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SÃO PAULO – O indicador mais esperado da semana – isto é, no âmbito doméstico – finalmente foi divulgado nesta quinta-feira (10): o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) referente ao mês de junho. Como em suas outras medições, os números surpreenderam, mas desta vez, pelo lado positivo: a alta nos preços veio menor do que a esperada.
O índice apurou uma variação de 0,74% nos preços no sexto mês deste ano, resultado 0,05 ponto percentual abaixo do mensurado em maio e levemente inferior às projeções do mercado contidas no último relatório Focus. No mesmo sentido, a alta veio aquém do esperado pela LCA Consultoria, embora acima das previsões da equipe da Austin Rating.
A LCA acredita que a desaceleração constatada no índice tenha se fundamentado principalmente nos preços de serviços, como a deflação de 1,02% no item de energia elétrica residencial, ocasionada pela alteração na cobrança de impostos, o arrefecimento da alta nos preços dos serviços atrelados à saúde e a diluição do impacto proveniente do reajuste no preço do diesel.
Outro foco de alívio foi constatado pela equipe da LCA no conjunto dos bens semi-duráveis, que desacelerou de 0,88% em maio para 0,45% em junho, em grande parte, devido à diluição das pressões sazonais no segmento Vestuário, passada a temporada de entrada da coleção outono-inverno. “O conjunto dos bens não-duráveis também desacelerou, mas em ritmo mais modesto”, ponderam.
Mas alimentos seguem como vilões
Neste contexto, a projeção da LCA para o IPCA de julho continua em uma variação de 0,55%. A diminuição do ritmo de alta, segundo a equipe, deverá ser provocada por um arrefecimento em alguns alimentos, como feijão e arroz, na continuidade do processo de desaceleração dos preços do Vestuário e a diluição de algumas pressões observadas nos preços dos bens duráveis.
Por falar nos alimentos, a despeito do arrefecimento nos outros setores, o maior vilão do crescimento das taxas de inflação no Brasil ainda continua assustando. “Apesar de o índice ter se desacelerado em relação a maio (o que é normal para essa época do ano), o movimento se deu graças aos itens não-pertencentes a alimentos. Esse grupo, por sua vez, voltou a acelerar”, afirmam os analistas da Austin Rating, em visão mais cautelosa.
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De fato, a alta nos preços do grupo Alimentação e Bebidas passou de 1,95% para 2,11% entre o quinto e sexto mês desse ano, que correspondeu a expressivos 63% da composição geral do IPCA. Desta forma, a despeito dos números positivos trazidos pelo indicador em junho, a visão dos analistas continua permeada por um forte tom de cautela.
“Em termos de tendência, embora a média dos núcleos tenha desacelerado, observa-se que as suas médias móveis continuam em trajetória de relevante aceleração, com o nível de dispersão elevado. Essas evidências apontam para uma disseminação maior das pressões associadas ao encarecimento dos alimentos e de insumos”, alertam, por sua vez, os analistas da LCA.
Teto da meta deve ser superado
Desta forma, o resultado positivo conquistado no último mês não é sinônimo de maior tranqüilidade no noticiário em torno da inflação. A LCA mantém sua projeção para o IPCA ao final de 2008 em 6,8%, atentando para o reajuste de 10% nos preços dos combustíveis a ser aplicado em setembro, enquanto que a Austin revisou suas estimativas de 6,6% para 7% ao ano.
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Cabe lembrar que, tanto uma quanto outra, as projeções superam o teto da meta estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), de 6,5% em 2008. “O atual resultado do IPCA (…) confirma o que temos afirmado há algum tempo: o teto da meta de inflação de 2008 muito provavelmente será superado, mesmo com a autoridade monetária acelerando o passo na alta do juro”, afirma a Austin Rating.
Com a variação mensurada em junho, o indicador, tido como a medida oficial de inflação do País, acumulou uma alta de 3,64% no primeiro semestre deste ano, a maior taxa apurada desde 2003, cujos primeiros seis meses mostraram uma expressiva alta nos preços de 6,64%.
Projeções sombrias
“Com o IPCA já apontando superar o teto da meta em 2008, o que esperar das próximas decisões do Copom?”. Os próprios analistas da Austin Rating delineiam a questão em seu relatório, cuja resposta é, inevitavelmente, um aperto monetário mais intenso do que o previsto. “Nossa expectativa é de que não há alternativa à autoridade monetária senão o aumento do ritmo de elevação da taxa básica de juro”, afirma a equipe.
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Com base em tal prerrogativa, a Austin aposta em um incremento maior já na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), agendada para os dias 22 e 23 de julho, na dimensão de 75 pontos-base. Todavia, os analistas da agência de risco enfatizam que o cenário não é tão simples quanto possa parecer: dado o crescimento da inflação, basta elevar a taxa de juro.
Isto porque grande parte da deterioração do cenário inflacionário não é um fenômeno exclusivo ao Brasil, mas sim de fundo global, dada a disparada dos preços das commodities no mercado internacional. Em tal cenário, a atuação do Copom é cada vez menos efetiva. “Ou seja, se as demais autoridades (…) não agirem em conjunto e de forma vigorosa, o Brasil deverá amargar um arrefecimento significativo na dinâmica do crescimento econômico na passagem de 2009 para 2010, bem como ver a inflação permanecer acima do desejado”, prenunciam os analistas.