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SÃO PAULO – Na contramão dos esforços realizados pelos governos em todo o mundo, a recuperação econômica vigente pode ser vista mais como uma consequência do próprio tempo do que dos estímulos em si?
Considere a seguinte possibilidade: após tantos meses críticos, algumas pessoas avaliam que o pior já faz parte do passado e acreditam no final da recessão. Por decorrência, tais indivíduos elevam seus gastos, o que melhora o nível de consumo da economia, dando sinais de existência desta recuperação.
A teoria é controversa, visto que não possui base estatística para comprovação. Por outro lado, tendo em vista que recessões geralmente não duram mais do que dois anos, o fato de a recessão nos EUA ter começado em dezembro de 2007 indicaria, de uma forma autossucifiente, que a recuperação está em curso.
Mera coincidência ou não, a tese seduz economistas ao longo de toda a história. Em artigo sobre o assunto, o professor da Universidade de Yale e economista-chefe da MacroMarkets Robert Shiller avalia a questão do tempo e a ponte aparentemente estreita entre recessão e depressão.
Confiança resulta em crescimento
Voltando às origens do termo, Shiller destaca que o vocábulo “recessão” começou a ser utilizado em referência à contração de 1937 a 1938, sendo um declínio normal no ciclo dos negócios. Em janeiro de 1938, o jornal The Chicago Daily Tribune ofereceu uma definição irônica, ao afirmar que a recessão era “uma nova palavra para depressão, criada por aqueles que não admitem a existência da mesma”.
Mais importante do que o termo a ser utilizado, é a situação econômica corrente. Como exemplo, a declaração do ex-presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt em 1938 revela certo tom de ironia e despreocupação com termos utilizados pelos economistas: “não faz a menor diferença para mim se você chama isso de recessão ou depressão”, disse o ex-presidente.
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Em meio à contração entre 1937 e 1938, o livro “Pense e cresça rico”, de Napoleon Hill, encorajou seus leitores a adotarem uma atitude mental otimista, focando o canal positivo na subconsciência, para que a riqueza real se concretizasse. Apesar do sucesso que livros deste tipo costumam ter, a obra tornou-se um best seller ao sintetizar a tese de que confiança resulta em crescimento econômico.
Gostamos da recessão
De volta para o presente, o professor da Universidade de Yale observa que todos ainda pensam com os padrões de 1930. “Nós estamos instintivamente medrosos de falar sobre depressões e tentamos dar suporte à confiança do próximo”, diz Shiller, completando: “gostamos da ideia de que a teoria econômica moderna mostra que todas as recessões se encerram conforme o previsto”.
A despeito da maior confiança presente nos mercados, ainda restam dúvidas sobre a recuperação, visto que ainda muitos setores permanecem frágeis, além da situação delicada do mercado de trabalho norte-americano. Na dúvida de recessão ou depressão, o acadêmico de Yale acredita que os EUA podem permear atualmente entre os dois pontos.
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Blindagem?
“Para estender a teoria de que a profecia de autossuficiência da confiança está correta, cabe uma vigilância contínua, para assegurar que os eventos adversos não encorajarão uma disseminação total de que vivemos uma depressão”, completa Shiller.