Serviços patinam em julho e atividade fraca favorece mais cortes de juros pelo BC

Moderação da atividade deve permitir que BC continue a ajustar a Selic, mas especialistas alertam para a rigidez dos preços no setor de serviços

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A atividade de serviços no Brasil voltou a patinar em julho, com estabilidade no mês (0,0%) após uma leve alta (0,1%) em julho e uma queda (-0,2%) e maio. Para os economistas, o comportamento é mais uma prova a desaceleração da economia, moderação que permitirá ao Banco Central continuar a cortar os juros, hoje em 14% ao ano.

André Valério, economista sênior do Inter sobre PMS, destacou em análise que a alta de 2,4% do setor de serviços nos últimos 12 meses até julho é a menor desde setembro de 2024.

Além disso, ele citou que o resultado de julho mostrou a grande dependência do setor aos serviços de informação e comunicação. No ano, apenas os serviços de TI, uma subdivisão dos serviços de informação e comunicação, é responsável por dois terços do crescimento total observado.

“Ainda vemos sinais de arrefecimento na dinâmica do setor como um todo, reflexo da política monetária contracionista, o que ajuda a explicar a importância dos serviços de TI no desempenho do setor, tendo em vista que é um setor ‘asset light’, pouco sensível às taxas de juros e mais correlacionado com o ciclo econômico internacional”, explicou.

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Para Valério, os dados recentes de atividade são unânimes em indicar uma moderação do ritmo de crescimento da economia. “Na nossa visão, esse movimento deve persistir pelos próximos meses, entrando em 2027, o que permitirá ao Copom seguir com os ajustes na Selic. Para a reunião de setembro, outro corte de 25 pontos base é consenso, mas esperamos que o Copom siga cortando nas reuniões restantes do ano, com a Selic alcançando 13,25% em dezembro”, projeta.

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Matheus Pizzani, economista do PicPay, concorda com essa leitura. Para ele, a maior fraqueza do setor de serviços, quando analisado sob a ótica do hiato do produto, abre espaço para o Banco Central dar prosseguimento ao ciclo de calibragem em suas próximas reuniões, “embora a maior rigidez dos preços deste setor, que no curto prazo devem ser afetados em proporção diminuta pela desaceleração da economia, sigam como impeditivo para um avanço mais significativo do que apontam as projeções atualmente”.

Para o PicPay, a projeção para o PIB de 2026 (+1,70%) e perspectiva para a Selic até o final do ano (+13,50%) permanecem inalteradas.

Na avaliação da XP, os resultados desagregados da PMS em julho foram quase a imagem espelhada dos números de junho. ‘Quatro dos cinco grandes segmentos de atividades registraram alta na comparação mensal, mas os Serviços de Comunicação e Informação — que vinham sendo o motor do setor — deram uma pausa. Enquanto isso, o Transporte Aéreo registrou seu primeiro ganho mensal em várias leituras.”

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A principal surpresa negativa, segundo a XP veio dos Serviços de Comunicação e Informação, que caíram 2,5% na comparação mensal, após liderarem o setor durante a maior parte do ano. Os Serviços de TI caíram 3,0% e os Serviços Audiovisuais recuaram 3,7% M/M, após um junho excepcionalmente forte. “Interpretamos isso como um ajuste parcial, e não como um ponto de inflexão. Em termos anuais, o grupo ainda subiu 4,6% e registrou a maior contribuição positiva isolada para o resultado principal.”

A XP diz continuar vendo uma tendência de crescimento moderado para o setor de serviços no ano, embora o mercado de trabalho ainda apertado deva continuar sustentando a demanda das famílias — os Serviços Prestados às Famílias cresceram em quatro dos últimos cinco meses em termos anuais.

“Por outro lado, as altas taxas de juros e a crescente carga do serviço da dívida das famílias continuam sendo ventos contrários relevantes. Projetamos que as receitas totais do setor de serviços cresçam cerca de 2,0% em 2026, após um aumento de 2,9% em 2025”, estima a XP.

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O Monitor XP para o crescimento do PIB do 3º trimestre de 2026 está em 0,0% na comparação trimestral e de 1,6% na anula. A projeção para o PIB de 2026 está mantida em 1,7%, arrefecendo para 1,0% em 2027.

