Eliminação da Coreia do Sul na Copa gera revolta e aprofunda crise na federação

Fracasso no Mundial levou a protestos no aeroporto, renúncias e questionamentos sobre nomeações na KFA

Sara Baptista

24 de junho de 2026 - Torcedores sul-coreanos em Seul reagem a partida da seleção na Copa do Mundo. Foto: REUTERS/Kim Hong-Ji
24 de junho de 2026 - Torcedores sul-coreanos em Seul reagem a partida da seleção na Copa do Mundo. Foto: REUTERS/Kim Hong-Ji

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A Copa do Mundo de 2026 tem produzido resultados inesperados no desempenho das seleções. Enquanto equipes tradicionais, como Alemanha e Uruguai, caíram precocemente, outras surpreenderam, caso de Cabo Verde e África do Sul.

Esta última conseguiu a classificação para o mata-mata pela primeira vez na história após vencer a Coreia do Sul. A equipe asiática não foi além da fase de grupos e encerrou sua participação no Mundial na 34ª colocação, resultado que provocou revolta entre os torcedores.

Nesta quinta-feira (2), um grupo da sociedade civil que apresentou uma denúncia criminal contra o presidente da KFA (Associação de Futebol da Coreia), Chung Mong-gyu, anunciou que incluiu também o técnico que comandou a seleção em 2026, Hong Myung-bo. A organização alega interferência indevida na nomeação do treinador da equipe nacional.

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A seleção chegou à Coreia durante a madrugada, o que não impediu que torcedores a esperassem no aeroporto de Incheon com fortes protestos, vaias e xingamentos. Entre os cartazes, alguns diziam que o futebol coreano “está morto”, enquanto outros pediam que o treinador devolvesse o salário. Hong precisou de um esquema especial de segurança para retornar ao país, já que vinha recebendo ameaças de morte.

Apesar do quarto lugar em 2002, quando sediou a Copa, a Coreia do Sul foi eliminada ainda na fase de grupos em nove das 12 edições do torneio que disputou. Desta vez, porém, a queda repercutiu de forma particularmente negativa entre os sul-coreanos.

Seleção da Coreia do Sul chega ao aeroporto de Incheon sob protestos de torcedores. Foto: Reprodução/Youtube AP

Antes mesmo de deixar o México, Hong pediu demissão na segunda-feira (29), um dia após a eliminação da Coreia ser confirmada. Na mesma data, o presidente da KFA anunciou que deixará o cargo em 20 de julho, embora seu mandato fosse até 2029.

A decisão dos dois veio um dia depois de o presidente da Coreia do Sul se manifestar sobre o caso. Nas redes sociais, Lee Jae-myung disse estar “perplexo” com o resultado e informou ter pedido ao ministério responsável que investigasse as causas da queda da seleção.

“Essa falha em se classificar para a fase final da Copa do Mundo, que deixou o público com uma sensação de vazio, parece decorrer de problemas de organização e de pessoal”, escreveu Lee, já sinalizando o motivo da revolta dos torcedores coreanos. “Considerando que recursos significativos provenientes dos contribuintes e do Estado são investidos na participação na Copa do Mundo, solicito ao Ministério da Cultura, Esportes e Turismo que examine minuciosamente as circunstâncias exatas desse episódio, analise suas causas e elabore medidas abrangentes para prevenir a reincidência e promover melhorias.”

“Pessoa incompetente”

Hong Myung-bo foi um jogador celebrado e, por muito tempo, um dos maiores ídolos do futebol sul-coreano. Em 2004, foi o único atleta do país a figurar na lista elaborada por Pelé com os melhores jogadores vivos.

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Apesar de ter sido o capitão da equipe de 2002, responsável pela melhor campanha da Coreia em Copas do Mundo, o desempenho de Hong como técnico é alvo de questionamentos. Ele comandou a seleção em 2014, na Copa do Brasil, quando o time não venceu nenhuma partida e também caiu na fase de grupos.

Na ocasião, ao retornar à Coreia, a delegação foi recebida por torcedores revoltados, que atiraram doces contra os jogadores — gesto considerado uma ofensa grave no país.

