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A China que o presidente Donald Trump está visitando nesta semana vive um paradoxo interessante e uma situação bem diversa àquela que o presidente americano conheceu em 2017: o país asiático precisa de uma população consumindo mais – e colocou isso como meta estratégica –, mas não quer depender das empresas americanas para capturar esse crescimento. A opinião é de Theo Paul Santana, especialista em negócios China/Brasil e fundador do Destino China.
“O que Trump busca é uma abertura maior do mercado chinês para empresas americanas, especialmente em tecnologia, serviços financeiros, plataformas digitais e propriedade intelectual. Já o foco do 15º Plano Quinquenal [da China] é outro: fortalecer o consumo doméstico e reduzir a dependência da economia chinesa em relação às exportações e ao investimento pesado”, afirma Santana ao InfoMoney.
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O especialista explica que a China percebeu que o modelo baseado apenas em indústria, construção civil e exportações chegou perto do limite. Hoje, o consumo das famílias representa apenas cerca de 40% do PIB chinês — muito abaixo do observado nos Estados Unidos, onde esse percentual gira em torno de 68%, e abaixo até da média global.
“Por isso, o novo plano econômico chinês traz uma mudança importante: pela primeira vez, Pequim vinculou oficialmente o crescimento da renda da população ao crescimento do PIB. O governo também ampliou investimentos em saúde, previdência, urbanização e estímulos diretos ao consumo”, conta.
Segundo comenta Theo Paul Santana, só em programas de troca de bens de consumo, como veículos e eletrodomésticos, Pequim destinou cerca de RMB 300 bilhões [mais de R$ 221 bilhões]. Além disso, lançou subsídios universais para famílias com filhos pequenos e ampliou a cobertura previdenciária.
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Campeões nacionais
Porém, o especialista no mercado chinês alerta que existe um detalhe estratégico: aumentar consumo não significa abrir espaço para empresas ocidentais. “A China quer fortalecer o mercado interno, mas continua priorizando campeões nacionais chineses. Google, Meta, Netflix e diversas plataformas americanas seguem bloqueadas. O setor financeiro ainda possui barreiras relevantes. E o avanço do consumo tende a beneficiar principalmente empresas chinesas, não necessariamente companhias americanas”, adverte.
Sobre as diferenças que Trump deve encontrar nessa visita em relação à anterior, quando ele estava no início do primeiro mandato presidencial, o especialista diz “que o presidente americano encontra uma China economicamente mais sofisticada, tecnologicamente mais forte, menos dependente dos EUA, mas também convivendo com problemas internos muito mais complexos.
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Santana destaca que, em 2017, a China ainda era vista principalmente como a grande fábrica do mundo, extremamente dependente de construção civil, exportações e indústria pesada.
Hoje, continua o especialista, o país continua sendo uma potência industrial, mas mudou completamente de patamar tecnológico e geopolítico. “O PIB nominal chinês praticamente dobrou desde então, saindo de cerca de US$ 12 trilhões em 2017, com estimativa próxima de chegar a US$ 20 trilhões em 2026. Mais importante do que o tamanho foi a mudança de composição dessa economia. Em 2017, a China ainda competia principalmente por custo. Em 2026, ela lidera setores considerados estratégicos globalmente, como veículos elétricos, baterias, painéis solares, inteligência artificial e manufatura avançada”, comenta.
Ele diz que isso fica muito claro quando se observa o caso dos veículos elétricos. Em 2017, a presença chinesa nesse mercado era quase irrelevante globalmente. Hoje, 8 de cada 10 veículos elétricos mais vendidos do mundo são chineses, e o país controla cerca de 70% da cadeia global de baterias.
Mas, ao mesmo tempo, surgiram fragilidades inéditas. O setor imobiliário, que já representou perto de 30% do PIB chinês, entrou em colapso após a crise da Evergrande, que acumulou mais de US$ 300 bilhões em passivos. “Além disso, a China enfrenta uma bomba demográfica relevante: o país registrou queda populacional pelo quarto ano consecutivo e uma das menores taxas de natalidade do mundo”, pondera.
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E outro ponto estratégico que deve ser abordado nas conversas, é que a dependência da China em relação aos Estados Unidos diminuiu bastante. Em 2017, os EUA representavam aproximadamente 19% das exportações chinesas. Hoje, esse percentual caiu para perto de 10%. “A China diversificou mercados, fortaleceu relações com ASEAN, Oriente Médio, África e América Latina e começou a reorganizar sua cadeia global de influência econômica”, explica.