Na opinião de Leonardo Costa, economista do ASA, com a estabilidade observada na margem, a PMS de julho mostrou-se mais fraca que o esperado. “O quadro segue apontando para atividade mais fraca na segunda metade de 2026, apontando para continuidade da desaceleração gradual. Projetamos crescimento de +0,2% para o PIB do 3º trimestre de 2026”.

Na visão de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimento, a estagnação dos serviços por dois meses seguidos é um sinal de perda de ritmo e aumenta a chance de um terceiro trimestre mais fraco, embora ainda seja cedo para falar em retração do PIB.

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“O ponto importante é que o setor continua operando perto das máximas da série, então não há uma queda disseminada, mas uma desaceleração que já aparece com mais clareza, esse crescimento não é só efeito de preços. Hoje, olhando para juros ainda altos, crédito mais caro e consumo perdendo força, esse ritmo parece difícil de sustentar. A leitura é de crescimento ainda positivo, mas mais fraco do que o observado na primeira metade do ano”, analisa.

Inflação de serviços no foco

Já André Matos, CEO da MA7 Capital, o dado de julho responde à pergunta sobre preço de forma quase brutal, porque o volume de serviços cresceu 0,9% em doze meses enquanto a receita cresceu 7,1%. “Ou seja, de cada R$ 10 a mais que o setor faturou, quase R$ 9 são preço e pouco mais de um é serviço efetivamente prestado. O setor está faturando mais sem produzir muito mais, e isso é exatamente a inflação de serviços que o Banco Central aponta como principal risco de alta”, comenta.

Sobre o terceiro trimestre, Matos não considera que haverá retração, uma vez que o setor está apenas 0,2% abaixo do topo histórico, mas ele observa que o sinal de tendência piorou, porque a média móvel do trimestre ficou zerada e, dentro dela, quatro das 5 atividades já apresentam comportamento negativo.

“Vale notar que o mês positivo veio de recomposição, com transporte e serviços profissionais devolvendo perdas anteriores, enquanto informação e comunicação, que era o motor do setor, caiu 2,5%. Isso sugere um setor girando em torno de um patamar, não avançando”, argumenta.

A avaliação de André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, vai na mesma linha. Ele diz que a estabilidade dos serviços em julho reforça um sinal de perda de fôlego da economia, ainda que seja cedo para falar em retração do PIB no terceiro trimestre.

“O setor continua crescendo no acumulado do ano, mas em ritmo moderado, e isso ganha relevância num ambiente em que o custo do crédito permanece elevado. Existe crescimento real: o volume de serviços acumula alta de 1,9% no ano, já descontado o efeito dos preços. Ao mesmo tempo, a receita nominal cresce em ritmo superior, o que mostra que parte relevante do avanço do faturamento ainda vem da inflação”, explica.

Para Caruso, esse cenário também coloca uma discussão importante sobre financiamento do crescimento. Com juros em patamar elevado e maior seletividade bancária, sustentar investimento e capital de giro exige ampliar as alternativas de funding. “Mercado de capitais, securitização, FIDCs, crédito estruturado e instrumentos lastreados em recebíveis tendem a ganhar importância, especialmente para empresas médias que não podem depender exclusivamente do crédito bancário tradicional”, lista.

“O desafio não é apenas gerar demanda, mas também garantir condições financeiras para que as empresas consigam transformar essa demanda em investimento e expansão”, diz Caruso.

Já Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, observa que a estagnação dos serviços brasileiros ocorre em um momento no qual o crescimento mundial também se tornou menos uniforme. “Investimentos em tecnologia sustentam parte da atividade global, mas conflitos, protecionismo e inflação resistente dificultam uma redução contínua dos juros. Para o Brasil, esse ambiente chega pelo dólar, pelas commodities, pelo custo do financiamento e pelo comportamento dos fluxos internacionais de capital”, avalia.

Além disso, ele comenta que, internamente, o resultado de julho aumenta a probabilidade de desaceleração do PIB no terceiro trimestre, já que os serviços representam a maior parcela da economia.

“Não é possível concluir que haverá retração, porque a atividade ainda opera em nível elevado e o mercado de trabalho continua relevante para o consumo. O alerta está na falta de força para avançar. O setor cresce de fato, mas o aumento do faturamento dependeu muito mais de preços e composição do que de volume”, afirma.