A tese do “excepcionalismo americano” voltou para valer nos mercados?

Excepcionalismo americano resiste a dúvidas e volta a ser destaque entre as bolsas globais no semestre

Lara Rizério

Informações sobre as ações da Meta no Nasdaq MarketSite em Nova York, EUA, na quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022. Grandes lucros do setor de tecnologia provocaram algumas oscilações extremas nos preços das ações nesta temporada, com as expectativas de Wall Street aparentemente desalinhadas com a realidade das empresas. Fotógrafo: Michael Nagle/Bloomberg
Informações sobre as ações da Meta no Nasdaq MarketSite em Nova York, EUA, na quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022. Grandes lucros do setor de tecnologia provocaram algumas oscilações extremas nos preços das ações nesta temporada, com as expectativas de Wall Street aparentemente desalinhadas com a realidade das empresas. Fotógrafo: Michael Nagle/Bloomberg

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O primeiro semestre de 2026 terminou com uma mensagem clara para os investidores globais: as apostas de que o chamado “excepcionalismo americano” estaria perdendo força se mostraram prematuras.

Após um início de ano marcado por questionamentos sobre as gigantes de tecnologia, os principais índices de Wall Street voltaram a renovar máximas, reforçando a percepção de que os Estados Unidos seguem ocupando uma posição única na corrida pela inovação e pela inteligência artificial.

O S&P 500 renovou máximas históricas pela 23ª vez no ano, cruzando os 7.600 pontos pela primeira vez, e o Nasdaq 100 acompanhou o movimento, fechando junho em terreno recorde com a reavaliação positiva do trade de Inteligência Artificial, acumulando alta de cerca de 20% no ano.

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No Brasil, a história foi outra: o Ibovespa recuou cerca de 1% no mês, ainda que preserve alta de 6,8% no ano, pressionado pela saída do capital estrangeiro, enquanto o dólar avançou mais de 2% frente ao real, refletindo a moeda americana global ganhando tração.

A Genial Investimentos argumenta que o excepcionalismo americano voltou a ganhar força, sustentado pela liderança tecnológica do país, pela concentração de empresas inovadoras e pela capacidade da economia americana de atrair capital global mesmo diante de juros elevados e incertezas geopolíticas. Os estrategistas que assinam o relatório ressaltam que, embora tenham surgido dúvidas ao longo do primeiro trimestre, os fundamentos que impulsionaram a liderança dos EUA permanecem intactos.

Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, o debate no início do ano girava em torno da sustentabilidade dos valuations das empresas de tecnologia e da capacidade dessas companhias de transformar investimentos bilionários em retorno aos acionistas.

“Há um questionamento sobre a sustentabilidade dos atuais valuations e a capacidade dessas companhias em manter o retorno aos acionistas, dado o nível de capex extremamente elevado, algo sem precedentes no mercado”, afirma.

Apesar disso, ele avalia que a tese estrutural permanece válida. “Não há paralelos globais para o atual ecossistema de inovação dos Estados Unidos. O país mantém uma liderança isolada no setor de tecnologia”, diz.

Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, segue linha semelhante. Para ele, o forte avanço dos gastos com inteligência artificial e infraestrutura tecnológica levantou dúvidas legítimas entre investidores, mas não alterou o quadro de liderança americana.

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“Esse excepcionalismo ainda continua válido. Não existe nada parecido sendo feito em lugar nenhum. Nessa corrida tecnológica, os Estados Unidos estão muito à frente dos demais países”, afirma.

Tecnologia continua sendo diferencial

A avaliação dos especialistas é que a recuperação do Nasdaq e do S&P 500 ocorreu justamente porque os investidores voltaram a enxergar a tecnologia americana como um ativo sem equivalentes relevantes em outras regiões do mundo.

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A temporada de balanços do segundo trimestre será observada de perto para verificar se os gigantes de tecnologia continuam convertendo os enormes investimentos em inteligência artificial e infraestrutura digital em crescimento de receita e geração de caixa.

Segundo Pletes, esse será o principal teste para o mercado nos próximos meses.
“Será fundamental analisar os balanços corporativos para verificar se as empresas estão, de fato, convertendo o alto volume de investimentos em retorno real.”

E o Brasil?

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Já para o Brasil, Pletes destaca que a Bolsa possui uma composição mais concentrada em commodities e utilities, setores tradicionalmente associados à geração de caixa e ao pagamento de dividendos.

Por isso, a possibilidade de uma valorização do Ibovespa no segundo semestre estaria mais vinculada a ações defensivas e pagadoras de proventos do que a uma tese de crescimento acelerado semelhante à observada nos EUA.

“O Brasil possui um foco mais voltado a commodities e ao setor de utilities, sendo este último um importante gerador de dividendos”, afirma. Boragini compartilha a mesma leitura. Para ele, empresas ligadas a petróleo, minério de ferro e utilities podem continuar sendo as principais beneficiárias de um eventual fluxo positivo para a Bolsa brasileira.

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“A tese que puxou muito a bolsa americana, que é a tecnologia, infelizmente não nos pega”, resume.

Outro fator que preocupa parte do mercado é a possibilidade de o capital internacional voltar a se concentrar ainda mais nos EUA, especialmente caso o mercado de ofertas públicas de ações ganhe tração.

Segundo Pletes, existe risco de migração de recursos estrangeiros para novas empresas de tecnologia americanas. Ele cita o forte interesse despertado pela SpaceX como exemplo da capacidade de Wall Street de atrair liquidez global.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.