Mesmo com esse histórico, Hong voltou ao cargo dez anos depois, em 2024, sob fortes críticas. Sua escolha ocorreu em um processo considerado por muitos injusto e pouco transparente.

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Isso porque o conselho técnico da KFA havia indicado outros dois nomes para a função: Jesse Marsch, ex-técnico do Leeds United, como primeira opção, e Jesus Casas, então treinador do Iraque, como segunda.

O estatuto da KFA determina que o técnico da seleção nacional deve ser recomendado pelo Comitê de Seleções Nacionais, órgão consultivo da entidade, e posteriormente aprovado pela diretoria.

Ainda assim, em meio a uma troca na cúpula da confederação e a um acúmulo excepcional de poder pelo diretor técnico da entidade, o escolhido foi Hong Myung-bo. Há especulações de que ele tenha sido indicado ao cargo por ter estudado na mesma universidade que o presidente da KFA, Chung Mong-gyu.

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A escolha de Hong foi alvo de críticas do presidente Lee: “Se se valoriza mais os aliados do que a competência e se escolhe uma pessoa incompetente como comandante, o resultado é óbvio como a luz do dia”, escreveu.

Além das dúvidas em torno de sua nomeação, Hong também passou a ser criticado por decisões tomadas na partida contra a África do Sul. Ele deixou Son Heung-min, uma das principais referências ofensivas da seleção, no banco de reservas. Também substituiu o zagueiro Kim Min-jae, considerado um dos melhores jogadores da equipe, e só colocou Cho Gue-sung em campo aos 28 minutos do segundo tempo.

Protesto de torcedor contra o técnico da Coreia do Sul Hong Myung-bo. Foto: Reprodução/Youtube AP

“Cartel do futebol”

As críticas dos torcedores à confederação sul-coreana não são novas e, mesmo com as saídas de Hong e Chung, a população continua pedindo uma reformulação completa da KFA.

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A entidade, que recebe financiamento público, vem sendo acusada de falta de transparência e de ser controlada pelo que os sul-coreanos chamam de “cartel do futebol”. A expressão se refere a um grupo de dirigentes que priorizaria relações pessoais em vez de critérios técnicos.

Esse ponto foi abordado pelo presidente em sua publicação após a eliminação da Coreia na Copa: “O fato de ser possível uma nomeação descuidada, que não distingue o público do privado e prioriza o interesse pessoal em detrimento do interesse público, decorre da impossibilidade ou dificuldade de monitorar, fiscalizar e responsabilizar os detentores do poder de nomeação. No fim, toda organização precisa de composição e controle democráticos, além de correspondência entre autoridade e responsabilidade.”

A rusga entre o presidente e o chefe da KFA, no entanto, vai além deste episódio específico. Lee é integrante do Partido Democrático, de centro, enquanto a família Chung é tradicionalmente conservadora, com laços com o Partido da Liberdade, de extrema direita.

Desde sua recente eleição, o presidente defende a reforma dos grandes conglomerados familiares que controlam boa parte das empresas sul-coreanas. Entre eles está a Hyundai, ligada à família de Chung.

De toda forma, Chung Mong-gyu já havia sido questionado por tentar perdoar jogadores banidos do futebol por manipulação de resultados, além de ter sido convocado duas vezes para prestar esclarecimentos sobre sua atuação na Assembleia Nacional.

Antes da escolha de Hong Myung-bo, a contratação do técnico alemão Jürgen Klinsmann, em 2023, já havia seguido um processo igualmente obscuro. Ele acabou demitido após ser criticado por ter passado apenas 67 dias na Coreia ao longo de um período de seis meses.

Depois dos dois episódios, o Ministério da Cultura, Esportes e Turismo exigiu medidas disciplinares contra Chung por suposto envolvimento indevido nas nomeações de treinadores, mas a KFA levou o caso à Justiça. Em abril deste ano, um tribunal decidiu contra Chung em primeira instância.

A KFA ainda não se manifestou oficialmente sobre o tema, e as publicações mais recentes nos canais da entidade seguem sendo sobre a derrota para a África do Sul.