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As seleções nacionais resistem há muito tempo à contratação de treinadores estrangeiros, sobretudo aquelas que veem a Copa do Mundo como expressão de identidade nacional. Mas, com a Inglaterra de Thomas Tuchel e a Bélgica de Rudi Garcia nas quartas de final neste ano, esse antigo tabu voltou a ser posto à prova.
No início do torneio, 27 seleções eram comandadas por técnicos estrangeiros, ante nove há quatro anos. Ainda assim, apenas o alemão Tuchel e o francês Garcia seguem na disputa para tentar se tornar os primeiros treinadores de fora a conquistar a Copa.
A última vez que um estrangeiro levou uma seleção à final foi em 1978, quando o austríaco Ernst Happel comandou a Holanda derrotada pela Argentina. Agora, a Inglaterra vê em Tuchel a chance de enfim acertar após as passagens frustradas de Sven-Göran Eriksson e Fabio Capello.
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Em outros casos, a aposta ainda não produziu o mesmo efeito. O Brasil, por exemplo, entregou o comando a Carlo Ancelotti para liderar uma reformulação, mas a seleção segue distante do desempenho esperado. Mesmo sem resultado imediato, o italiano ganhou mais tempo, com renovação até a próxima Copa, em uma tentativa da CBF de apostar na estabilidade.
A Bélgica, por sua vez, já tem histórico com técnicos estrangeiros. O espanhol Roberto Martínez levou a equipe ao terceiro lugar em 2018, mas não repetiu a campanha agora com Portugal, eliminado nas oitavas pela Espanha. Já o time de Garcia chega confiante às quartas após golear os Estados Unidos por 4 a 1 e terá justamente a Espanha como próximo adversário.
Trecho analítico, mais arrumado
As federações menores recorrem há décadas a treinadores estrangeiros para modernizar seu futebol. A mudança recente está nas grandes seleções, cuja resistência a nomes de fora ajudou a manter essa barreira por quase um século.
Segundo Simon Kuper, autor de livros como World Cup Fever e Soccernomics, essa relutância sempre esteve ligada ao orgulho nacional e à ideia de que a Copa não serve apenas para vencer, mas também para representar a cultura futebolística de um país. Nesse raciocínio, entregar o cargo a um estrangeiro soaria quase como abrir mão de parte dessa identidade.
Além da questão simbólica, havia também um fator político. As seleções campeãs do mundo tradicionalmente contavam com um grupo amplo e qualificado de treinadores locais, e o comando da equipe nacional sempre foi visto como o auge da carreira. Nomear um estrangeiro, portanto, podia ser interpretado como desvalorização dos principais técnicos do próprio país.
O avanço da globalização no futebol, porém, enfraqueceu muitas dessas fronteiras. Para Kuper, o jogo moderno passou a seguir um padrão mais internacional, marcado por intensidade física, trocas de posição, circulação rápida da bola e organização coletiva. Nesse cenário, a ideia de um “estilo puramente nacional” perdeu força.
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É esse contexto que ajuda a explicar movimentos como os de Inglaterra e Brasil. Quando uma grande seleção passa muito tempo aquém de seus próprios padrões, cresce a disposição para buscar soluções fora de casa. A decisão continua delicada, porque mexe com identidade, tradição e política interna, mas tem se tornado mais aceitável — sobretudo em momentos de crise.