XP: Cenário econômico previsível e ambiente político agitado; o que esperar para 2026

Estabilidade pode provocar queda de juros, mas reformas fiscais ainda são necessárias, afirma XP

Erick Souza

Milhões de eleitores brasileiros participam das eleições municipais (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Milhões de eleitores brasileiros participam das eleições municipais (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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Mesmo com todas as incertezas no campo político e mundial, com as ações recentes dos Estados Unidos sobre a Venezuela e a preparação para a corrida eleitoral aqui no Brasil, a XP Investimentos avalia que o cenário econômico nacional pode ser relativamente estável este ano.

Com a desaceleração no crescimento, com o PIB estimado em 2,3% em 2025, a inflação iniciou uma trajetória de queda que deve ser aprofundada neste ano. A apreciação tardia do real combinada ao barateamento dos bens importados e a queda dos preços dos alimentos contribuíram para esse movimento.

A previsibilidade neste cenário deve permitir ao Banco Central iniciar um ciclo gradual de cortes de juros a partir de março, estimam os analistas. A projeção para a taxa Selic é de 12,50% no final deste ano, após cinco cortes consecutivos de 0,50 ponto percentual, com uma pausa para avaliação no segundo semestre.

A avaliação dos analistas é de que a política fiscal também siga com relativa tranquilidade neste ano. Após cumprir a meta fiscal para o ano que passou — com o apoio de receitas extraordinárias —, a aprovação de novas medidas de arrecadação devem dar fôlego extra às receitas em 2026.

A XP espera déficit total de R$ 45,8 bilhões em 2026 (0,3% do PIB). Excluindo as despesas fora da meta, a projeção sugere um superávit primário de 4,0 bilhões (0,0% do PIB).

Apesar do otimismo acerca da arrecadação, os analistas avaliam que o país precisará passar por um ajuste nas despesas. Com a aprovação pelo Congresso da ampliação das despesas discricionárias em detrimento das obrigatórias, a avaliação geral é de que os gastos fiquem elevados.

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Sem uma reforma (e com uma abordagem populista durante a campanha eleitoral), a avaliação mais pessimista do banco sinaliza para uma possível crise fiscal e inflação mais elevada nos anos seguintes, a partir de 2027. No cenário neutro, com medidas de contenção de despesas tomadas, mas ainda não suficientes para garantir a sustentabilidade fiscal, o banco projeta uma taxa Selic a 11% ao final de 2027.

Crescimento a longo prazo

Apesar das expectativas com os juros, de acordo com o relatório, as medidas de estímulo aprovadas pelo governo devem sustentar a demanda doméstica e pressionar o crescimento. O texto dá destaque à reforma do Imposto de Renda Pessoa Física, programas como o Novo Crédito Imobiliário e o Reforma Brasil e a expansão do crédito para PJ.

Com base nisto, a XP estima que o crescimento do PIB de 2026 fique em 1,7%, com riscos inclinados para cima. Mesmo com as expectativas de flexibilização monetária pra este e o ano seguinte, os juros devem permanecer altos no futuro.

Em meio as condições financeiras restritivas e as incertezas em torno da agenda de consolidação fiscal, que tendem a pesar sobre a demanda doméstica, para 2027, a expectativa é de crescimento ainda menor. O banco estima um aumento de 1,2% para o PIB do próximo ano, longe do potencial de 2,0%.

Partindo deste cenário, para os analistas, 2027 precisará ser um ano de reformas. Conforme o relatório, qualquer governo que assumir a gestão, precisará dar conta de reduzir despesas para manter o arcabouço fiscal. “Por ora, a premissa de trabalho para nosso cenário base é de que medidas serão tomadas, mas não de forma suficiente para garantir a estabilização da dívida pública”, afirma.

Eleições 2026

No campo político, os ânimos ficam mais agitados. Do lado global, os desdobramentos da ação dos Estados Unidos contra a Venezuela ainda estão turvos e os analisas não conseguem mensurar o impacto para o restante da América Latina, incluindo o Brasil.

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Já aqui no país, o foco recai sobre as eleições e o desenrolar da corrida eleitoral. Os primeiros meses do ano devem ser marcados pelos esforços da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro para alçar o senador como possível sucessor do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Os resultados desse aquecimento devem ditar o rumo dos demais partidos de centro-direita.

Em simultâneo, o presidente Lula segue em busca da consolidação de sua popularidade, recuperada em meados do ano passado. Ao longo de 2026, as políticas públicas adotadas pelo governo deverão orientar essa avaliação. De acordo com os analistas da XP, o desfecho da disputa deve permanecer em aberto até as proximidades da eleição.