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Covid-19

Sem lockdown e com poucas vacinas, pandemia explode pelo Brasil com mutações de vírus

Entre os cinco países com maior média de mortes por dia nos últimos sete dias, o Brasil é o único com tendência de alta

Comércio de rua em São Paulo
(Rodrigo Paiva/Getty Images)

BRASÍLIA/RIO DE JANEIRO – Sob a inação do Ministério da Saúde em meio ao pior momento da pandemia de Covid-19 no país, o Brasil sofre uma disparada do coronavírus com recordes seguidos de mortes por dia e se encaminha para se tornar o país com o surto mais letal do mundo, enquanto em outros lugares a doença começa a ser contida.

Entre os cinco países com maior média de mortes por dia nos últimos sete dias, o Brasil é o único com tendência de alta, de acordo com levantamento da Reuters. O país aparece em segundo na lista, com média diária de 1.331 óbitos, atrás apenas dos Estados Unidos, com média de 1.874, mas os EUA têm tendência de queda com o avanço da campanha de vacinação.

Somente na quarta-feira o Brasil registrou 1.910 mortes em apenas 24 horas — um recorde para o país desde o início da pandemia, superando a marca da véspera, de 1.614.

O atual momento é marcado pelo avanço da variante de Manaus, mais transmissível e capaz de escapar de anticorpos de infecções anteriores por Covid-19, e pelo ritmo lento de vacinação, com apenas cerca de 3,5% da população brasileira tendo recebido ao menos a primeira dose de uma vacina.

“Estamos vivendo o pior cenário da pandemia desde o início, é só olhar a média de mortos, estamos um dia após o outro batendo a média com números maiores”, disse à Reuters o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e ex-presidente da Anvisa.

“Outro problema grave também é a questão das mutações. As mutações são fruto do aumento de reprodução do vírus, quanto maior o número de vírus, quanto mais rápida a transmissão, mais mutações nós temos”, afirmou, destacando ainda que “a vacinação é um desastre ainda pior do que a gestão da crise”.

O Brasil distribuiu até o momento cerca de 19 milhões de doses vacinas aos Estados, sendo a maior parte a CoronaVac, da Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, que inicialmente era rejeitada pelo Ministério da Saúde. Só para vacinar os primeiros grupos prioritários –trabalhadores de saúde, idosos, indígenas e pessoas com morbidades– são necessárias 104,2 milhões de doses de vacina.

Principal aposta do governo para imunizar a população, a vacina da AstraZeneca a ser envasada pela Fiocruz, sofreu atrasos na produção, enquanto o Ministério da Saúde até agora não fechou contrato com a Pfizer, cuja vacina tem sido aplicada pelo mundo desde o fim do ano passado.

Na quarta-feira, o governo anunciou a intenção de comprar 100 milhões de doses da Pfizer e 38 milhões da Janssen, mas com maior parte da entrega apenas para o segundo semestre.

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Com o ritmo lento da vacinação, a única alternativa é impedir a circulação do vírus entre as pessoas com a decretação de medidas de restrição de circulação, mas o governo federal mantém sua postura contra as quarentenas.

Sem essa ação nacional, governadores e prefeitos tentam impor medidas por conta própria para conter uma explosão de casos. Secretários estaduais de Saúde, em uma carta aberta, cobraram do ministério a coordenação de medidas nacionais, como a imposição de toques de recolher nacionais, o fechamento de aeroportos e a suspensão de transportes interestaduais para tentar conter o espalhamento do vírus.

A resposta federal veio em uma nota do ministério que apenas reforça a recomendação das medidas de prevenção como uso de máscara e evitar aglomeração, que, na verdade, não são cumpridas pelo próprio governo — a começar pelo presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com uma fonte que participou de conversas dos secretários de Saúde para cobrar do ministério uma ação mais efetiva, técnicos da pasta concordaram que seria necessário impor medidas mais duras, mas revelaram que nada podia ser feito porque o presidente não quer.

“Está todo mundo no limite já, até os (governadores) defensores do presidente. O que se está tentando fazer é chamar o ministério para responsabilidade”, disse à Reuters uma fonte que acompanha a conversa dos secretários com o ministério.

