Análise

Ação da B3 tem leve alívio com novas medidas, mas temor sobre concorrência segue rondando mercado

B3 divulgou comunicado com nova política de tarifas para estimular o aumento dos volumes negociados e o crescimento da base de investidores pessoas físicas

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SÃO PAULO – As últimas quatro sessões de 2019 foram difíceis para as ações da B3 (B3SA3), em meio aos sinais mais fortes de aumento da concorrência.

Na segunda-feira da semana passada (em uma semana mais curta por conta dos feriados de fim de ano), a ação da B3 caiu mais de 4% após anunciar a conclusão de um processo de arbitragem que permitiu a outra empresa acessar sua central; o resultado permite que um novo concorrente entre no mercado de ações da B3.

Já na sexta, os papéis caíram após a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apresentar propostas para aperfeiçoar o ambiente de negociação de ativos no país. A autarquia abriu audiência pública nesta sexta (até 28 de fevereiro) com três propostas para o mercado de negociação de valores mobiliários, considerando uma possível elevação da competição (veja mais clicando aqui). Com isso, apenas em dezembro, os ativos tiveram queda de quase 10% (a baixa foi de 12,5% desde o dia 20 de dezembro), acumulando a maior baixa do Ibovespa no último mês de 2019. No ano passado, contudo, os papéis B3SA3 subiram 61%.

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Porém, um anúncio feito na véspera pela bolsa brasileira, ainda que possa ter impacto negativo nos números da operadora da bolsa brasileira, gerou certo alívio para as ações. Os ativos fecharam a última quinta-feira (2), primeiro pregão de 2020, com alta de 5,78% (também em meio ao maior otimismo externo e com a economia nacional, que impactaram positivamente o mercado como um todo).

A B3 divulgou comunicado com a nova política de tarifas para estimular o aumento dos volumes negociados e o crescimento da base de investidores pessoas físicas. As alterações incluem tarifas menores para investidores com maiores volumes e custo zero na manutenção de conta de custódia.

Além disso, haverá a criação de tarifa sobre o processamento de proventos financeiros, mas com isenção total das tarifas sobre o valor em custódia e sobre o processamento de proventos financeiros para investidores com valor em custódia inferior a R$ 20 mil. A bolsa também informou a simplificação da cobrança por meio do abatimento das tarifas da B3 do fluxo de proventos pagos em dinheiro para cada conta.

“Essas alterações buscam estimular o crescimento da base de investidores pessoas físicas com a remoção de tarifas fixas e isenção para pequenos investidores. Além disso, no que diz respeito à taxa sobre eventos corporativos, a B3 se alinha às práticas de outras centrais depositárias ao redor do mundo que, considerando os custos e riscos inerentes a esses processos, cobram pelo processamento de proventos”, apontou.

Há também alterações no mercado de balcão, como adequar a tarifa cobrada de fundos de investimento de acordo o tamanho de seu patrimônio líquido, reduzindo as tarifas para fundos de menor porte.

Em teleconferência, Gilson Finkelsztain, presidente da B3, destacou que a medida de concessão de descontos progressivos para quem negocia mais visa ampliar o volume de negociação, equalizando práticas de preços entre investidores diferentes e estimulando o crescimento da base de pessoas físicas nas corretoras.

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Na nova política de tarifação anunciada nesta quinta, a companhia informou que haverá uma redução de custos aos clientes – e queda de receitas para a companhia – da ordem de R$ 250 milhões, isso se considerado os efeitos caso as mudanças já estivessem em vigor nos últimos 12 meses.

Essa perda de receita, contudo, será mitigada com o maior volume de negociação que deve vir a reboque das medidas, com um maior volume de investidores pessoas físicas, maiores volumes de fundos locais, que seguem captando em cenário de juros baixos no País, e com a vinda de mais investidores estrangeiros, diante dos incentivos de menores tarifas para maiores volumes negociados.

