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O interesse de investidores estrangeiros por ações brasileiras segue elevado, mesmo em um cenário global marcado por conflitos geopolíticos e maior volatilidade, segundo relatório do Itaú BBA divulgado após uma rodada recente de reuniões com gestores globais e locais.
De acordo com o banco, investidores internacionais continuam enxergando o Brasil como um destino atrativo no médio e longo prazo, sustentado principalmente por cinco fatores, listados abaixo:
O primeiro fator é a valuation ainda considerada atraente. O mercado brasileiro negocia com múltiplos abaixo de sua média histórica, com o Ibovespa sendo avaliado a um P/L (múltiplo de preço sobre o lucro) inferior a 10 vezes, cerca de 5% de desconto em relação ao histórico, enquanto mercados globais operam com prêmio próximo de 10%. Além disso, aproximadamente dois terços das empresas na Bolsa brasileira são negociadas abaixo de suas médias históricas, o que amplia a percepção de margem de segurança para o investidor estrangeiro.
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O segundo ponto é o estágio do ciclo de juros. O Brasil figura entre os poucos países relevantes que já iniciaram — ou estão prestes a consolidar — um ciclo de queda da taxa de juros a partir de um patamar bastante elevado. A Selic, atualmente em torno de 14,75%, deve recuar para a faixa de 13% até o fim de 2026, segundo projeções do mercado. Esse movimento tende a beneficiar ativos de risco, apoiar o crescimento econômico e destravar valor em setores sensíveis ao custo de capital, o que reforça o apelo do país frente a outras economias emergentes.
O terceiro fator destacado pelos estrangeiros é a menor exposição geopolítica da América Latina — e do Brasil em particular. Em um cenário internacional marcado por conflitos e tensões em diferentes regiões do mundo, o país é visto como relativamente distante dos focos de instabilidade, sem envolvimento direto nos principais conflitos em curso. Essa característica aumenta a atratividade do Brasil como alternativa de alocação em um ambiente global mais volátil e fragmentado.
O quarto elemento é o perfil do mercado brasileiro, mais exposto a ativos reais e setores de valor. A composição do índice brasileiro é concentrada em commodities, instituições financeiras e infraestrutura, com participação reduzida de empresas de tecnologia — menos de 10%, mesmo com fintechs. Em meio a um cenário global de discussões sobre inflação estrutural, desvalorização de moedas e busca por proteção, esse perfil favorece estratégias ligadas a “real assets”. Além disso, o petróleo surge como vento favorável para as contas externas e fiscais, gerando impacto positivo estimado em cerca de 1% do PIB via exportações líquidas.

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Por fim, o quinto fator é o ainda baixo nível de posicionamento em ações por parte de investidores locais e globais. A alocação doméstica em renda variável voltou a níveis próximos aos de 2018, enquanto investidores globais seguem subalocados no Brasil, apesar de alguma sobreponderação por parte de gestores focados em emergentes. Esse quadro sugere espaço adicional para entrada de fluxo, especialmente em grandes empresas líquidas, com destaque para os setores financeiro, de commodities e, mais recentemente, utilities.
Os estrangeiros seguem priorizando ações de bancos e empresas financeiras, além de papéis ligados a commodities e, mais recentemente, utilities (energia e saneamento). O Itaú BBA afirma que compartilha dessa leitura e mantém recomendação de overweight (exposição acima da média) na carteira para a América Latina.
Já entre investidores locais, o relatório aponta um debate em curso sobre uma eventual retomada das small caps, após um desempenho abaixo da média acumulado nos últimos cinco anos. Ainda assim, o banco observa mais questionamentos do que alocação efetiva nesse segmento, com gestores priorizando ativos considerados “bond proxies” (com comportamento semelhantes a títulos de renda fixa) e reduzindo exposição a utilities tradicionais para buscar oportunidades em concessões rodoviárias, shoppings e ferrovias.
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No campo dos lucros, o Itaú BBA chama atenção para uma leitura mais cautelosa das revisões de resultados. Embora o consenso para o lucro do Ibovespa em 2026 indique crescimento próximo de 10% nos últimos três meses, apenas 43% das empresas vêm revisando estimativas para cima. Quando excluído o setor de petróleo e gás, o movimento agregado passa a ser negativo, o que sugere risco de leve frustração de lucros para companhias mais expostas ao ciclo doméstico.
Apesar de o mercado brasileiro operar acima dos níveis observados antes da intensificação dos conflitos globais, o banco também aponta sinais técnicos de sobrecompra, o que historicamente aumenta a probabilidade de correções de curto prazo. Ainda assim, a avaliação é que o desempenho recente do Ibovespa tem sido fortemente sustentado pelo fluxo estrangeiro, enquanto a indústria local de fundos de ações segue registrando resgates.