Dilma na berlinda

A hora e a vez de outro impeachment no Brasil

Estamos em tempos duros na política que se seguem a tempos duros na economia. Tempos de pouca esperança. O impeachment será um vento novo. Talvez uma tempestade

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Está certo que o desenvolvimento da política do Brasil corre em dois sentidos, não necessariamente opostos. Do lado dos partidos políticos que estão representados no governo a estratégia é extrair da Presidente da República o máximo de benefícios do Poder, sem com isso se comprometer permanentemente com a manutenção do apoio às estratégias e políticas instauradas pelo governo. Numa linguagem vulgar trata-se de “sangrar” o governo e a presidente.

Do lado da oposição a decisão parece tomada. O sentido é o de tirar Dilma Rousseff do Poder antes de 2018. Apenas há uma nuance neste processo. Aécio Neves e seus apoiadores querem novas eleições para se aproveitar do recall da última eleição, o que lhe favorece, enquanto Alckmin e José Serra preferem uma solução que inclua a passagem do Poder pelo vice-presidente Michel Temer. Mediando este processo temos o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O certo de tudo isso é que o impeachment está se tornando o “fato novo” necessário para que se espante o quadro recessivo, além do necessário, que se instalou no início do atual governo. A dinâmica dos fatos políticos gerados pela oposição e a tração que o governo imporá à reação é que ditarão a maior ou menor probabilidade do impedimento presidencial. Todavia, a batalha doravante será essa. A entrevista de hoje na Folha de S. Paulo da Presidente da República é sinal inequívoco de que o jogo ganhou dimensão redobrada. Note-se que a reação de Dilma foi frágil, desarticulada e recheada de erros políticos, sobretudo porque não responde com eficácia às questões fundamentais levantadas pelas oposições em relação ao impeachment, a saber, as contas do TCU (“pedaladas fiscais”) e as doações de campanha, sobre as quais se fazem acusações.

O problema da estratégia das oposições é que esta precisa contar com o apoio das ruas, notadamente no dia 16/08 próximo e isso não é certo. Todavia, começa a se falar abertamente que Aécio Neves, enquanto presidente do PSDB irá procurar os líderes dos movimentos de rua em busca do ambicionado apoio destes. Se obtido, estamos realmente diante de um novo cenário, pois a junção da insatisfação popular com a sua personalização em uma liderança política, fará o governo ter dificuldades substanciais à frente. Caso contrário, o progresso das teses sobre o impeachment prosseguirá a passos de cágado. Sem a massa, não dá.

Há, ainda, o “fator Lula”, que certamente se comportará como um prócer “legalista” num eventual processo de impeachment. Será uma posição cínica, pois ele será candidato – na eventualidade de haver eleições – frente aos tucanos, pregando contra o “golpe” e dizendo ser o revigorador da economia brasileira. A utopia do passado será trazida para o tablado. Certamente, este discurso terá audiência, mas há de se reconhecer que atualmente será muito mais diminuta em comparação ao passado, pois as denúncias de corrupção e a constatação de que o PT é um partido político como outros quaisquer tiraram do “oráculo de São Bernardo” a auréola que possuía quando assumiu o Poder em 2003.

Estamos adentrando em tempos duros na política que se seguem a tempos duros na economia. Tempos de pouca esperança. O impeachment será um vento novo. Talvez uma tempestade.