O presidente da B3 disse que as mudanças não ocorrem tendo em vista concorrência, mas sim o foco no cliente. “Nosso compromisso é de estar perto do cliente”, afirmou. Ele comentou, por exemplo, que a decisão de zerar a taxa mensal de manutenção de conta, atualmente de cerca de R$ 110 ao ano, veio após debates com as corretoras. “Foi identificado que esse poderia ser um gargalo para a atração de clientes por parte das corretoras”, disse.

Muitos intermediários, por conta disso, não estavam repassando esse custo aos clientes e sendo, assim, onerados. A expectativa, agora, é que ganhem mais fôlego para o crescimento de suas bases de investidores.

Entre os anúncios, está também a de uma tarifa sobre o processamento de proventos. Essa tarifa consiste em cobrar 0,12% sobre proventos financeiros (dividendos e juros sob capital próprio). Clientes com menos de R$ 20.000 em custódia serão isentos da cobrança, o que representa 65% dos atuais clientes da B3.

Em contrapartida, a B3 anunciou também uma queda de 10% sobre a tarifa cobrada na negociação de ações por pessoas físicas e eliminou a cobrança de R$ 9,28 para manutenção de conta na central depositária. “Serão afetadas as empresas cujo valor intrínseco é calculado com base nos dividendos futuros, como é o caso do setor bancário”, avalia Marcel Campos, analista da XP.

Redução das receitas, mas…

Na avaliação dos analistas, no geral, as medidas anunciadas, ainda que representem um movimento a princípio negativo para as receitas da empresa, já estavam praticamente precificadas e também podem levar a mais benefícios para ela mais à frente. Porém, a pressão para os papéis pode continuar.

“Embora nosso pensamento seja de que o movimento é negativo, pois deve baixar as projeções de lucro da empresa, algumas das mudanças já eram esperadas pelo mercado, principalmente pelo cenário que se forma de maior possibilidade de competição”, destaca a equipe de análise da XP Investimentos.

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Para o Safra, o anúncio de redução de tarifas para renda variável e balcão é ligeiramente positiva, pois gera mais espaço para a B3 otimizar sua estratégia de preços e permite que companhia aumente o volume negociado e sua base de investidores individuais, segundo os analistas Luis Azevedo e Silvio Dória apontaram em relatório.

O impacto financeiro “não é tão relevante”, apontam, pois novas tarifas devem estimular crescimento de volume e compensar as perdas com a redução de preços, dizem os analistas.

“De acordo com a B3, testes prévios mostraram que se os novos preços tivessem sido implementados nos últimos 12 meses, a receita da B3 teria sido reduzida em cerca de R$ 250 milhões, o que representa 3,8% do total de 2019, segundo nossas estimativas”, apontam.

Contudo, a avaliação dos analistas do Safra é de que a ação deva seguir pressionada no curto prazo, por causa das potenciais notícias sobre competição no setor.  “No entanto, B3 está se preparado para competição, investindo em aprimoramento da relação com clientes e melhorando a qualidade do serviço”. Assim, a recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) foi mantida, com preço-alvo de R$ 52.

Para a Levante Ideias de Investimento, a notícia é positiva para os investidores em ações em geral, pois incentiva o aumento do volume transacionado, com redução de taxas e fomenta o crescimento da quantidade total de investidores. “O aumento da concorrência, com abertura de mercado e maior competição, é sempre positivo para os investidores, mas tem impacto negativo na rentabilidade da empresa monopolista”, avalia.

Assim, a ação da B3 tem alívio com medidas para aumentar atratividade dos investidores, mas analistas veem que as ações ainda podem ser  pressionadas uma vez que a concorrência parece estar cada vez mais perto, ainda que demore um certo tempo para se tornar uma ameaça real.

Na visão dos analistas do Bradesco BBI, contudo, a maior competição pode ser um risco com maior impacto no médio e longo prazos (2 a 3 anos), mas sem grandes implicações na posição dominante da B3. Porém,, os investidores seguem preocupados com os entrantes no mercado.

“Um risco mais relevante para os lucros (10% a 15%), em nossa opinião, refere-se a uma possível discussão no futuro sobre a dedutibilidade tributária dos juros sobre capital próprio no escopo da reforma tributária a ser discutida. Algo em que devemos ficar de olho”, avalia.

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(Com Agência Estado)