A cadeia de comando do “petrolão” vai parar em José Dirceu como a do “mensalão”?

Esta é a pergunta que se fazia ontem depois da prisão do ex-ministro da Casa Civil, sob a acusação de ter sido também o responsável, na mesma linha do mensalão, pela montagem do petrolão. Os desdobramentos, cada vez mais imprevisíveis da Operação Lava-Jato levam pânico ao mundo político e condicionam as ações econômicas

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Desde a manhã de ontem, quando a notícia de mais uma fase da Operação Lava-Jato, chamada “Pixuleco”, foi deflagrada, levando à prisão do ex-ministro José Dirceu –  mais ou menos prevista até por ele mesmo -, o assunto tomou conta do noticiário político de todos os grandes sites noticiosos, dos noticiários de rádio e televisão, teve destaque no Exterior e hoje ocupa avassaladoramente o noticiário e o espaço para análises e comentários dos principais jornais do país. E avassalou o mundo político, fora e dentro do Congresso, fora e dentro do governo.

A tensão sobre os desdobramentos das investigações do chamado “petrolão”, que já vinha num crescendo, subiu ainda mais. Ao longo dia, com as revelações pelos procuradores federais no Paraná a respeito das razões que os levaram a pedir a prisão preventiva do ex-ministro da Casa Civil, já condenado e em prisão domiciliar por seu envolvimento no mensalão, jogaram mais lenha e gasolina ainda nesta fogueira.

Em resumo: mensalão e petrolão têm o mesmo pedigree, estão ligados. E Dirceu foi seu criador, operou os dois e continuou operando as falcatruas na Petrobras mesmo depois de ter saído oficialmente do ministério de Lula e mesmo após ser condenado por causa do mensalão e ainda no período em que esteve detido na Papuda.

Duas perguntas passaram a ser feitas:

  1. A cadeia de comando da operação do lado político-partidário vai parar em José Dirceu ou vai subir na hierarquia? Com duas subperguntas? Vai atingir Lula? Vai atingir o governo Dilma (não pessoalmente a presidente) e as duas campanhas eleitorais dela?
  2. Qual o alcance das investigações nos partidos e no Congresso Nacional?

Com isso, a situação descrita ontem em Brasília era de pânico.

O governo procurou agir com naturalidade – e a ordem da presidente foi para que nenhum ministro do governo, mesmo os petistas, comentasse a prisão de Dirceu nem as novas revelações dos procuradores.

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A frase mais próxima de um comentário oficial saiu do ministro da Defesa, Jaques Wagner, depois da reunião do conselho político pela manhã: “As investigações continuam e governo também continua trabalhando.”

À noite, segundo alguns relatos colhidos pelos jornalistas de participantes do jantar, a presidente não tocou no assunto com seus convidados. Porém, este teria sido o tema preferido das rodinhas que se formavam no Palácio da Alvorada. Dilma falou de ajuste fiscal, de cooperação. Os presentes murmuravam Lava-Jato, prisões…

O PT, que seria/será o grande atingido com o cerco a José Dirceu, limitou-se a soltar uma nota com o mesmo teor de outras explicações sempre que o nome do partido surge citado – direta ou indiretamente – na Operação Lava-Jato: todas as doações recebidas foram legais e estão registradas nas prestações de contas à Justiça Eleitoral. A nota não defende José Dirceu. Lula, em silêncio público tem estado, e em silêncio manteve-se.

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No Congresso ainda esvaziado pelo recesso branco – a volta em massa dos parlamentares a Brasília se dá sempre a partir da terça-feira – o clima de apreensão e medo aumentou exponencialmente, exatamente pelo desconhecimento do alcance das revelações das delações premiadas a respeito de quem tem mandato. O ministério só desaparecerá quando o juiz Sérgio Moro mandar mais representações para o STF e o procurador Rodrigo Janot apresentar suas primeiras denúncias.

