A crise e a gestão de fundos: diretor da Modal Asset revela análise e perspectivas

Com posições quase zeradas, gestor aposta em certa melhora no mercado de ações, mas com cautela redobrada

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SÃO PAULO – Até alguns meses atrás, a crise financeira externa era, de fato, restrita ao plano externo. Excluída a volatilidade no mercado de ações, o Brasil mantinha-se resistente às turbulências, desfrutando de seus fundamentos macroeconômicos mais sólidos, coroados com a conquista do grau de investimento.

Mas a blindagem total não durou muito. Commodities passaram a despencar, impactando ainda mais a bolsa brasileira, enquanto oscilações extremas ditam o mercado de câmbio, trazendo perdas bilionárias a empresas com exposição elevada a operações de derivativos. Nesse contexto, a indústria doméstica de fundos de investimentos também sente os efeitos da crise.

Além de rentabilidades negativas e captações líquidas deficitárias, episódio emblemático foi registrado na segunda semana deste mês, quando o fundo de ações GWI FIA foi fechado para operações de aplicações e resgates, tendo em vista a iliquidez dos ativos em carteira. Além de sua repercussão negativa, a notícia questiona os fundamentos dos fundos brasileiros e aprofunda o clima tenso entre os investidores.

Transparência em momento de crise

Nesse sentido, a equipe da Modal Asset se pôs a reforçar a credibilidade de sua gestão ao mercado, revelando sua análise sobre o desenrolar das turbulências e suas perspectivas para a crise. “A transparência, palavra tão batida nos dias de hoje, deve ser exercida a cada momento, bom ou ruim”, afirmam os gestores. E, de fato, o atual momento não é nada favorável.

“O nível de desconfiança no sistema financeiro aumentou exponencialmente. A irracionalidade tomou conta dos pregões, promovendo uma verdadeira liquidação de ativos. Nesses momentos, a análise de fundamentos fica completamente relativizada pela sensação de medo”, diz Alexandre Póvoa, diretor responsável da Modal Asset.

Para ele, embora as intervenções realizadas pelos bancos centrais dos EUA, Europa e Ásia sejam importantes para amenizar as condições adversas dos mercados, as medidas não devem resolver o problema em termos estruturais. “Ao menos fica a impressão de que o pior do risco sistêmico pode ter ficado para trás”, pondera.

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Primeiras medidas

À época do começo da crise, a estratégia tomada pela Modal a fim de preservar os recursos de seus cotistas foi a de reduzir sensivelmente suas posições. “Destaque para a compra e o desmonte rápido de posições em IGP-M, compra de vértices de DI, transição rápida de uma carteira de ações ligadas a commodities para papéis ligados ao mercado local, venda de S&P, entre outros”, revela Póvoa.

Por certo tempo, tais medidas foram relativamente bem sucedidas. Mas a recente ampliação das turbulências fez com que a equipe da Modal tomasse uma estratégia ainda mais cautelosa. “A partir de setembro, com a crise sistêmica e o pânico instalados, optamos por virtualmente zerar nossas posições, com incursões esporádicas em momentos específicos”, afirma Póvoa.

Póvoa cita como exemplo a redução da exposição bruta e do número de pares tomados nos fundos de estratégia long & short, como forma de controlar melhor as posições detidas. “Nossa lógica era simples: não havia como mensurar o binômio risco-retorno de qualquer ativo”, reitera o diretor da Modal.

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O começo da melhora

Desde então, a equipe mantém sua atitude defensiva de gestão de fundos. Mas Póvoa acredita em uma certa melhora do clima.

Desta forma, Póvoa lança mão de suas perspectivas e recomendações, contemplando “uma volta ao mínimo de normalidade dos mercados” em 2009. A começar pela bolsa, o diretor vê alternativas interessantes de compra, que, no entanto, devem ser avaliadas cautelosamente e resultando em aquisições graduais. Uma das opções avistadas por Póvoa são os papéis ligados ao mercado de commodities.

Segundo o gestor, no atual patamar em que se encontram, algumas ações estão precificando quedas de até 40% nas cotações de commodities em 2009. Outra oportunidade encontra-se nos papéis do setor de consumo local, excessivamente penalizados, que “praticamente eliminaram qualquer perspectiva de crescimento no Brasil no médio e longo prazo”.

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Já em termos de mercado externo de ações, Póvoa prefere aguardar uma recuperação mais consistente do desempenho dos índices norte-americanos para voltar a comprar opções de venda, principalmente devido às suas projeções pessimistas quanto ao rumo da economia dos EUA.

Cenário de juros e inflação

Além de suas expectativas para o mercado de renda variável, Póvoa também compartilha suas projeções para o mercado de títulos indexados à inflação. Para ele, a combinação entre crescimento econômico mais modesto e depreciação do real em relação ao dólar deve gerar uma tendência inflacionária para 2009. Desta forma, “estamos estudando oportunidades em papéis ligados à inflação”, afirma.

Já no mercado de taxas dos contratos de DI futuro, a situação é mais complexa. Como afirma Póvoa, “a atitude mais correta do Banco Central seria manter e até incrementar o processo de aperto monetário. Porém, estamos longe de uma situação que possa ser comparada com normalidade”. A aposta do diretor da Modal é quanto à adoção de um ciclo de manutenções no juro básico brasileiro.

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“Por mais paradoxal que pareça, consideramos que quanto mais o cenário se complicar, maiores são as chances do BC privilegiar o seu papel original de preservador do sistema, mantendo a política monetária estável, nem que seja temporariamente. Se a situação se acalmar, maior a probabilidade de continuidade na elevação da taxa básica. Todas as nossas operações estão baseadas nesta lógica torta”, explica Póvoa.