Vendas no varejo têm queda de 1,5% em abril e indicam perda de fôlego no consumo

Recuo interrompe ciclo de três meses de alta; varejo ampliado também registra contração, refletindo aperto nas condições financeiras.

Élida Oliveira

PMC de abril teve a queda generalizada, que só não foi maior porque a categoria de supermercados, alimentos e bebidas teve avanço (Foto: Unsplash)
PMC de abril teve a queda generalizada, que só não foi maior porque a categoria de supermercados, alimentos e bebidas teve avanço (Foto: Unsplash)

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As vendas no comércio varejista apresentaram um recuo de 1,5% em abril na comparação com março, contrariando as expectativas do mercado, que projetava uma retração mais branda, de 0,6%. Os dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (16). Eles mostram que o resultado interrompe uma sequência de três meses consecutivos de alta, devolvendo o patamar dessazonalizado ao nível registrado em janeiro deste ano.

No acumulado de 12 meses, o setor ainda apresenta alta de 1,5% e, na comparação com abril do ano anterior, cresceu 1%. Em janeiro, o PMC havia registrado avanço de 0,5%; em fevereiro, 0,8% e, em março, 0,7%.

PeríodoVarejoVarejo Ampliado
Abril / Março*-1,5-0,7
Média móvel trimestral*00,1
Abril 2026 / Abril 202511,4
Acumulado 202621,8
Acumulado 12 meses1,50,2
Fonte: PMC/IBGE

Queda generalizada 

Os economistas da XP Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, destacam que a queda nas vendas do varejo foi generalizada, e só não foi maior porque a categoria Supermercados, Produtos Alimentícios e Bebidas avançou 1,3%, amortecendo a queda do indicador cheio.

De acordo com os dados do IBGE, os resultados mais fracos foram registrados na categoria de Combustíveis e lubrificantes, com expressiva queda de 6,2% após avanço de 5% em março, refletindo o choque do petróleo.

Em seguida vem Outros Artigos de Uso Pessoal e Doméstico, que caiu 4,6%; e Equipamentos e Materiais para Escritório, Informática e Comunicação, com recuo de 4,5%. Móveis e eletrodomésticos contraíram 0,8%, marcando o quinto mês consecutivo de queda.

O varejo ampliado (que inclui segmentos automotivo e de construção) também surpreendeu negativamente ao cair 0,7%, ante uma expectativa do mercado de alta de 0,2%. A categoria de Veículos decepcionou ao recuar 0,7%, e Materiais de Construção caiu 3,6%.

Para o Itaú, chamou a atenção o desempenho do setor de Atacado especializado em alimentos, que avançou 2%, mas a previsão da instituição era de 10%. Eles também citam os Combustíveis e lubrificantes, que avançaram 1,6%, mas a estimativa era de 7,2%.

“Os dados são consistentes com um início mais fraco para o varejo no segundo trimestre, e sugerem um repasse limitado dos pagamentos judiciais (precatórios) realizados no final de março. Em abril, as categorias sensíveis ao crédito apresentaram melhor desempenho, enquanto as categorias sensíveis à renda registraram queda, conforme previsto”, analisam as economistas do Itaú Natalia Cotarelli e Marina Garrido.

Condições restritivas limitam o consumo

Analisando os recortes do setor, os economistas da XP destacam a queda de 0,6% nas atividades sensíveis à renda, enquanto as atividades sensíveis ao crédito recuaram 1,4%. “Isso sugere que a fraqueza de abril foi mais visível em segmentos ligados a compras discricionárias [não essenciais] e às condições financeiras, ainda que as categorias relacionadas a alimentos tenham permanecido resilientes”, avaliam Margato e Maluf. 

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Comércio é o único setor a contrair

O resultado de abril do varejo destoa de outros indicadores econômicos do período. André Valério, economista sênior do Inter, aponta que o comércio foi o único setor pesquisado pelo IBGE a apresentar contração no mês, enquanto a produção industrial avançou 0,7% e os serviços cresceram 1,2%.

“Quando decompomos o índice de varejo de acordo com sua sensibilidade à renda e ao crédito, vemos queda em ambas as medidas, reforçando esses indícios de fragilidade no consumo, em linha com o ambiente de condições financeiras restritivas que se vê nos últimos meses”, afirma Valério. 

O economista destaca ainda que, embora o setor cresça 2% no acumulado do ano, 60% desse avanço é sustentado por itens essenciais, como alimentos, produtos farmacêuticos e combustíveis.

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Essa leitura também é observada por Leonardo Costa, economista do ASA, que enxerga no dado amplo um alerta para o curto prazo. 

“A queda disseminada entre atividades e regiões aponta para uma perda de fôlego do consumo doméstico”, avalia Costa, ressaltando que o número indica uma desaceleração no começo do segundo trimestre para o comércio. 

Trabalho e ‘bondades’ devem sustentar demanda

Apesar do balde de água fria no mês de abril, os economistas da XP ressaltam que o resultado deve ser interpretado com cautela, já que os fundamentos do consumo permanecem sólidos. “Um mercado de trabalho robusto e um amplo conjunto de medidas de estímulo anunciadas recentemente devem sustentar a demanda doméstica nos próximos meses”, avaliam os analistas, calculando que tais medidas do governo podem adicionar até 1,5 ponto percentual ao Produto Interno Bruto (PIB) neste ano

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A equipe econômica do Bradesco destaca que os dados mostram acomodação no consumo de bens, seja relacionado ao crédito ou à renda. “A desaceleração do mercado de trabalho e a política monetária em patamar restritivo tendem a pressionar o consumo das famílias para baixo. Por outro lado, as medidas de crédito divulgadas recentemente sustentam uma desaceleração mais gradual.”

Com isso, a XP recuou em sua projeção para o crescimento do PIB no segundo trimestre de 2026, que passou de 0,6% para 0,5%. O Bradesco tem a mesma projeção para o período. No fechamento do ano, a XP segue esperando uma alta de 2% no PIB total, com riscos inclinados para cima.