Clube-empresa é meio para sustentabilidade do futebol brasileiro, dizem especialistas

Painel na Expert XP destaca como clubes-empresa podem promover gestão profissional e superar entraves políticos para garantir futuro financeiro saudável

Maria Luiza Dourado

Ativos mencionados na matéria

(Fábio Luis Teixeira/InfoMoney)
(Fábio Luis Teixeira/InfoMoney)

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O futebol brasileiro precisa ser encarado como uma indústria para alcançar a profissionalização e sustentabilidade desejadas, e os modelos de “clube-empresa” são instrumentos poderosos para atingir esses objetivos, segundo Heloisa Rios, CEO da Universidade do Futebol e apresentadora do Game Changers, do InfoMoney, e Alex Bourgeois, CEO da Portuguesa SAF, que falaram durante o painel “Desmistificando as SAFs: Os caminhos para a sustentabilidade do futebol”, na Expert XP 2025, que acontece em São Paulo.

Segundo Heloisa Rios, “se quisermos profissionalizar o nosso futebol, temos que encarar o setor como uma indústria”. Ela destaca que o ecossistema do futebol é complexo, com dimensões políticas, econômicas e estratégicas, e que a transformação passa pela adoção de modelos empresariais adequados para cada clube. “Não é todo clube que precisa ou que vai se tornar SAF, mas a gente tem que discutir o ecossistema do futebol de um ponto de vista sistêmico”.

Existem diferentes modelos acionários para clubes, desde associações tradicionais, como Flamengo, Corinthians e Palmeiras, até estruturas empresariais como a Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Outros exemplos incluem sociedades limitadas, dono individual, multiclub ownership e sociedades anônimas abertas ou fechadas. Atualmente, há 99 SAFs registradas, com 6 na Série A e 9 na Série B.

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A SAF é vista como um caminho para a sustentabilidade, pois traz, segundo os painelistas, clareza estratégica, governança e gestão profissional. Heloisa ressalta que “por questões de amarras políticas, na associação, você acaba periodicamente destruindo o que foi construído”, enquanto na SAF há maior estabilidade e foco no negócio.

Alex Bourgeois exemplifica as diferenças práticas entre os modelos. Na associação, há uma constante briga política, e o presidente precisa tomar decisões para se reeleger que muitas vezes não são sustentáveis financeiramente para o clube. Já na SAF, ele é “avaliado por resultado”, promovendo um ambiente menos árido para trabalhar e também mais responsabilização caso as metas não sejam atingidas.

O executivo explicou que, na Portuguesa, a associação detém 20% das ações e um assento no conselho administrativo, enquanto o acionista principal, com 80%, é um investidor externo. Bourgeois também compartilhou a dificuldade de estabelecer a SAF e convencer conselheiros tradicionais, cujas famílias têm ligação histórica com o clube, de que a gestão externa é necessária para a sobrevivência do clube.

Mas os resultados até o momento têm sido positivos, segundo Bourgeois. A SAF permitiu renegociar uma dívida de quase R$ 560 milhões, reformar o estádio Canindé e construir um novo clube social, transportando o clube de um momento de crise para uma fase de recuperação.

Desafios e processos

A transição para o modelo SAF não é simples. O primeiro passo é a alteração do estatuto do clube, que depende da aprovação dos conselheiros, muitas vezes em número elevado — “tem clube que tem 2 mil conselheiros, 300 conselheiros”, explica Heloisa. Para isso, é necessário um trabalho de letramento para que os votantes compreendam a importância da mudança.

Nesta etapa também é definido o objetivo de quem compra uma SAF, que pode não ser necessariamente ganhar títulos, mas estruturar novos talentos para venda — o que muitas vezes causa atrito com a torcida.

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Alex também ressalta que o futebol tem uma característica única em relação a outras empresas: “de segunda a sexta-feira a gente faz tudo o que uma empresa faz. Mas no fim de semana acontece um jogo que pode ditar como será o clima dos próximos 7 dias.” O desempenho esportivo influencia diretamente o ambiente e a percepção do negócio, tornando a gestão ainda mais desafiadora.

Quando um clube deixa de ser associação e passa a ser uma empresa, esse movimento implica no aumento dos impostos a pagar: enquanto associações não pagam impostos, as SAFs começam pagando cerca de 5% — alíquota que cairá para 4,2% em 2027, mas chegará a 8,5% em 2033 com a Reforma Tributária.

Ainda assim, o modelo de SAF traria um ganho tributário importante para o clube em comparação com as SAs (Sociedades Anônimas) abertas ou fechadas, submetidas a alíquotas de quase 30%. Heloisa destaca: “Já ouvi dos dirigentes do Red Bull Bragantino: ‘Deixo R$ 50 milhões na mesa todo ano por não ser SAF”.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.