Contrário ao isolamento social desde o início da pandemia, o presidente é o principal motivo de inação do governo federal. Apesar do avanço da doença, Bolsonaro tem viajado para eventos pelo país — sempre sem máscara e causando tumultos. Além disso, chegou a ameaçar: governadores que insistirem em medidas de fechamento de comércio teriam que pagar o próprio auxílio emergencial.

Na quarta-feira, quando o Brasil bateu recorde de mortes registradas em 24 horas pelo segundo dia seguido, Bolsonaro disse que por ele “nunca teríamos lockdown”.

País em colapso

Frente ao colapso que se estabelece nos estados, governadores apontam o dedo para o ministério e para o presidente.

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Principal contraponto a Bolsonaro no enfrentamento à pandemia, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse que o Brasil vive a “triste realidade de um país que é comandando por um negacionista”, e que “não tem Ministério da Saúde e não tem coordenação para um programa de saúde pública na pior crise sanitária dos últimos 100 anos”.

São Paulo, assim como Bahia, Rio Grande do Sul e diversos outros estados, decretaram individualmente medidas de restrição da circulação de pessoas para tentar conter o vírus.

De acordo com a Fiocruz, 19 unidades da federação tinham lotação acima de 80% nas UTIs nesta semana, e apenas quatro têm lotação abaixo de 70%. Segundo alerta da fundação, pela primeira vez desde o início da pandemia, verifica-se em todo o país o agravamento simultâneo de diversos indicadores, como o crescimento do número de casos e de óbitos, a manutenção de níveis altos de incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), a alta positividade de testes e a sobrecarga dos hospitais.

“O impacto de não ter uma coordenação nacional é enorme. As coisas que poderiam ter controlado a epidemia — testagem em larga escala, rastreamento de contatos, distanciamento social real, nunca aconteceram de verdade por falta de uma política nacional coordenada”. disse à Reuters o epidemiologista Pedro Hallal, coordenador da EpiCovid, rede de pesquisa nacional que levanda a prevalência da Covid-19 na população.

Colocado no cargo por Bolsonaro para acatar suas determinações –ao contrário dos antecessores que baterem de frente com o presidente por rejeitar as recomendações de especialistas– o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, reconheceu o alto risco de contaminação vivido pelo país, em especial com a circulação da nova variante de Manaus.

Em nenhum momento, no entanto, o ministro tratou da necessidade de medidas de restrição social e de circulação de pessoas, seguindo a linha do presidente.

“O país inteiro está colapsando. Todos os estados. Então não é mais possível que as medidas fiquem sob responsabilidade apenas dos gestores estaduais, dos governadores e dos prefeitos. É impossível que a gente continue o enfrentamento dessa pandemia sem ter uma unificação de conduta”, afirmou João Gabbardo, ex-secretário-executivo da Saúde e atual coordenador-executivo do Centro de Contingência da Covid-19 de São Paulo.

Ao ser perguntado sobre o plano nacional pedido pelos governadores, Bolsonaro fez ironias e voltou a dizer, faltando com a verdade, que o Supremo Tribunal Federal (STF) lhe tirou o poder de agir. Na verdade, o STF deu também a governadores e prefeitos o poder de decretar medidas para controle da pandemia, na ausência de medidas do governo federal.

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Na contramão de uma união nacional, Bolsonaro nos últimos dias voltou as baterias contra os governadores, levantando suspeita nas redes sociais sobre o uso de recursos no combate à pandemia e inflando números de repasses federais, incluindo no mesmo pacote uma série de transferências obrigatórias e alguns recursos extras, além de tratar o pagamento do auxílio emergencial.

As acusações conseguiram unir os governadores que, depois de uma reunião por grupo de WhatsApp, divulgaram uma carta na segunda-feira, escrita pelo governador do Rio Grande do Sul e assinada por 19 deles, rebatendo Bolsonaro e acusando o presidente de priorizar o confronto e gerar informações distorcidas.

“A mentira federal sobre repasse de recursos ao Maranhão é tão absurda que o valor informado equivale quase ao dobro do Orçamento do Estado em 2020”, disse o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

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