Programas de sócio-torcedor dos clubes agregam benefícios além dos ingressos

Cada vez mais, os clubes têm investido em experiências diferenciadas e em redes de benefícios; lógica agora é de pertencimento, relacionamento e engajamento.

Danilo Lavieri

Torcedores do Corinthians nas arquibancadas (Foto: REUTERS/Carla Carniel)
Torcedores do Corinthians nas arquibancadas (Foto: REUTERS/Carla Carniel)

Publicidade

Um dos maiores desafios das equipes para fazer o sócio-torcedor valer a pena é garantir que o programa não dependa apenas da venda de ingressos. Cada vez mais, os clubes têm investido em experiências diferenciadas e em redes de benefícios que transformam o ato de ser sócio em algo maior do que apenas assistir às partidas. Essa transformação tem feito dos programas uma das principais fontes de receita, comparáveis até mesmo a um patrocínio máster.

Em 2024, dados do Relatório Convocados, elaborado em parceria com a Galapagos Capital e a Outfield, mostraram a força desses programas no futebol brasileiro. O Corinthians arrecadou R$ 107 milhões com seu sócio-torcedor, o Flamengo somou R$ 90 milhões e o Internacional (RS), R$ 76 milhões. Os números se aproximam ou até superam contratos de patrocínio de camisa, como o novo máster do Colorado, fechado por R$ 70 milhões anuais, e o do Timão, assinado por R$ 115 milhões.

O crescimento desse modelo é recente. Até duas décadas atrás, pouco se falava em sócio-torcedor, restrito a descontos em ingressos e filas exclusivas. O cenário mudou a partir dos anos 2000, mas foi após a Copa do Mundo de 2014, com a modernização dos estádios, que o modelo ganhou força. Desde então, os benefícios se multiplicaram, indo muito além do acesso facilitado ao estádio. Hoje, as ações incluem experiências como entrar em campo, participar de ativações com ídolos e viver momentos exclusivos.

Continua depois da publicidade

Um exemplo recente ocorreu com o Santos. Em partida contra o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro, dez torcedores foram convidados a gravar mensagens de incentivo e acabaram surpreendidos com um encontro com Neymar Jr.

O retorno do craque também teve impacto direto no quadro de sócios. Em fevereiro de 2025, após o anúncio oficial, o clube saltou de 45 mil para cerca de 70 mil associados. Mesmo disputando a Série B, o Peixe registrou o melhor desempenho histórico do Sócio Rei, com aumento de 54% nas ativações em relação ao ano anterior. Mais de 89% das adesões ocorreram de forma digital, com grande adesão às ferramentas automatizadas.

“A ampliação do quadro de sócios é uma meta estratégica da nossa gestão. Trabalhamos desde o início de 2024 para tornar o programa mais atrativo e eficiente. Nosso objetivo é aproximar ainda mais o torcedor do clube”, afirma o presidente Marcelo Teixeira.

Rio Grande do Sul

No Sul, o Internacional é referência desde 2009, quando se tornou o primeiro clube brasileiro a atingir 100 mil sócios. Hoje, são priorizados os que têm mais aderência ao público do futebol, como desconto de até 15% na loja virtual do Clube, como o aplicado, por exemplo, no lançamento da segunda camisa nesta semana.

Além disso, são oferecidos descontos permanentes de até 10% na lojas físicas, cashback da mensalidade em compra no App Zé Delivery, desconto na rede de postos SIM e até 40% de abatimento em compras na Rede Panvel de farmácias, bem como cupons de descontos diversos resgatados no app Mundo Colorado. O uso de benefícios combinados pode até zerar o custo da mensalidade.

“Cada vez mais, temos tentado identificar as expectativas individuais de nosso quadro de sócios. Já estamos programando novas ações de engajamento e interações para o segundo semestre”, afirma Pedro Azambuja, diretor executivo de B2C do clube.

Continua depois da publicidade

Também no Sul, o Juventude aposta no “Sócio Jaconero” e no “Jaconi de vantagens”, que permitem recuperar o valor da mensalidade por meio de uma rede de mais de 60 parceiros. Ações especiais incluem acesso a treinos, eventos e tours pelo Alfredo Jaconi. “Ser sócio do Juventude é viver o dia a dia do Verdão”, define o vice-presidente de marketing, Bruno Zaballa.

Nordeste

No Nordeste, o Sport reforça o vínculo com ações dentro e fora do campo. Tours no CT e na Ilha do Retiro, desafios com mascotes e a possibilidade de assistir a jogos de dentro do gramado estão entre as experiências. O programa “Ilha de Vantagens” reúne mais de 100 parceiros e oferece descontos, sorteios e cashback. “Queremos que o torcedor sinta que ser sócio vale muito a pena”, explica Henrique Aguiar, diretor de marketing do clube.

O Fortaleza, por sua vez, alia experiências e benefícios financeiros. Só em 2025, os sócios já economizaram mais de R$ 3,4 milhões em transações realizadas com descontos em parceiros. Mais de 3 mil foram contemplados em ações como camarotes, tours e desafios. “Nossa missão vai além de oferecer acesso ao estádio. Queremos fortalecer o vínculo emocional com o clube”, diz Márcio Persivo, gestor do programa.

Continua depois da publicidade

O Palmeiras, líder em número de sócios no Brasil, com 187 mil, se apoia em tecnologia e inovação. O clube lançou em 2023 o Palmeiras Pay, que combina serviços bancários, descontos e experiências. “O torcedor palmeirense está no centro do modelo de gestão e das decisões do clube, e isso é uma aula de engajamento”, avalia Reginaldo Diniz, sócio-fundador da End to End, parceira do clube.

Outras agremiações também recorrem a empresas especializadas, como End to End e Somos Young, que auxiliam na gestão e oferecem soluções modernas de engajamento. Os clubes passaram a sortear prêmios, permitir que sócios escolhessem uniformes ou participassem de experiências únicas, como viagens para conhecer o ecossistema Red Bull. “O maior valor nunca deixará de ser o ingresso, mas os programas têm ganhado robustez de ativos nos últimos anos”, analisa Henrique Guidi, da End to End.

Na Série B também

Na Série B, iniciativas também se destacam. O Avaí oferece cashback, descontos em cursos universitários e acesso garantido a jogos. “Nosso foco é mostrar que, mesmo sem ir a todos os jogos, ser sócio é financeiramente positivo”, diz Rodrigo Florenzano, diretor de negócios do clube.

Continua depois da publicidade

Já o Botafogo-SP promove sorteios, ativações e experiências diferenciadas. “A fidelização gerada pelo programa é um ativo extremamente importante para o clube”, afirma Laura Louzada, gerente de marketing.

Com cada vez mais opções de vantagens, experiências e benefícios financeiros, os clubes brasileiros transformaram o sócio-torcedor em uma engrenagem vital para suas finanças e, ao mesmo tempo, em um canal de conexão direta com o torcedor. O ingresso ainda é central, mas já não é o único pilar de sustentação. A lógica agora é de pertencimento, relacionamento e engajamento.

Danilo Lavieri

Danilo Lavieri é jornalista experiente em cobertura de esportes, especialmente em bastidores e negócios do mundo do futebol. Atualmente, é colunista do UOL e comentarista do Canal UOL, com passagens por Abril, iG e Máquina do Esporte, com direito a coberturas de três Copas e outras importantes competições de futebol de clubes e seleções.