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*Por Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos
Como a economia é afetada por expectativas, essa percepção de mudança já vem produzindo um alívio no mercado financeiro, após o estresse do ano passado até o início deste ano, quando os mercados passaram a considerar crescentemente a probabilidade de o governo Dilma perder o controle da inflação ou até mesmo fazer um calote da dívida.
A pressão no mercado financeiro, diferentemente do que Dilma parecia pensar, não é neutra para a economia, pois afeta as condições no mercado de crédito e de capitais, bem como a situação financeira de empresas e famílias, com repercussões na economia. Portanto, o alívio atual pode ser o primeiro passo para tirar o País da crise.
A expectativa de ajuste fiscal, no entanto, precisa ser confirmada com a entrega das promessas de reformas feitas pelo governo, para que esse movimento benigno no mercado financeiro não seja apenas um “soluço”, e possa se traduzir em melhora da economia. Por ora, há um abismo entre o bom humor do mercado financeiro e o pessimismo de empresários e consumidores, apesar do aumento recente dos índices de confiança.
O Brasil precisa voltar à normalidade, com superação da crise fiscal, inflação em torno da meta e consequente retomada da atividade econômica. Essa é a missão de Temer. Não há tempo, nem condições políticas, para uma agenda mais ambiciosa nos próximos dois anos.
Ainda assim, sua missão não é coisa pouca. Significa colocar a economia nos trilhos para o País avançar depois; uma ponte para o futuro, quando poderemos discutir uma agenda progressista, que reavalie a ação estatal na economia, fortaleça instituições, contemple uma maior abertura comercial e avance nos indicadores sociais. Não é possível esse debate sem antes estabilizar a economia.
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A volta da normalidade será um elemento central para a estabilização política, o que implica uma sociedade que não se arrependa por ter apoiado o impeachment e uma campanha eleitoral responsável em 2018, com debate honesto sobre as propostas de projetos para o País, diferente da vergonha da campanha de 2014, quando sobraram dissimulação e despreparo.
Se Temer falhar, não conseguindo recuperar a confiança e o bem-estar social com inflação e desemprego em patamares civilizados, a agenda futura de desenvolvimento poderá ser novamente adiada e até sofrer retrocessos, ameaçando indicadores sociais e ampliando o abismo entre o Brasil e o mundo.
Parece haver boas chances de o governo Temer construir essa ponte. A saída de Dilma, cuja ascensão parece um acidente de percurso na história política do País, não é garantia de sucesso de Temer, mas faz diferença, pois reduz o risco de colapso do Brasil.
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O debate econômico está mais maduro e a sociedade, mais participativa, anseia por mudança. A ver se o governo será, além de pragmático, corajoso.
Se Temer for bem-sucedido, a capacidade de reação do País poderá surpreender, ainda que não no curto prazo por conta da gravidade da crise. Curar as feridas ainda vai demorar algum tempo.
Os próximos passos precisam ser firmes para que o País recupere a musculatura perdida e não caia adiante. A decisão do impeachment é histórica e histórica também será a escolha pelo necessário ajuste que vai conduzir o Brasil para a discussão democrática e honesta de projeto para o País.