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SÃO PAULO – Em artigo publicado no McKinsey Quarterly, Charles Roxburgh descreve falhas ocultas da estratégia causadas por armadilhas do cérebro dos próprios estrategistas. Duas delas, a autoconfiança e otimismo exagerados, podem prejudicar o desenvolvimento das estratégias, que se baseiam em estimativas sobre incertezas do futuro.
Esta armadilha pode ser uma causa da visão otimista revelada em pesquisa feita entre quase 380 presidentes e executivos financeiros de todo o mundo sobre o futuro de suas empresas nos próximos dois anos: 40% projetam crescimento substancial e outros 50%, crescimento modesto de seus negócios. Apenas 10% prevêem estabilidade (6,5%) ou queda (3,5%).
Crescimento orgânico ainda é preferência
O objetivo da pesquisa, conduzida pela Economist Intelligence Unit, foi determinar o papel da área de Finanças na estratégia de crescimento da empresa.
Ela revelou como estratégia mais popular, o crescimento orgânico (79%) à frente das alianças estratégicas (45%) e das fusões e aquisições (38%). O financiamento seguirá a prioridade do custo: primeiro os recursos próprios (94%), mais baratos, seguidos por empréstimos (62%), e novas emissões de capital (28%). Os resultados sobre fatores de risco surpreendem um pouco, mas se alinham com os planos de financiamento: a taxa de juros será o principal (29%), seguida dos preços das commodities (15%) e da energia (12%).
Mas, nem todas as empresas estão preparadas
Tais resultados sugerem que as empresas pretendem apoiar sua estratégia de crescimento na excelência da gestão de seu capital, o que confere à área de Finanças um papel necessariamente importante. Estarão elas preparadas para este desafio? O resto da pesquisa revela que não.
Vejamos como esta pretensão se revela. As empresas acham que o escopo da área Financeira inclui dar assessoria estratégica ao presidente (92%) e colaborar intimamente com as unidades de negócios na tomada e na execução das decisões de crescimento (87%). Essa visão já está incorporada em demanda, pois os profissionais financeiros lideram ou apóiam as atividades de planejamento da estratégia de crescimento (94%) e de identificação de oportunidades de crescimento da receita e redução dos custos (91%). A importância da área de Finanças é reconhecida: apenas 33% relatam falta de visibilidade ou ignorância quanto a seu papel por parte dos demais gerentes.
Mas a prática ainda vai noutra direção. As áreas de Finanças planejam participar de seus próprios processos com freqüência (67%) bem maior do que na identificação e execução de estratégia de crescimento (52%).
Pior, esperam obter mais progressos nas atividades de planejamento, orçamento e projeção financeiros (91%) e de controle e reporte financeiro e adequação regulatória (89%), do que no alinhamento de suas atividades com a estratégia (84%) e na parceria com os gestores das áreas de negócio (77%), que vêm em terceiro e quinto lugares, respectivamente.
Mais tempo à definição estratégica
A boa notícia é que elas estão sensibilizadas pela demanda de suas firmas: planejam dedicar mais tempo ao apoio das definições estratégicas (65%), à mensuração do desempenho operacional da empresa – e não somente financeiro – (65%) e a se capacitar para estas responsabilidades (61%), e menos tempo à gestão financeira e contábil do dia a dia (33%).
Para tanto, as principais dificuldades que vislumbram se relacionam à comunicação com o pessoal não financeiro (50%), cujas causas estão nelas próprias: precisam desenvolver habilidades como entender o negócio (72%) e seus processos (57%) e colaborar com os gestores das unidades de negócio (59%). Em outras palavras, precisam aprender a falar a linguagem de negócio de suas empresas.
Em resumo, as áreas de Finanças são requisitadas a desempenhar um novo papel, mais dedicado ao planejamento e à execução da estratégia de crescimento de suas empresas em colaboração próxima com as áreas de negócio. Elas reconhecem esta demanda, mas não se mostram aparelhadas para atendê-las plenamente, estando ainda muito presas à gestão de suas próprias atividades cotidianas. Se depender delas, os planos de crescimento das empresas correm o risco de se revelarem mero otimismo.
(*) Lúcio de Moura Neto é diretor da Evolve Gestão.