Segundo o presidente de um partido, citado pelo colunista Ilimar Franco em “O Globo”, o que pode vir agora não é uma denúncia contra cerca de 40 parlamentares, da lista inicial de Sérgio Moro que Rodrigo Janot está analisando. De acordo com ele, até 20% dos atuais parlamentares (do total de 594 entre Câmara e Senado, mais de uma centena) podem entrar na dança e ser investigados.

Ajudou a elevar o clima ainda mais a confirmação de que o ex-diretor da Petrobrás, Renato Duque, tido como o representante do PT no esquema da Petrobras, está negociando uma delação premiada. Há o temor ainda de que José Dirceu, psicologicamente abalado, resolva também contar o que sabe, já não aceite mais ser o “chefe da quadrilha” como foi classificado no julgamento do mensalão.

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Com tudo isso, assuntos como a grave crise financeira do Rio Grande do Sul, que ameaça extrapolar para outros estados, e os riscos da chamada pauta-bomba para as contas públicas e para o já enfraquecido ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy foram relegados a uma segunda ordem.

Mais uma vez, o rabo da política agita e prejudica o corpo maior da economia.

(Pixuleco, o nome dado a esta etapa da Lava-Jato é como, segundo um dos investigados, o João Vaccari Neto chamava as propinas)

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Outros destaques dos

jornais do dia

– VENDAS DE VEÍCULOS AINDA EM QUEDA – De janeiro a julho foram emplacados 1,54 milhão veículos no país, um recuo de 21% no comparativo com o mesmo período do ano passado, quando foram vendidos 1,95 milhão de veículos. Já no mês de julho, a queda foi de 22,78% em relação a julho de 2014, passando de 294,75 milhões para 227,62 milhões de unidades. Os dados são da Federação Brasileira dos Distribuidores de Veículos Automotores (Fenabrave). O emplacamento de caminhões foi o que mais recuou nos sete meses do ano. Foram vendidas 43,9 mil unidades ante 76,9 mil de janeiro a julho de 2014, queda de 42,95%. Já no comparativo com o mês de julho do ano passado, a retração foi de 47,36% — 6,5 mil ante 12,3 mil caminhões. As vendas de automóveis e comerciais leves somaram 219,4 milhões de veículos em julho, o que representou retração de 21,58% em relação ao mesmo mês de 2014, 279,7 mil unidades. No acumulado do ano, foram licenciados 1,48 milhão ante 1,86 milhão, um volume 20,03% menor que de janeiro a julho do ano passado.

– BALANÇA COMERCIAL COM RESULTADO POSITIVO NO ANO – A balança comercial apresentou resultado positivo de US$ 2,379 bilhões em julho, o maior saldo para o mês desde 2012 (quando foi de US$ 2,863 bilhões), mantendo a tendência apresentada até o mês passado. O saldo acumulado no ano está em US$ 4,599 bilhões. Também o resultado do ano é o maior desde 2012. O resultado positivo em 2015, até julho, se dá por uma queda mais acentuada das importações (19,5%) do que das exportações (15,5%). No ano passado, entre janeiro e julho, o resultado apresentado pela balança era de déficit de US$ 952 milhões. Os dados apresentados hoje corroboram a expectativa do MDIC de um superávit de US$ 8 bilhões a US$ 10 bilhões para o resultado da balança comercial neste ano.

E MAIS:

– “Governo analisa efeito financeiro de cortar de 5 a 10 ministérios” (Estadão)

– “[Bradesco-HSBC] BC vê risco moderado de concentração” (Estadão)

– “Levy autoriza acordo com Haddad para trocar indexador da dívida” (Folha)

– “Economistas revisam projeções e alguns já prevêem queda de 3% na atividade no ano” (Valor)

LEITURAS SUGERIDAS

1.      Miriam Leitão – “Reorganizar o governo” (a propósito da ideia da presidente de reduzir o tamanho de sua equipe, diz que dá para cortar até 18 ministérios) – Globo

2.      José Paulo Kupfer – “Reformas incompletas” (diz que quando se fala em contas públicas, uma reforma que altere a natureza das fontes de arrecadação e o perfil dos contribuintes não pode ficar de fora) – Estadão