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SÃO PAULO – Era uma situação de pesadelo para qualquer presidente de Federal Reserve em 2008. Grande estudioso da crise de 1929, Ben Bernanke, por exemplo, dificilmente poderia ter previsto quando aceitou comandar o banco central dos Estados Unidos que ele teria nas mãos a responsabilidade de salvar a economia global de uma crise como a que se desenhava. Os maiores bancos de Wall Street haviam enchido os seus balanços de títulos de dívida imobiliária norte-americana “subprime” e depois não conseguiram se livrar desses “ativos podres” quando os preços dos imóveis pararam de subir e a inadimplência começou a disparar.
Para piorar tudo isso, essa bolha estourava de maneira radical quando um dos maiores bancos do país pedia concordata e tornava-se o primeiro elo de uma previsível reação em cadeia que deveria abalar todo o sistema financeiro global. E a próxima vítima, ao que tudo indicava, seria a seguradora AIG (American International Group).
Em 2008, a companhia assegurava papéis de alto risco do mercado imobiliário norte-americano e não tinha mais recursos para pagar os “ativos podres” vendidos por bancos a investidores quando a crise estourou. Pelo seu tamanho e importância no mercado global, o governo norte-americano não podia deixar que ocorresse com a AIG o que aconteceu com o Lehman Brothers. Então, sem ver outra alternativa, o Federal Reserve de Nova York, comandado por Timothy Geithner, decidiu injetar capital na seguradora, “estatizando” uma parte da empresa.
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E não foi pouco. O Fed de Nova York desembolsou nada menos que US$ 182,3 bilhões para o resgate. Mas, felizmente, a compra conseguiu cumprir seu objetivo e a seguradora não foi à falência, o que ajudou a economia americana a se recuperar nos anos seguintes, já que o tão temido contágio no sistema financeiro foi evitado. Mais impressionante que isso, o Fed ainda teve lucro nessa empreitada. O banco central de NY vendeu a sua participação na AIG por US$ 205 bilhões, dando um lucro total de US$ 22,7 bilhões no fim da operação, que foi encerrada em 2012, ano da sexta e última venda em bloco de ações do banco.
O professor da Saint Paul Escola de Negócios e vice-presidente do IBEVAR (Instituto Brasileiro de Executivos de varejo e mercado de Consumo), José Roberto Securato Júnior, diz que o resgate da AIG mostrou uma boa sofisticação analítica por parte do Fed. “Houve agilidade para conter o problema e a condução da crise foi focada no negócio. É um exemplo para o mundo todo e principalmente para o Brasil, onde muitas vezes falta pulso firme para tomar esse tipo de decisão”, avalia o professor.
Securato diz que a crise de 2008 está totalmente superada, mas que ela deixou profundas marcas na economia global. A mais importante sendo o fortalecimento de uma visão negativa dos bancos. “Hoje é mais difícil ganhar dinheiro com banco. O sistema financeiro virou um vilão na economia. E eu não acho que é para tanto, mas sempre vivemos ciclos de intervencionismo e liberalismo e não acho que um dia chegaremos a um equilíbrio”, explica.