Dica de leitura

A história da corretora que “criou” o mercado de ações no Brasil

Recém-publicado livro “Os Leite Barbosa: A saga da corretora que revolucionou o mercado” conta a trajetória da corretora M. Marcello Leite Barbosa, responsável por levar o mercado de ações para mais de 50 mil pessoas durante os anos 70 mas que naufragou após o primeiro “crash” da bolsa

Por  Júlia Miozzo

SÃO PAULO – Entre as décadas de 1960 e 1970, o Brasil passava pelo período do milagre econômico: Com crescimento superior a 10% ao ano e uma dependência menor da exportação do café, o país subiu da 50ª para a 16ª posição do ranking de economia mundial.

Foi um período de mudanças em que também acontecia a consolidação de um mercado financeiro no país, com o incentivo ao mercado de capitais. Em pouco tempo, a incipiente Bolsa de Valores do Rio de Janeiro passou de 26 para 100 ações listadas e, em uma época onde não existia regulamentação deste mercado e nem a estrutura necessária, o crescimento teve a proporção semelhante – até que, em 1971, o sistema eclodiu e as bolsas brasileiras enfrentaram o seu primeiro “crash”.

Um nome se destacou em todo esse cenário: Marcello Leite Barbosa, dono da corretora M. Marcello Leite Barbosa, que foi responsável pela popularização do mercado de ações na época. Apaixonado pela bolsa de valores, ele foi o primeiro a ver no crescimento econômico a oportunidade de se tornar o promotor da renda variável no Brasil através da corretora, que antes era mais focada em operações de câmbio associadas à exportação de café, mas depois se tornou uma gigante com 15 lojas de rua pelo Brasil, 1,4 mil funcionários e 58 mil clientes – números que se impressionariam nos dias de hoje, imagina então naquela época.

“Ele acabou sendo uma espécie de escola que revolucionou o mercado”, comentou George Vidor, autor do recém-publicado livro “Os Leite Barbosa: A saga da corretora que revolucionou o mercado” (editora Edições de Janeiro; 256 páginas), que conta exatamente a trajetória da corretora e de Marcello, desde sua ascensão e revolução no mercado de ações até a criação da imagem de “vilão” da economia brasileira no pós-crise. Vidor é economista de formação mas atuou sua vida toda no jornalismo, atuando na cobertura econômica na época da ascensão e queda da corretora.

Em entrevista ao InfoMoney (que pode ser vista no vídeo acima), o autor do livro contextualiza o início da história da corretora com o período de forte incentivo aos investimentos, já que o governo atraía investidores com a possibilidade de investir até 12% do Imposto de Renda devido em cotas de fundos de ações; a ideia era, segundo Vidor, “educar o contribuinte para que ele se tornasse investidor de ações”.

Segundo Vidor, a Marcello também tinha papel grande nesse incentivo e foi inovadora em muitos pontos, entre eles ao fomentar os investimentos entre mulheres. As chamadas “marcelletes”, mulheres da alta sociedade do Rio de Janeiro, eram contratadas para vender cotas de fundos e incentivar outras mulheres a investirem no mercado de ações em um período em que os investimentos eram vistos como “coisa de homem”. A corretora ainda promovia palestras para o público feminino para “mostrar que investir em ações não era um bicho de sete cabeças”.

Todo o marketing e publicidade da corretora também tinha as mulheres como alvo e traziam uma pitada sexual na comunicação: “Você já apresentou sua mulher ao Marcello?” e “Você precisa conhecer Marcello” eram algumas delas.

Hoje, é fácil identificar que uma bolha se formava: qualquer informação comprava os investidores e IPOs aconteciam a todo tempo; em menos de um ano, o índice da Bolsa do Rio subiu mais de 400%. Mas, tamanha era a “imaturidade do mercado brasileiro”, que esses sinais passaram despercebidos.

Um caso clássico registrado no livro pelo autor e que evidencia isso foi o falso IPO da “Merposa”, que atraiu muitos interessados em comprar as ações até o momento em que foi revelada que era uma brincadeira, já que Merposa significava “Merda em Pó SA”.

A euforia na bolsa não contaminou apenas os cidadãos “comuns”: generais do alto escalão do exército e do governo estavam entre os que investiam e, dada a situação, acabaram perdendo muito dinheiro. Dado o contexto, eles entenderam que o culpado só poderia ser um, o “dono do mercado”: Marcello Leite Barbosa.

O capítulo 9 do livro explicita com uma riqueza de detalhes o primeiro “crash” que a bolsa brasileira enfrentou e também o fatídico encontro de Marcello com Delfim Netto (na época Ministro da Fazenda), que pela resposta dada pelo ministro já deixou claro que o destino trágico da M. Marcello Leite Barbosa era questão de tempo.

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