O farol do futebol mundial deixou de existir? Imprensa internacional avalia; veja

A história mostra que a identidade brasileira nos campos pode estar além da repetição de fórmulas

Carla Carvalho

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A eliminação do Brasil para a Noruega ganhou um tom quase unânime nos veículos ao redor do mundo: o resultado do jogo foi mais um sintoma de uma crise que já dura décadas. Não foi apenas uma “zebra”.

A Reuters destacou que o Brasil chegou ao sexto Mundial consecutivo sem conquistar o título, caminhando para o maior jejum de sua história. Já o The Guardian foi além e levantou uma dúvida sobre a identidade da seleção: afinal, ela ainda é um time ou se tornou apenas uma marca? O La Nación, da Argentina, resgatou um fantasma que parecia enterrado: o Brasil não caía nas oitavas de final de uma Copa desde 1990, quando Caniggia driblou Taffarel após passe de Maradona.

De fato, faltou muita coisa em campo contra os noruegueses: personalidade, criatividade, organização e coesão. Mas, sem entender por que o Brasil chegou a esse cenário, fica a dúvida se o “velho farol” morreu mesmo ou se apenas perdeu a direção.

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O que fez do Brasil o “farol” do futebol mundial?

Sempre que a Seleção fracassa em uma Copa do Mundo, vem o discurso de que é preciso “resgatar a identidade do futebol brasileiro”. A questão é que nem mesmo as seleções campeãs compartilhavam uma única identidade tática.

Quatro títulos, quatro caminhos
1970 – Criatividade
Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson e Rivellino formavam um dos ataques mais criativos da história.
1982 – Meio-campo
A seleção de Telê Santana ficou marcada pela posse de bola, troca de passes e criatividade coletiva.
1994 – Equilíbrio
Dunga e Mauro Silva sustentavam a equipe para que Romário e Bebeto decidissem as partidas.
2002 – Liberdade para os craques
A estrutura com três zagueiros e alas permitia que Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho jogassem próximos ao gol adversário.

As quatro seleções eram muito diferentes entre si. O ponto em comum não era o esquema tático. Era outro: a estratégia sempre partia das características do elenco.

O esquema vitorioso do “Brasil farol” servia aos craques. E agora?

Quando assumiu a seleção, Carlo Ancelotti deixou clara sua filosofia: “a Copa do Mundo é vencida por quem sofre menos gols, não por quem marca mais”.

Historicamente, a afirmação encontra respaldo. O problema talvez esteja na forma como ele aplicou essa ideia.

Em 1994, Carlos Alberto Parreira não transformou Romário e Bebeto em jogadores de marcação. Em vez disso, montou um sistema sólido para que a dupla pudesse decidir as partidas.

Em 2002, Luiz Felipe Scolari foi xingado de “retranqueiro”, acusado de “fechar a casinha”, e começou a Copa com o peso de não ter convocado Romário, o “melhor” atacante brasileiro. E quando a seleção começou a vencer, consolidou-se a narrativa de que o estilo defensivo era a chave do sucesso. 

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Mas seu esquema com três zagueiros tinha outro objetivo: liberar Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. A estrutura existia para potencializar o talento, não para limitá-lo.

Contra a Noruega, a sensação foi diferente. O Brasil reuniu alguns dos atacantes mais decisivos do futebol mundial, mas teve dificuldades para conectá-los ao jogo. Vinicius Júnior, Martinelli, Matheus Cunha, Rayan e, depois, Endrick passaram boa parte da partida recebendo bolas longas, longe da área ou isolados entre os defensores adversários.

O próprio La Nación resumiu a atuação como a de uma equipe “partida ao meio”, sem coesão e sem fluidez. Como se o elenco tivesse precisado adaptar suas principais virtudes ao sistema.

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A remada viking pode ajudar nesta reflexão

A remada viking virou uma das imagens mais marcantes desta Copa. Mas talvez seu maior significado esteja fora da comemoração.

Um barco não avança porque um remador é mellhor do que os outros, mas porque todos remam na mesma direção. Cada um contribui com o que tem de melhor, mas ninguém tenta conduzir o barco sozinho.

Foi exatamente isso que a Noruega mostrou diante do Brasil. Haaland decidiu quando teve a oportunidade; Ødegaard organizou o jogo; Berg, Berge e os demais cumpriram seus papéis para que o coletivo funcionasse. O brilho individual apareceu porque existia uma direção comum.

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Infelizmente, o Brasil fez o contrário: tinha nomes para decidir o jogo, mas quase nunca colocou esses jogadores onde eles rendem mais. Vinicius Júnior recebeu poucas bolas em condição real de acelerar no um contra um. Martinelli e Vini muitas vezes pisaram no mesmo pedaço do campo pela esquerda. Matheus Cunha ficou solto demais, longe da criação e sem virar referência na área. Endrick ainda perdeu a chance mais clara que teve. Neymar marcou só nos acréscimos, quando o gol já servia mais para diminuir o estrago do que para mudar a história.

Era muito talento junto, mas pouco encaixe, e talvez essa a principal reflexão deixada pela eliminação. O desafio da seleção parece não ser encontrar novos craques, copiar um esquema tático do passado ou tentar reviver 1970, 1994 ou 2002.

Segundo especialistas, o ponto é construir a própria remada viking: uma ideia de jogo que respeite as características do elenco e que conduza todos para o mesmo lado.