IPOs à vista?

A volta dos IPOs: abertura de capital poderá voltar ao radar das companhias

Depois de passado o pior ano desde 2003 para ofertas públicas iniciais de ações, as empresas já repensam as ofertas que haviam sido colocadas na gaveta e algumas emissões devem ocorrer, principalmente, no segundo semestre

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A abertura de capital deverá voltar ao radar das companhias brasileiras como alternativa de financiamento em 2015. Depois de passado o pior ano desde 2003 para ofertas públicas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês), as empresas já repensam as ofertas que haviam sido colocadas na gaveta e algumas emissões devem ocorrer, principalmente, no segundo semestre.

Em novembro havia uma expectativa de que algumas empresas poderiam testar a primeira janela de oportunidade de 2015, mas as denúncias de corrupção na Petrobras acabaram jogando um balde de água fria nesses emissores. A aversão ao risco cresceu em dezembro, afastando os estrangeiros da Bolsa, o que torna ainda mais desafiadora a colocação de uma oferta nesse ambiente, principalmente porque os investidores não-residentes ficam, na média, com 70% das ações ofertadas em um IPO por aqui.

O diretor responsável por renda fixa e variável do Credit Suisse na América Latina, Marcelo Kayath, disse que para o próximo ano o número de IPOs deve ficar próximo ao visto em 2013, quando 10 companhias abriram capital. “Com as ações mais líquidas prejudicadas, os investidores devem buscar novos setores e bons IPOs”, destacou.

O segundo semestre deverá ser o período com maior concentração das ofertas, acredita o sócio da área de Mercado de Capitais do Souza, Cescon, Barrieu & Flesch, Joaquim Oliveira. “As empresas de qualidade, com bom histórico para contar, que já se provaram no mercado, devem ter espaço para captar”, disse.

A possibilidade de um ambiente mais favorável na segunda metade do ano não significa que nenhuma empresa testará o mercado antes. “Sempre existe a vantagem de ser a primeira a retomar, depois do mercado parado. Essa empresa acessa investidores interessados no País, mas que estavam sem opções”, frisa Oliveira.

A percepção é de que uma boa história poderá abrir alas para que outras companhias se sintam mais confortáveis em ir a mercado, depois de um ano com apenas um IPO, de uma empresa de porte médio, a Ourofino, que ainda contou com o apoio de um investidor âncora, a General Atlantic. Um exemplo seria a oferta da Visanet, hoje Cielo, que em 2009 fez seu IPO, que na época foi o maior da história da bolsa brasileira, após quase um ano de seca, por conta da turbulência e incertezas observadas em 2008.

“Um bom IPO é ótimo para abrir mercado, pois atrai investidor e facilita a vida de que vem depois”, afirma o gerente executivo da diretoria de mercado de capitais e investimentos do Banco do Brasil, Bernardo Rothe. Segundo ele, o início do ano será um período de análise do mercado em relação ao andamento da economia brasileira, assim como os caminhos tomados pelo governo no início do novo mandato, mas, passado esse intervalo, há chances de uma janela se abrir para emissões.

Embora a previsão para 2015 seja de um ano melhor do que 2014, é certo que o mercado estará bastante seletivo. “2015 será um ano difícil e de ajustes e isso já era esperado, mas o mercado trabalha com expectativas e isso pode gerar janelas”, aponta Roth.

A diretora da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Carolina Lacerda, diz que a expectativa é de que as empresas que estão prontas para o IPO consigam emplacar suas emissões. “E isso abre caminho para que outras empresas acessem o mercado”, disse Carolina, que também é diretora do banco de investimento UBS. Entre as empresas já com o arquivamento na CVM estão a Azul e JBS Foods, duas companhias de grande porte. Além delas estão arquivados os pedidos na autarquia T4U, Par Corretora e Ouro Verde.

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Esforços restritos
Uma das apostas para movimentar o mercado acionário é a possibilidade criada para as ofertas com esforços restritos, regulamentação bastante parecida com a utilizada no mercado norte-americano, no qual não é exigido registro e que traz maior celeridade ao processo. “O follow-on (oferta subsequente) por essa nova regulamentação deverá ser visto com mais frequência, ela é menos custosa e a companhia fica menos tempo exposta, já que se inicia e se encerra a oferta de forma muito mais rápida”, destacou Oliveira, sócio do Souza e Cescon.

Na prática, uma oferta subsequente que demandaria no mínimo um mês para ser colocada no mercado por meio da instrução 400 pode ser realizada, no limite, em cinco dias com a nova instrução, a 551. As empresas já listadas possuem o registro de companhia aberta na categoria A, o qual autoriza a negociação de qualquer valor mobiliário do emissor. Dessa forma, já cumprem o principal requisito para a realização da emissão dentro da nova regra.

Em 2014, a Restoque chegou a anunciar seu follow-on pela nova instrução de esforços restritos, mas voltou atrás diante do cenário de incerteza visto em dezembro. A expectativa, no entanto, é de que a empresa, dona das marcas Le Lis Blanc, Bo.bô, John John e Rosa Chá, volte com sua oferta assim que houver sinais de melhora do mercado.