O que acontece com Ambev? Ação supera Ibovespa desde outubro, mas cautela continua

Analistas destacam expectativa por anúncio de dividendos para alta dos ativos, mas não veem mudanças estruturais no mercado

Lara Rizério

Ambev (Foto: Adobe Stock)
Ambev (Foto: Adobe Stock)

Publicidade

Desde outubro, as ações da Ambev (ABEV3) tem superado o Ibovespa em cerca de 6% (alta de 16% ante avanço de 10% em cerca de 2 meses), ressalta a XP Investimentos, à medida que o mercado especula sobre dividendos extraordinários hipotéticos em meio aos vários anúncios de proventos feitos por empresas antes das mudanças na reforma tributária. A nova regra prevê tributação de 10% sobre pagamentos mensais acima de R$ 50 mil para pessoas físicas a partir de 2026, mas mantém isenção para lucros apurados até dezembro de 2025, mesmo que distribuídos até 2028.

Os analistas da XP esperam que a Ambev continue sendo uma “outperformer” (ou seja, tenha um desempenho acima do Ibovespa). Contudo, não vê melhora nos fundamentos e a recente alta levou o valuation a um caro múltiplo de preço sobre lucro (P/L) de 15,9 vezes esperado para 2026.

Assim, a casa reitera recomendação de venda. Os analistas também levam em conta os dados de produção de bebidas alcoólicas do IBGE com os números da indústria de outubro divulgados na véspera, apontando uma queda de 1,3% anualmente, ainda que 4,1% acima das suas expectativas.

Aproveite a alta da Bolsa!

Com os números de outubro, a XP agora estima uma contração de mercado de 3,7% ano a ano para o fechamento de 2025 (versus 5,4% anteriormente), implicando uma redução no consumo per capita para 4,4 litros/cabeça (versus 6 litros/cabeça anteriormente).

Aprenda com especialistas renomados, ganhe acesso a cursos, simuladores e relatórios exclusivos; inscreva-se no evento Onde Investir 2026. 

A XP aponta que a questão central é se a desaceleração na queda reflete uma melhora real no momento do consumo ou se está mais relacionada a um ambiente competitivo mais desafiador, com todos os players antecipando sell-in (processo de vendas entre empresas) antes do fim do ano.

Continua depois da publicidade

“Para os mais construtivos, outubro mostrou melhora sequencial nas condições climáticas, embora nossos trackers (média ponderada considerando períodos específicos de consumo de cerveja) ainda apontem temperaturas mais baixas, com queda de 1,03ºC anualmente e outubro em –0,96ºC versus a média de 6 anos”, reforça.

Outubro, aponta a XP, foi o mês em que casos de contaminação por metanol foram identificados, inicialmente levantando especulações de que o consumo de cerveja poderia se beneficiar. No entanto, na prática, o efeito líquido parece negativo, com dados de mercado indicando quedas nos volumes de sell-out (venda de produtos ao consumidor final) variando de dígitos médios a dígitos baixos de dois dígitos ao longo do mês.

“Portanto, a aparente melhora do mercado parece mais relacionada a uma estratégia de volume mais agressiva por todos os players, enquanto o comportamento errático da companhia tornou a interpretação dos dados da produção industrial mais difícil”, avalia.

O Goldman Sachs também tem recomendação de venda para as ações da Ambev, com preço-alvo de R$ 1,95, ou um valor 24% menor ante o fechamento da véspera.

Segundo os analistas do banco, com a maioria dos aumentos de preços da Ambev e da Heineken já totalmente absorvidos, o resultado destaca os desafios estruturais do setor: nos últimos 12 meses, a produção de bebidas alcoólicas caiu 4%.

Em relação aos preços, a inflação da cerveja está 60 pontos-base (0,6 ponto percentual) acima do valor nominal, e o rastreador do banco indica que a Ambev tem sido mais promocional, com preços médios 2% menores trimestralmente no quarto trimestre – um trimestre que historicamente apresenta maiores aumentos de preços.

Continua depois da publicidade

Considerando a fraca demanda, a persistente inflação de custos, um mix mais rico e o aumento da oferta – não apenas da Heineken, mas também da Ambev após as recentes expansões em Lages e Uberlândia – o Goldman segue com recomendação de venda para as ações da Ambev.

Dito isso, assim como a XP, o Goldman também observa riscos de alta no curto prazo até dezembro devido à potencial alocação de capital – por exemplo, o Itaú (ITUB4) e a AXIA (AXIA3) já anunciaram dividendos extraordinários em antecipação a uma possível mudança tributária no Brasil.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.