Economia

A natureza do ajuste de Levy

Os investidores e agentes econômicos deveriam ler a mídia da seguinte forma: quanto mais tempo demorar o ajuste de Levy, mais tempo demorará a economia para se recuperar

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É certo que quanto mais rápido e profundo for o ajuste macroeconômico do ministro Joaquim Levy mais rápida e profunda será a recuperação do equilíbrio, digamos, “básico” da economia brasileira. A natureza do ajuste proposto por Levy e aceito pela presidente Dilma Rousseff é simples de entender: no primeiro mandato da atual presidente houve abuso consistente da política fiscal e resiliência constante da política monetária em relação à inflação. Afora isso, todos os ajustes microeconômicos, da política de atração do capital privado para investir em infraestrutura à redução das tarifas de energia, fracassaram por força de generalizada incompetência governamental.

Não é difícil perceber onde o governo errou por uma razão simples. Foi naquilo que é trivial, usual, básico e, portanto, bem visível em matéria de gestão macroeconômica. Não se trataram de erros cometidos em matérias complexas como no caso da política comercial de um país, ou na implementação de um programa de estabilização da moeda ou do crédito bancário. A presidente e seu então ministro Guido Mantega erraram sistematicamente em matérias bastante consolidadas na teoria e prática econômica.

É importante entender a natureza destes erros, pois não se pode angariar mais preocupações com os temas econômicos do que eles efetivamente merecem do ponto de vista analítico. Muito menos atribuir heroísmo e inteligência superior ao atual ministro da Fazenda, acima de efetivo merecimento. O Brasil pode e deve(ria) implementar um ajuste rápido, de um a dois anos, e voltar-se simultânea e rapidamente ao que interessa, que é o tema do desenvolvimento econômico.

O mundo está caminhando bem e o Brasil está ficando para trás com o solene apoio de sua elite econômica e política. A competitividade estrutural do país vai de mal a pior. Num mundo em que a tecnologia toma conta da indústria, estamos claudicando em um modelo industrial de padrão eletroeletrônico dos anos 90 do século passado.

Eventual fracasso da política econômica de Levy será mais retumbante que os grosseiros erros econômicos de Dilma e Mantega – nessa ordem – no primeiro mandato da presidente. As negociações que estamos assistindo no Congresso Nacional envolvendo os ajustes fiscal e tributário são sofríveis porquanto focados em questões de curtíssimo prazo (de seis meses a um ano).

Neste sentido o ministro Levy está fazendo jogo perigoso, pois no troca-troca político direto em que se meteu acabará ganhando os reais mais caros de um ministro da Fazenda: aqueles que se ganha para fechar os buracos da estrada e acaba-se esquecendo de capear o caminho que vai mais longe.

Para obter mais dos políticos o ministro deveria se unir e conspirar intensamente com os setores produtivos que estão paralisados à espera do que virá e sem nenhum plano para fazer valer os seus interesses. A elite brasileira é tão sofrível quanto o governo.

A nosso ver, os investidores e agentes econômicos deveriam ler a mídia da seguinte forma: quanto mais tempo demorar o ajuste de Levy, mais tempo demorará a economia para se recuperar.

Quanto mais intensamente o ministro Levy negociar, mais mitigado será o ajuste e piores serão as condições macroeconômicas no longo prazo. A economia segue a política e não o contrário. No Brasil, os políticos de plantão estão ali para tirar e não acrescentar nada para o país. A crise política está tirando pelo menos 1,5% de crescimento este ano. 

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