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"A gente vai num decretão, tá ok?": o vídeo de Bolsonaro que fez o tiro sair pela culatra para a Forjas Taurus

As ações da fabricante de armas registraram ganhos de quase 1.000% desde setembro e os negócios passaram a frequentar o ranking dos maiores volumes na Bolsa, mas tomba 60% em três dias

SÃO PAULO - A fabricante de armas Forjas Taurus (FJTA3;FJTA4) viveu uma lua de mel com o mercado financeiro durante o período que antecedeu a eleição do último domingo. Se antes o volume negociado era irrisório, a perspectiva da ascensão ao poder de um político favorável ao porte e à posse de armas fez investidores - ou especuladores? - inflarem os negócios da companhia na Bolsa, juntamente com seu valor.

Os papéis registraram ganhos de quase 1.000% desde setembro e os negócios passaram a frequentar o ranking dos maiores volumes na Bolsa, mas tomba 60% em três dias. Os movimentos já vinham sendo apontados como especulativos por diversos analistas, mas um vídeo que circula nas redes sociais desde que Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito ajuda a explicar porque os ganhos da Forjas Taurus na Bolsa ruíram rapidamente.

Vale destacar que não se sabe de fato que dia foi gravado e onde Bolsonaro estava e, procurada pelo InfoMoney, a assessoria não confirmou a data do vídeo. 

Em 25 segundos, Bolsonaro pede que policiais não comprem armas e diz que vai baixar um "decretão" para acabar com o monopólio do mercado de armas no Brasil. Além disso, ele afirma que irá zerar os impostos de armas. Confira o vídeo:

Bolsonaro diz a policiais em vídeo: "Ninguém compra arma não que a gente vai, num decretão lá, já que é decreto a gente vai acabar com o monopólio, tá ok? E vamos botar zero de impostos para vocês aí". 

Cadê a novidade?
Em entrevistas transmitidas na noite de segunda-feira (29), o presidente eleito falou em "abandonar o politicamente correto" quando comentou sobre o afrouxamento das regras para a posse de arma e a flexibilização do porte em nome da "legítima defesa". A idade mínima para o acesso ao armamento cairia de 25 para 21 anos.

Mas quem acompanha a carreira política de Bolsonaro já sabia que essa informação não é, necessariamente, positiva para a Forjas Taurus, e que a postura demonstrada no vídeo acima não é nenhuma surpresa. Isto porque Bolsonaro já disse em outras ocasiões que pretendia "quebrar o monopólio da Taurus" no mercado brasileiro de armas e munições.

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A empresa é uma das duas fabricantes de pistolas no Brasil e fornecedora de armas para as políticas e as Forças Armadas. Ou seja, com a eleição de Bolsonaro, a empresa pode perder espaço no mercado, ainda que haja liberação do posse de armas. 

O cenário indica que o movimento de forte alta antes das eleições foi puramente especulativo e acabou gerando um efeito manada entre os investidores pouco informados. Os fundamentos da empresa também não corroboram a alta. A companhia tem elevado nível de endividamento no curto prazo e possui baixa reserva financeira.

Os balanços trazem prejuízos há cinco anos consecutivos e o patrimônio líquido da companhia está negativo (mais passivos que ativos) em R$ 510 milhões, tornando, com isso, a relação dívida líquida/patrimônio líquido também negativa.

"Com esses dados, não é necessário se aprofundar em maiores detalhes sobre a sua saúde financeira para constatar que, de fato, se encontra bastante preocupante a situação da Forjas Taurus nesse momento", avaliou Tiago Reis, CEO e fundador da Suno Research, em reportagem publicada pelo InfoMoney em meados de outubro, em um dia de glória da Forjas Taurus da Bolsa

Por fim, a empresa deve enfrentar dificuldade em lidar com a concorrência - se o mercado for aberto a estrangeiros -, uma vez que seus produtos são vistos com desconfiança pelo público-alvo após falhas e acidentes registrados nos últimos três anos. Não há nenhum fator que justifique uma valorização da ação. 

Projeto polêmico
O projeto do deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB/SC) está pronto para ser votado no plenário da Câmara, depois de tramitar em comissões desde 2012. O texto prevê o "direito de possuir e portar armas de fogo para legítima defesa ou proteção do próprio patrimônio", reduz a idade mínima para a compra de armas de 25 para 21 anos, e as taxas pagas ao governo.

Apesar de o assunto ser polêmico, é relativamente fácil de ser aprovado, já que requer maioria simples de votos. Com a adesão suprapartidária a Bolsonaro entre os congressistas, ele teria apoios suficientes para mudar as regras. Veja aqui o projeto na íntegra

Assim, a análise corrente entre diversos analistas do mercado é de que não havia justificativa para uma valorização dos papéis da companhia e que o governo de Bolsonaro, ao contrário do que poderia se pensar, impactarão negativamente os papéis da empresa. 

O mercado já reflete isso e ação ordinária (FJTA3) despenca 59% e o seu ativo preferencial (FJTA4) derrete 59,6% em apenas três dias. 

O que a Taurus diz? 
O presidente da Forjas Taurus, Salesio Nuhs, disse ao InfoMoney que o vídeo de Bolsonaro "é antigo e está desatualizado" e que "não tem razão para temer qualquer tipo de concorrência" em eventual abertura do mercado doméstico de armas e munições uma vez que exporta para mais de 85 países e "compete com as maiores empresas de armas nos mercados de exportação".

 Segundo Nuhs, a entrada de novos competidores no mercado não deve ter grande impacto para a Taurus desde que a entrada de novos fabricantes no Brasil ocorra em iguais condições às atualmente oferecidas para a empresa, "sujeitando-se a todas as regulações, restrições e dificuldades, além da alta carga tributária, que quem produz no Brasil enfrenta". 

Sobre os resultados fracos apresentados nos balanços, Nuhs afirma que a nova gestão "entregou resultados relevantes no primeiro semestre decorrentes de uma forte atuação em redução de custos, aumento de produtividade, lançamento de novos produtos e garantindo qualidade".

Além disso, ele explica que a atual administração renegociou sua dívida alongando o perfil e reduzindo substancialmente os custos financeiros. 

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