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SÃO PAULO – A crise do subprime já marcou seu lugar na história financeira e econômica internacional, mesmo longe de encontrar seu fim. Com um cerne localizado na bolha imobiliária norte-americana, seus tentáculos alastraram-se pelas mais variadas esferas e mercados do globo, trazendo uma onda de volatilidade às praças que perdura há mais de um ano.
As turbulências encontraram seu ápice – ao menos por ora – na semana passada, quando uma sucessão de fatos de peso ocupou o noticiário internacional: concordata do Lehman Brothers, venda da Merrill Lynch, socorro do Fed à seguradora AIG, ação em conjunto das principais autoridades monetárias do mundo, um pacote de ajuda às instituições financeiras de Wall Street no valor de US$ 700 bilhões.
Todavia, por mais difícil que seja imaginar eventos de peso ainda maior, o mundo pode estar prestes a assistir ao ressurgimento de um fenômeno no panorama econômico e financeiro internacional: o sistema de Bretton Woods, ainda que dotado de características completamente diferentes das que fundamentaram originalmente o sistema na década de 1940.
O original
Antes de mais nada, vale relembrar algumas aulas de História. O sistema de Bretton Woods, estabelecido em julho de 1944, visava restabelecer a harmonia na dinâmica capitalista global, severamente afetada pela Segunda Guerra Mundial. Para tal, um conjunto de regras, instituições e procedimentos foi estabelecido em comum acordo por 44 nações do mundo, sendo o primeiro exemplo na história mundial de uma ordem monetária negociada e planejada.
Entre as principais disposições adotadas, estava a obrigação de cada país em adotar uma política monetária que mantivesse uma taxa cambial determinada em termos de ouro, o chamado padrão “dólar-ouro”, cancelado posteriormente na década de 1970. O principal fruto do sistema Bretton Woods é, na verdade, dois: o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Bird (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), que depois deu origem ao Banco Mundial.
A experiência traumatizante da Crise de 1929, ainda fresca na memória dos economistas e governantes da época, aliada às dificuldades em torno da reestruturação econômica do pós-guerra, estabeleceu um terreno propício para o surgimento do sistema, pautado pelo forte intervencionismo estatal no mercado.
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Ainda que a magnitude de tal intervenção variasse de país para país – a França mostrava-se mais inclinada a um pulso mais firme do Estado, ao passo que os EUA preferiam uma atuação mais amena – era consenso que, por si só, a economia internacional e o mercado financeiro global enveredariam em uma perigosa espiral negativa. A adoção de medidas enérgicas era necessária, e assim o foi.
Um sucessor?
Um paralelo pode ser estabelecido entre o atual momento vivido pela economia e mercado financeiro internacional com a década de 1940. Assim como há sessenta anos, o neoliberalismo tão defendido em momentos prósperos vem dando lugar a um clamor cada vez maior por parte dos investidores e economistas para uma atuação mais presente das autoridades econômicas e monetárias ante à crise.
Todavia, as diferenças são inúmeras. O sistema original de Bretton Woods destinou-se principalmente à regulação do ambiente cambial e monetário no mundo. Desta vez, é o sistema financeiro que deve ser repensado. A idéia não é exatamente nova. Em julho deste ano, o chanceler italiano Franco Frattini deu indícios de que algo do tipo já estava sendo estudado pelos corpos diplomáticos do G-7.
Pistas semelhantes foram dadas recentemente por Christian de Boissieu, presidente do Conselho de Análise Econômica do governo francês. “Precisamos de um Bretton Woods para dar respostas consistentes a vários tópicos, como o desempenho das agências de rating, os padrões de contabilidade, as normas de conduta dos fundos soberanos, limites de liquidez para os bancos, e outros”, afirmou, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo.
Perguntas ainda são muitas
Nesta terça-feira (23), rumores dão conta de que o Banco Mundial estaria engendrando um estudo sigiloso acerca do assunto, a ser divulgado até o final deste ano. “Precisamos de uma entidade ou de relações entre as entidades existentes que promovam a cooperação em prol de regulação das atividades financeiras”, alertou Aaditya Mattoo, um dos economistas responsáveis pela formulação do estudo.
Na visão de Mattoo, a atual crise deverá ocasionar entre os Estados e os mercados uma maior aceitação quanto a uma regulação mais enérgica das relações financeiras no mundo – assim como no sistema original de Bretton Woods. “Precisamos de respostas globais para um desafio global”, afirmou, por sua vez, Boissieu, em sua entrevista concedida.
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Se um novo Bretton Woods realmente está sendo orquestrado pelo Banco Mundial, quanto tempo levará para que tal clamor por uma maior regulação tome ainda mais corpo, quais seriam propriamente as medidas e regras que promoveriam uma mudança no sistema financeiro internacional; as perguntas são muitas e estão longe de serem esclarecidas. Mas uma certeza o investidor pode ter: a crise do subprime, de simples estouro de uma bolha imobiliária, não tem nada.