.

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Mesmo com essa produção interna robusta, os Estados Unidos continuam importando petróleo de diversas origens, o que confere ao país maior resiliência diante de choques externos. “Nesse contexto, quem dita o preço do petróleo hoje é a oferta, e não apenas a geopolítica. E a oferta está em excesso”, afirma Fard.

Reservas não garantem produção

Embora a Venezuela possua uma das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com mais de 300 bilhões de barris, isso não se traduz automaticamente em produção efetiva. “Há uma diferença significativa entre ter petróleo no subsolo e conseguir extraí-lo, refiná-lo e colocá-lo no mercado global”, diz Fard.

Mesmo após a captura de Nicolás Maduro, o país não conseguirá, de imediato, transformar suas reservas em uma grande injeção de oferta no mercado. A falta de infraestrutura, investimentos e governança no setor energético limita a capacidade de expansão rápida da produção.

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Por isso, apesar de sua relevância simbólica, a Venezuela não deve impactar significativamente os preços do petróleo no curto prazo.

Xadrez geopolítico

De acordo com Fard, o episódio está mais relacionado a uma disputa geopolítica de longo prazo do que a uma simples questão de oferta e demanda. Na visão estratégica dos Estados Unidos, a América Latina é considerada uma área prioritária de influência, o que foi reforçado pela recente ofensiva.

Para os norte-americanos, reduzir a influência de rivais como China e Rússia na Venezuela e recuperar espaço no mercado energético regional são peças-chave de sua política de energia e segurança nacional. Nesse cenário, a alta produção de shale oil nos EUA serve como um amortecedor contra choques de oferta, reduzindo a pressão por aumentos abruptos nos preços do petróleo.

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro