Publicidade
O cenário macroeconômico externo é, atualmente, o principal risco para a economia brasileira, atuando como o estopim que pode agravar os problemas estruturais e a trajetória crescente da dívida pública do país. A avaliação é de Gustavo Rostelato, economista da Armor Capital, em entrevista ao InfoMoney durante a Expert XP 2026.
Para o economista, os desafios fiscais do Brasil se chocam com o aumento das taxas de juros em economias como Estados Unidos, Europa e Japão, tornando a situação do país ainda mais vulnerável.
Neste contexto, Rostelato avalia que as preocupações domésticas com o fiscal e as eleições ficam ainda mais acentuadas. “É sempre um gatilho que explode uma bomba maior”, afirmou o especialista ao comentar a relação entre a piora externa e a vulnerabilidade das contas públicas brasileiras.
Leia também: Expert XP: Durigan rejeita risco de “all in” fiscal do governo Lula no ano eleitoral
Políticas fiscal e monetária
De acordo com Rostelato, há um descompasso entre os impactos dos impulsos fiscais, que aceleram a economia, e da política monetária, que tenta conter a inflação. Enquanto a política monetária demora cerca de um ano para atingir sua potência máxima após uma alteração nos juros, a política fiscal expansionista impacta a economia de forma muito mais rápida, variando entre um e dois meses.

Essa assimetria deve chegar a um ponto crítico em alguns meses e a expectativa é que, nesse horizonte, seja feito algum ajuste fiscal para diminuir o impulso dos gastos, tornando o cenário menos expansionista, exatamente no momento em que o aperto monetário atingir sua potência máxima.
Na visão de Rostelato, a combinação dessas duas forças simultâneas pode resultar em uma desaceleração da economia. O especialista projeta que a inflação deve encerrar este ano próxima de 5% e que a taxa Selic passará por mais um corte na próxima reunião, indo a 14%, com a perspectiva de que os juros permaneçam em nível restritivo por bastante tempo, podendo recuar para 13% até meados do ano que vem.
Leia também: Expert XP: Ajuste fiscal será “no amor ou na porrada”, diz Walter Maciel
Arcabouço ficou ‘flexível demais’
Apesar de projetar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o cenário base, a Armor Capital avalia que qualquer governo, seja a manutenção do atual ou uma alternância de poder, terá que promover ajustes nas contas públicas, já que o atual arcabouço fiscal se provou “flexível demais” aos olhos do mercado.
Continua depois da publicidade
Rostelato argumenta que medidas precisam ser tomadas para conter a trajetória crescente da dívida, mas ressalta que as alternativas são, em sua grande maioria, impopulares.
Entre as opções citadas pelo especialista para frear os gastos e aumentar a arrecadação estão a desvinculação de salários, a revisão de incentivos fiscais e o retorno da discussão sobre a tributação de títulos atualmente isentos, como LCI e LCA. Mas, em ano de eleição, estas propostas não devem vir tão cedo. “Esse ano, esquece, a gente vai começar a discutir isso no ano que vem”, pontuou.
O paradoxo do petróleo
No front externo, a reescalada das tensões no Oriente Médio e a consequente alta nos preços do petróleo geram um efeito duplo para a economia nacional.
Continua depois da publicidade
Por ser um exportador líquido da commodity, o Brasil se beneficia inicialmente com os ganhos nos termos de troca. O barril de petróleo mais caro atrai dólares, o que, somado à taxa de juros elevada (carry trade), ajuda a segurar a cotação do real no curto prazo.
Por outro lado, o encarecimento do petróleo eleva os custos de frete e atua como uma força inflacionária em escala global.
Segundo Rostelato, nessa “briga entre os dois pesos”, a pressão inflacionária geralmente acaba sendo mais pesada, independentemente do alívio temporário na taxa de câmbio local.
Continua depois da publicidade
Estratégia tática e cautela
Diante de um ambiente macro global classificado como problemático e de ampla volatilidade, a Armor Capital tem evitado grandes apostas de longo prazo. A estratégia atual da gestora é focar em posições táticas mais curtas, buscando a rentabilidade próxima ao CDI.
Ele explicou que a preferência tem sido por procurar pequenas oportunidades diárias de retorno financeiro em vez de tentar sustentar teses macroeconômicas alongadas, que deixam o investidor muito suscetível aos riscos de um cenário global instável.