1º grande evento, mas não último: o que esperar para Bolsa após “Efeito Flávio 2026”?

Próximos dias serão determinantes para definir se o mercado brasileiro conseguirá estabilizar depois do choque político ou se entrará em uma fase de correção mais profunda.

Lara Rizério

Senador Flávio Bolsonaro observa Jair Bolsonaro chegar ao Aeroporto Internacional de Brasília
25/11/2024
REUTERS/Adriano Machado
Senador Flávio Bolsonaro observa Jair Bolsonaro chegar ao Aeroporto Internacional de Brasília 25/11/2024 REUTERS/Adriano Machado

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O fim da semana passada foi de fortes emoções para o mercado brasileiro. Conforme destaca a Genial Investimentos, depois de meses em que a expectativa de queda nos juros dominou o mercado, o cenário político voltou a ser o principal fator a mexer com os preços.

O Ibovespa começou a semana batendo recordes atrás de recordes, passando dos 164 mil pontos e batendo os 165 mil pontos na sexta, impulsionado por sinais claros de que a economia está desacelerando e fortalecendo a aposta de que o Banco Central começaria a cortar juros já em janeiro. Contudo, a trajetória positiva foi brutalmente interrompida na própria sexta-feira, quando a confirmação de Flávio Bolsonaro como candidato da família para 2026 provocou a maior queda do índice desde fevereiro de 2021.

Já o dólar disparou mais de 2% em poucas horas, os juros futuros explodiram cinquenta pontos e apenas quatro ações conseguiram fechar no positivo. Enquanto isso, o cenário internacional seguia favorável, com as bolsas americanas renovando máximas históricas depois que dados fracos de emprego elevaram a probabilidade de corte de juros pelo Federal Reserve para acima de noventa por cento. A combinação de crescimento global resiliente com bancos centrais dispostos a afrouxar a política monetária continuou dando suporte aos ativos de risco mundo afora, com dólar enfraquecido e commodities em recuperação beneficiando especialmente emergentes.

Viva do lucro de grandes empresas

“O mercado entendeu o movimento como um sinal de que as chances de reeleição de Lula aumentaram significativamente, já que a alta rejeição dos Bolsonaro entre eleitores moderados enfraquece a oposição”, ressalta a casa de análise.

O JPMorgan ressalta que, embora possa levar algum tempo para o cenário político ficar mais claro, espera que o mercado recupere parte das perdas de sexta-feira à medida que os desdobramentos ocorrerem. “Este é o primeiro grande evento de volatilidade do ciclo eleitoral, e é improvável que seja o último”, avalia a equipe de análise.

Além disso, na manhã de domingo, o senador Flávio Bolsonaro declarou: “Existe a possibilidade de eu não ir até o fim, e eu tenho um preço para isso — eu vou negociar.”

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Mais tarde naquela noite, ele esclareceu em uma entrevista na TV que sua condição para desistir da disputa é que seu pai seja libertado e autorizado a concorrer. Isso exigiria que o Congresso aprovasse uma anistia para todos os envolvidos nos ataques de janeiro de 2023 em Brasília, que resultaram na sentença de 27 anos do presidente Bolsonaro. No entanto, embora a anistia pudesse remover ou reduzir a pena, não necessariamente apagaria o crime em si. Para que Bolsonaro recupere a elegibilidade, o Tribunal Eleitoral precisaria reverter sua decisão de 2023 que o impede de concorrer.

Na visão da Genial, os próximos dias serão determinantes para definir se o mercado brasileiro conseguirá estabilizar depois do choque político ou se entrará em uma fase de correção mais profunda.

A super quarta-feira que se aproxima reunirá a decisão do Federal Reserve, a reunião do Copom e divulgações importantes de inflação tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, conjunto de eventos que poderia normalmente oferecer catalisadores para recuperação caso os dados confirmem a narrativa de cortes de juros sincronizados globalmente, avalia.

“Entretanto, a experiência desta semana demonstrou que o tema eleitoral ganhou poder de veto sobre qualquer narrativa puramente macroeconômica, transformando o noticiário político em variável determinante para a formação de preços no curto prazo”, aponta.

Isso porque a possibilidade de que a candidatura de Flávio Bolsonaro inviabilize a competitividade da centro-direita em 2026 passou a ser precificada como aumento estrutural de risco, reduzindo o apetite por posições direcionais até que haja maior clareza sobre a configuração do cenário eleitoral ou que eventos no campo fiscal e monetário sejam suficientemente fortes para ofuscar temporariamente as preocupações políticas.

Christian Iarussi, economista e sócio da The Hill Capital, ressaltou que o choque político da última sexta-feira altera o equilíbrio do mercado e introduz uma variável nova.

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“A reação foi forte o suficiente para mostrar que o mercado está extremamente sensível a qualquer sinal de deterioração institucional futura. Ainda assim, a Super Quarta com as decisões do Federal Reserve e do Copom permanece como o divisor de águas da semana que vem”, aponta o analista.

Para o analista, se o Fed confirmar o corte e sinalizar continuidade em 2026, e se o BC brasileiro mantiver o discurso de que a Selic pode cair já no início do próximo ano, o mercado pode reencontrar algum apoio.

Dito isso, considerar 170 mil pontos ainda em 2025 passa a exigir um conjunto mais robusto de notícias positivas e uma acomodação rápida do risco político recém-criado, avalia. O Ibovespa a novos recordes ainda este ano passa a se tornar uma tarefa cada vez mais árdua, enquanto parecia inevitável até a manhã desta sexta.

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.